
247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, enfrenta pressão de integrantes do próprio Partido Republicano para rever sua estratégia política após a derrota nas eleições de meio de mandato, que garantiu aos democratas o controle do Congresso e representou um revés para candidatos apoiados pela Casa Branca. Aliados e estrategistas republicanos defendem mudanças na equipe presidencial, maior disciplina administrativa e revisão de medidas impopulares, como a guerra contra o Irã e a política tarifária. As informações são de reportagem da Reuters, publicada nesta quarta-feira (4).
O resultado eleitoral também amplia os obstáculos para a segunda metade do mandato de Trump. Com maioria na Câmara e no Senado, os democratas poderão bloquear projetos do presidente, investigar integrantes de sua administração e dificultar a aprovação de indicações para cargos federais. A nova composição legislativa deve obrigar a Casa Branca a rever sua estratégia de articulação política, embora Trump não tenha demonstrado disposição para alterar sua agenda.
O estrategista republicano John Feehery classificou o resultado como um grande fracasso político para o presidente e defendeu uma reformulação na administração.
“Ele precisa fazer uma limpeza geral”, afirmou Feehery. Em seguida, acrescentou: “A cada dia, a partir deste momento, ele se torna cada vez mais um presidente sem força política”.
Trump, entretanto, rejeitou a interpretação de que a derrota represente uma avaliação negativa de sua liderança. Em entrevista à Fox News, na noite de terça-feira (3), declarou: “Não vejo isso como um golpe contra mim”.
Casa Branca prevê saída de funcionários e investigações democratas
O resultado das eleições provocou preocupação entre integrantes da administração federal. Segundo um alto funcionário da Casa Branca ouvido pela Reuters sob condição de anonimato, assessores importantes já se preparam para possíveis saídas de integrantes do governo, mudanças no gabinete presidencial e investigações conduzidas pelos democratas.
O clima interno foi descrito como de desânimo diante da perspectiva de perda de influência política e do aumento da fiscalização parlamentar.
“É absolutamente péssimo estar aqui neste momento”, afirmou o funcionário. “O moral está tão baixo quanto poderia estar”.
De acordo com o relato, pesquisas internas realizadas seis semanas antes das eleições já indicavam o risco de derrotas republicanas nas duas Casas do Congresso. Mesmo diante dos alertas, Trump não teria aceitado rever sua posição sobre a guerra contra o Irã, apesar das advertências sobre os possíveis efeitos eleitorais do conflito.
“No fim das contas, ele simplesmente não se importou”, disse o funcionário. “Ele se recusou a ouvir qualquer pessoa”.
O próprio presidente reconheceu, na noite de terça-feira, que a guerra contra o Irã, iniciada oito meses antes, prejudicou candidatos republicanos. Apesar disso, voltou a defender a decisão de iniciar o conflito.
Guerra contra o Irã e tarifas entram na lista de críticas
A política externa e as decisões econômicas de Trump estão entre os principais pontos de divergência dentro do Partido Republicano após o resultado eleitoral.
Aliados do presidente defendem mudanças na condução da guerra contra o Irã e na política tarifária, medidas que, segundo estrategistas republicanos, contribuíram para afastar eleitores e comprometer o desempenho dos candidatos do partido.
O vice-presidente JD Vance também demonstrou distanciamento em relação à posição de Trump sobre o conflito. Na quarta-feira (4), atribuiu à guerra parte da responsabilidade pelas perdas republicanas, em um movimento que evidencia divergências dentro do grupo político que sustenta o governo.
Vance é considerado um dos principais nomes para dar continuidade ao projeto político de Trump e uma possível liderança republicana na disputa presidencial de 2028. Segundo estrategistas e integrantes do partido ouvidos pela Reuters, novos afastamentos poderão ocorrer caso os republicanos concluam que a influência do presidente sobre o eleitorado está diminuindo.
Reforma da Casa Branca também provoca desgaste
As críticas internas não se limitam à política externa. Assessores republicanos também demonstraram preocupação com a atenção dedicada por Trump às obras de reforma da Casa Branca, especialmente à construção de um novo salão de eventos.
Segundo um assessor político republicano ouvido pela Reuters, grupos focais realizados durante o verão norte-americano em estados estratégicos, como Michigan e Iowa, identificaram crescente insatisfação entre eleitores republicanos e independentes com a prioridade dada pelo presidente às intervenções na sede do governo.
A preocupação é que o tema seja associado ao distanciamento da administração em relação aos problemas cotidianos da população.
“Se Trump passar os próximos dois anos falando sobre essa mesma porcaria, seremos derrotados novamente de forma esmagadora na próxima eleição”, afirmou o assessor.
Mesmo depois da derrota, Trump voltou a demonstrar interesse pelo projeto. Na quarta-feira, reuniu jornalistas para uma visita improvisada ao canteiro de obras do salão de eventos e defendeu o tempo dedicado à construção.
“Para mim, é relaxante”, declarou.
A Casa Branca também adotou um discurso público de resistência às críticas. Em uma publicação nas redes sociais, divulgou uma fotografia do presidente acompanhada da mensagem: “AVISO: TRUMP AINDA É O SEU PRESIDENTE”.
Democratas terão poder para investigar o governo
A nova maioria democrata representa uma mudança importante no funcionamento do Congresso. Além de dificultar a aprovação de propostas presidenciais, o partido poderá controlar comissões legislativas com poderes para convocar autoridades, solicitar documentos e investigar decisões da administração federal.
As apurações poderão alcançar diferentes áreas do governo, ampliando o desgaste político da Casa Branca e criando novos obstáculos para a execução da agenda presidencial.
Diante desse cenário, Trump poderá recorrer ainda mais a medidas executivas para implementar suas prioridades sem depender de votações no Congresso. Segundo a Reuters, a administração já vinha preparando iniciativas unilaterais em áreas como imigração, tarifas comerciais, habitação e gastos federais.
A utilização de poderes executivos, entretanto, não impede que o Congresso investigue a administração ou convoque integrantes do governo para prestar esclarecimentos.
” Ninguém quer lidar com as investigações”, afirmou o funcionário da Casa Branca ouvido pela agência.
Republicanos enfrentam disputa sobre o futuro do partido
A derrota eleitoral também abriu uma discussão interna sobre os rumos do Partido Republicano e a conveniência de manter a atual estratégia presidencial até o fim do mandato.
Parte dos aliados considera que a insistência em políticas impopulares poderá ampliar as dificuldades eleitorais da legenda e comprometer os planos de dirigentes que pretendem disputar a Presidência em 2028.
O cenário coloca JD Vance e outros possíveis sucessores diante da necessidade de administrar a relação com Trump e, ao mesmo tempo, preservar espaço político próprio. O vice-presidente já sinalizou divergência sobre a guerra contra o Irã, enquanto estrategistas republicanos defendem uma revisão mais ampla da atuação do governo.
Apesar das cobranças, Trump continua exercendo influência significativa sobre o partido e não indicou que pretende abandonar suas principais prioridades. A disputa entre a manutenção de sua agenda e as exigências por mudanças deverá marcar a relação entre a Casa Branca e os republicanos durante a segunda metade do mandato.
https://www.brasil247.com/mundo/republicanos-ja-cobram-mudanca-de-rumo-de-trump-apos-derrota-nas-eleicoes/
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