
A Tava, conhecida pelos povos Guarani como a «Casa de Pedra» ou «Aldeia Sagrada de Pedra», consolida-se como uma das principais candidaturas ao reconhecimento como Patrimônio Cultural do Mercosul. O local, situado no Sítio Arqueológico de São Miguel Arcanjo, no Rio Grande do Sul, representa muito mais do que as antigas ruínas das Missões Jesuíticas: para o povo Guarani, trata-se de um espaço sagrado que preserva sua memória ancestral, identidade cultural e espiritualidade, tornando-se um símbolo da herança indígena compartilhada pelos países do bloco.
Para os Guarani Mbyá, a Tava não é apenas um conjunto de edificações históricas, mas um local de profundo significado espiritual. Segundo sua tradição oral, o espaço foi construído pelos ancestrais e permanece como referência da caminhada do povo Guarani, mantendo viva sua ligação com Nhanderu, a divindade suprema de sua cosmologia. Essa interpretação amplia o valor do sítio para além da arquitetura jesuítica, incorporando sua dimensão como patrimônio vivo das comunidades indígenas.
O reconhecimento da Tava começou a ganhar força em 2015, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) registrou o local como Patrimônio Cultural do Brasil, valorizando sua importância para a memória, a identidade e a espiritualidade do povo Guarani. Esse reconhecimento representou um avanço significativo na preservação do patrimônio imaterial associado às Missões Jesuíticas.
As Ruínas de São Miguel Arcanjo já possuem reconhecimento internacional desde 1983, quando passaram a integrar a lista de Patrimônio Mundial da UNESCO, juntamente com outros sítios missioneiros localizados na Argentina. O complexo constitui um dos mais importantes testemunhos da experiência das reduções jesuíticas dos séculos XVII e XVIII, onde ocorreu um intenso intercâmbio entre as culturas europeia e indígena.
A proposta de reconhecimento da Tava como Patrimônio Cultural do Mercosul pretende destacar justamente essa dimensão compartilhada entre os países do bloco. A cultura Guarani antecede a formação das fronteiras nacionais e permanece presente no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia, fazendo da Tava um patrimônio de caráter regional e um símbolo da integração cultural sul-americana.
Especialistas em patrimônio cultural destacam que a iniciativa também fortalece a participação das comunidades indígenas nos processos de preservação e gestão do patrimônio histórico. Nos últimos anos, diversos projetos desenvolvidos pelo IPHAN, universidades e organizações culturais buscaram registrar as referências culturais dos Guarani Mbyá e ampliar sua participação na interpretação histórica das Missões.
Além de seu valor histórico e espiritual, a Tava tornou-se um importante destino de turismo cultural e religioso, integrando o Caminho das Missões, roteiro inspirado no Caminho de Santiago de Compostela que reúne elementos da tradição cristã e da cultura Guarani. A iniciativa contribui para o desenvolvimento econômico regional e para a valorização do patrimônio histórico das Missões.
O reconhecimento no âmbito do Mercosul poderá ampliar a cooperação entre os países membros em áreas como preservação do patrimônio, pesquisa arqueológica, intercâmbio cultural e turismo histórico, fortalecendo políticas conjuntas de proteção aos bens culturais compartilhados pela região. A proposta também reforça a importância de reconhecer a contribuição dos povos indígenas para a formação histórica e cultural da América do Sul.
Para historiadores e representantes das comunidades Guarani, a valorização da Tava representa um passo importante para preservar um legado que ultrapassa fronteiras nacionais. Ao reconhecer esse espaço como patrimônio cultural regional, o Mercosul reafirma o compromisso com a diversidade cultural, a memória dos povos originários e a construção de uma identidade sul-americana baseada no respeito às diferentes tradições que compõem a história do continente
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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