
Uma operação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo revelou novos detalhes de um esquema suspeito de comercializar medicamentos falsificados utilizados no tratamento contra o câncer. A ação, realizada nesta quinta-feira (5), resultou na prisão preventiva de três pessoas e no cumprimento de 18 mandados de busca e apreensão.
Segundo as investigações, medicamentos adulterados chegaram a hospitais, e pelo menos uma unidade falsificada foi administrada a um paciente em tratamento oncológico.
A Justiça também determinou o bloqueio de até R$ 15 milhões em bens e valores relacionados aos investigados, além da suspensão das atividades de sete empresas.
A ofensiva faz parte da segunda fase da Operação Laziosi, conduzida pela Divisão Especializada de Investigações Criminais (Deic), com participação do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Medicamento contra câncer não tinha princípio ativo
As investigações começaram em 2024, depois que um laboratório farmacêutico identificou a comercialização de um medicamento de alto custo falsificado a um hospital da capital paulista.
O produto, apresentado como um imunoterápico utilizado no combate ao câncer, não continha o princípio ativo necessário para o tratamento.
Análises laboratoriais apontaram a ausência de pembrolizumabe, substância utilizada em determinados tratamentos oncológicos.
Uma perícia também identificou que a solução de um dos frascos falsificados continha componentes como sódio e cloro, sem a substância terapêutica esperada.
O caso é especialmente grave porque medicamentos dessa categoria são utilizados para auxiliar o sistema imunológico a combater células cancerígenas.
A utilização de um produto sem o princípio ativo pode comprometer a eficácia do tratamento e expor pacientes a riscos.
Paciente recebeu dose de medicamento falsificado
Outro episódio identificado pelos investigadores ocorreu em abril de 2025.
Segundo a apuração, uma distribuidora comercializou nove unidades falsificadas de outro medicamento contra o câncer a um hospital do interior paulista.
O estabelecimento informou que uma das unidades chegou a ser administrada a um paciente.
As outras oito foram posteriormente recolhidas pela distribuidora e substituídas por produtos de um lote que coincidia com uma carga anteriormente roubada em Minas Gerais.
A investigação busca esclarecer a extensão das irregularidades e identificar todos os responsáveis pela circulação dos medicamentos.
Não foi divulgado um balanço definitivo sobre o número total de pacientes potencialmente afetados.
Esquema teria movimentado milhões de reais
De acordo com o Ministério Público, a distribuidora investigada mantinha relações com uma rede de empresas utilizadas na comercialização dos produtos.
Parte dessas companhias não apresentava estrutura operacional compatível com as atividades declaradas nos registros oficiais.
Somente entre janeiro e novembro de 2024, notas fiscais relacionadas a um dos medicamentos investigados ultrapassaram R$ 1,5 milhão.
Os documentos indicavam destinatários em pelo menos sete estados brasileiros.
As autoridades também investigam possíveis operações de lavagem de dinheiro e estimam que outros valores possam ter sido movimentados pelo esquema ao longo dos anos.
O bloqueio judicial de até R$ 15 milhões pretende preservar recursos que poderão ser utilizados em eventuais medidas de reparação e recuperação patrimonial.
Operação ocorre em seis cidades paulistas
Os mandados foram cumpridos em Araraquara, Matão, Marília, Agudos, Mirassol e São Paulo.
Na capital, policiais localizaram medicamentos oncológicos com suspeita de falsificação. Os produtos deverão passar por análises para determinar sua autenticidade e procedência.
Além das três prisões preventivas, foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão.
Documentos, equipamentos eletrônicos e outros materiais recolhidos durante a operação serão examinados para identificar possíveis integrantes adicionais da organização investigada.
Falsificação de medicamentos representa risco à saúde pública
A comercialização de medicamentos falsificados representa uma ameaça especialmente grave para pessoas que dependem de tratamentos contínuos ou de alta complexidade.
No caso dos pacientes com câncer, a ausência da substância necessária pode comprometer uma etapa essencial da terapia.
A aparência semelhante à de um medicamento legítimo também dificulta a identificação de produtos adulterados por pessoas sem conhecimento técnico.
Por isso, a rastreabilidade dos lotes, a verificação da procedência e o controle da cadeia de distribuição são fundamentais para a segurança dos pacientes.
Quem tiver dúvidas sobre a autenticidade de um medicamento utilizado em tratamento deve procurar o serviço de saúde responsável e os canais oficiais de vigilância sanitária, sem interromper a terapia por conta própria.
Investigação continua
A Polícia Civil informou que dará continuidade à análise dos materiais apreendidos e ao rastreamento dos recursos financeiros relacionados às empresas investigadas.
O objetivo é identificar outros possíveis envolvidos, dimensionar o alcance da distribuição dos medicamentos e esclarecer se novos estabelecimentos de saúde foram afetados.
As três pessoas presas são investigadas por participação no esquema. As responsabilidades individuais ainda dependem da conclusão das investigações e das decisões judiciais.
Da IstoÉ
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