
Depois da corrida contra o relógio no Monte Aragats, a chegada à Estação Central de Yerevan teve sabor de alívio. No pátio, repousava a composição noturna: uma locomotiva soviética pesada, imponente e austera, mas tracionando vagões modernos, reformados e surpreendentemente confortáveis.
O bilhete indicava uma cabine de segunda classe com quatro leitos retráteis — dois assentos inferiores que se convertem em camas e dois beliches superiores dobráveis —, tomada para carregar eletrônicos e até ducha no banheiro coletivo. Acomodei a cargueira sob o banco e conheci meus companheiros de viagem: uma jovem chinesa que falava pouco inglês, Michael, um norueguês reservado, e Andrés, um sujeito falante de pai argentino e mãe chilena radicado em Roma, com quem engatei uma longa conversa em espanhol enquanto o trem cortava a escuridão rumo ao norte.
Às 3h da manhã, o comboio freou bruscamente na fronteira em Sadakhlo. Do lado armênio, oficiais subiram no vagão, recolheram passaportes, carimbaram e liberaram a composição. Trinta minutos depois, o trem parou no posto de controle georgiano.
Na Geórgia, o procedimento exigia desembarcar na plataforma gélida da madrugada para a checagem no posto de controle. Andrés estava visivelmente tenso; relatou que em viagens anteriores já havia sido retido e interrogado com rigor pelas autoridades de fronteira. E o padrão se repetiu: os agentes subiram primeiro ao nosso compartimento para interrogá-lo e revirar seus pertences. Minha passagem pelo guichê foi rápida e sem atritos, mas quando retornei ao leito, encontrei as roupas e mochilas de Andrés espalhadas pela mesa. Os guardas haviam feito uma revista minuciosa.
Conseguimos deitar por volta das 5h30, mas o descanso durou pouco. Às 6h20, a atendente do vagão começou a bater de porta em porta recolhendo as roupas de cama com uma insistência soviética. Ao se vestir, Andrés abriu a carteira e levou as mãos à cabeça: faltava uma nota de cem dólares. O caos instalou-se no corredor. Indignado, ele começou a acusar a funcionária pelo sumiço enquanto o trem manobrava na chegada à Estação Central de Tbilisi. Com a polícia sendo acionada na plataforma, despedi-me do colega de cabine, desejei sorte para reaver o dinheiro e toquei minha rota. O relógio da montanha não espera.
A mítica Estrada Militar Georgiana
Eram cerca de 7h da manhã. Desci direto para o metrô de Tbilisi — acessível com o simples toque do cartão por aproximação — rumo à estação de Didube, o ponto nevrálgico de onde partem as marshrutkas (as tradicionais vans compartilhadas do leste europeu) para o norte do país.
Esperei a casa de câmbio abrir para trocar alguns euros por lari georgiano, tomei um café quente e garanti meu assento na van por 25 laris (cerca de 50 reais). O destino: Stepantsminda (antigamente conhecida como Kazbegi), vilarejo encravado aos pés da fronteira com a Rússia e portal de entrada para o Cáucaso Central.
A viagem de três horas corta a lendária Estrada Militar Georgiana, uma rota histórica e estratégica através da cordilheira. À medida que nos afastávamos de Tbilisi, a pista serpenteava ao longo do Rio Aragvi, cruzava represas hidroelétricas e subia abruptamente em curvas fechadas. A vegetação de folhosas deu lugar a florestas de coníferas e, logo acima, a prados alpinos cercados por paredões de rocha e picos nevados reluzindo sob o sol. O ar rarefeito e frio anunciava: eu estava no coração do Cáucaso.
Cheguei a Stepantsminda ao meio-dia. A vila se desenvolve ao longo da rodovia principal, entre pousadas familiares, restaurantes rústicos e lojas de montanha, vivendo do turismo de quem vai explorar a região ou encarar os glaciares. No hotel, não havia recepção; telefonei para a proprietária, que apareceu minutos depois. Como o quarto ainda estava sendo limpo pelos hóspedes anteriores, deixei a cargueira e saí para resolver a logística do cume.
Decisões solitárias aos pés do gigante
O objetivo é o temido e imponente Monte Kazbek (Mkinvartsveri, ou «Pico de Gelo«, no idioma local), um estratovulcão adormecido de 5.054 metros de altitude coberto por geleiras densas e fissuradas.
Entrei em uma pequena agência de trekking em busca de informações sobre a Betlemi Hut (a antiga estação meteorológica soviética a 3.650 metros que serve de refúgio-base para a escalada). O funcionário não era montanhista e precisou fazer várias ligações até conseguir o e-mail dos administradores do refúgio. Enviei a mensagem enquanto almoçava e o retorno foi rápido: o abrigo estava aberto e com vagas, bastando chegar e pagar a diária.
Com o refúgio confirmado, aluguei botas rígidas — minha bota semirrígida que funcionou no Aragats congelaria os dedos acima dos 4.500 m na Geórgia —, um fogareiro compacto, comprei cartucho de gás, refeições liofilizadas e abasteci mantimentos em um mercadinho.
À noite, a proprietária do hotel demonstrou a acolhedora hospitalidade georgiana. Ao saber que eu sairia muito antes do café das 9h, bateu à porta do meu quarto trazendo um prato de ovos cozidos e um khachapuri caseiro quentinho — o tradicional pão recheado com queijo fundido salgado, perfeito para carregar energia.
A dívida de sono dos últimos três dias cobrou a conta. Acordei zonzo com o despertador, me atrasei reorganizando as mochilas e ainda tive que traduzir mensagens no celular para pedir que a dona guardasse minhas roupas limpas e eletrônicos urbanos. Quando cheguei ao ponto de encontro às 9h30, não havia ninguém para rachar o transporte 4x4. Paguei 60 laris e subi sozinho até a Igreja da Trindade de Gergeti (Tsminda Sameba), o icônico templo do século XIV isolado a 2.170 metros que estampa os cartões-postais da Geórgia.
Ali, no estacionamento da igreja, os turistas comuns desembarcam apenas para fotografar a capela medieval com o gigante branco ao fundo. Eu era o único ajustando as fitas de uma cargueira pesada, com botas robustas amarradas do lado de fora, machado de gelo e crampões prontos para subir.
O Kazbek é uma montanha que domino tecnicamente, mas encará-la em solitário traz um peso psicológico inevitável. Suas geleiras têm gretas profundas ocultas pela neve recente; vídeos na internet mostram escaladas solo, mas a linha entre a eficiência e a tragédia numa fenda invisível é tênue quando não há companheiro de cordada para fazer a segurança. Viajar e escalar sozinho exige conviver com a incerteza a cada decisão.
Ajustei as alças da mochila, respirei fundo o ar gelado do vale e dei os primeiros passos rumo à Betlemi Hut. Como foi cruzar as geleiras e tentar o cume deste vulcão mítico é a história da nossa próxima coluna.
ESPECIAL PAÍSES DO CÁUCASO:
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https://turismo.ig.com.br/colunas/pedro-hauck/2026-11-05/fronteiras-tensas–o-trem-da-georgia-e-os-pes-do-kazbek.html
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