
Mais do que tentar prever os próximos movimentos da economia, empresas devem fortalecer o balanço, controlar o endividamento e investir em tecnologia e gestão para enfrentar um ambiente de incertezas.
O empresário não tem como controlar os juros, o cenário geopolítico ou o ritmo de crescimento da economia. Mas pode decidir como vai administrar o próprio negócio diante dessas condições.
Em um ambiente de incertezas, a recomendação é concentrar esforços no que está ao alcance da empresa: fortalecer o balanço, controlar os riscos e se preparar para diferentes cenários econômicos.
«Tem coisa que a gente controla e coisa que a gente não controla», disse Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, durante o Tax Revolution, evento promovido pelo Mercado & Opinião nesta quarta (4).
«Lá no banco, a gente tomou a decisão de focar no que a gente controla: o que a gente faz de investimento, como faz a gestão do nosso risco de crédito, como faz a gestão do nosso risco de mercado e, principalmente, ter certeza de que está conseguindo entender o cenário em que está navegando e como isso deve afetar a gestão dos negócios e dos riscos», afirmou.
O evento reuniu 500 pessoas, entre empreendedores e executivos de finanças. Para Marcos Koenigkan, presidente do Mercado & Opinião, a capacidade de entender as transformações econômicas também será determinante para as decisões de investimento das empresas.
«Em cenário de transição, o capital fica mais seletivo. Ele vai para quem consegue mostrar que entende o novo custo do próprio negócio. O que tentamos fazer hoje foi dar ao empresário os elementos para decidir onde colocar dinheiro nos próximos anos, com a reforma tributária já dentro da conta», disse Koenigkan.
Forças que estão transformando a economia mundial
Na avaliação de Sallouti, cinco grandes movimentos estão redesenhando a economia global. A primeira transformação é a reorganização geopolítica, marcada por disputas de poder, conflitos regionais e desglobalização.
Sallouti lembra que o mundo passou cerca de quatro décadas em um período de relativa estabilidade e integração econômica, impulsionado, entre outros fatores, pela abertura da China e do Leste Europeu.
Esse ciclo, no entanto, ficou para trás. A fragmentação das cadeias de suprimentos, o aumento das tarifas comerciais e as tensões entre países criam um ambiente mais propenso à inflação.
«A gente vive agora cenário de guerras, conflitos, desglobalização e aumento de tarifas», afirmou.
A segunda força é o fim da era dos juros próximos de zero nas economias desenvolvidas. Entre 2010 e 2023, investidores se acostumaram a conviver com taxas zeradas ou até negativas em alguns mercados. Para o executivo, esse cenário não deve voltar tão cedo.
A terceira transformação está relacionada às mudanças climáticas. Para Sallouti, alterações nos padrões de secas e enchentes devem ser encaradas como parte de uma mudança estrutural, e não como acontecimentos isolados.
Esse cenário já levou o BTG Pactual a reformular modelos preditivos de inteligência artificial utilizados em operações de energia e seguros agrícolas.
A quarta força é a transformação da China em uma potência tecnológica e de marcas. O país deixou de ocupar apenas o papel de fornecedor de mão de obra barata e passou a desenvolver produtos, tecnologias e empresas próprias.
A presença chinesa em setores como aço, petroquímica e energia solar amplia a competitividade global e exerce pressão deflacionária sobre diferentes mercados.
Por fim, a quinta força é a inteligência artificial. Para Sallouti, a tecnologia pode provocar uma transformação ainda maior do que a internet e até mesmo a Revolução Industrial.
Para explicar o potencial da tecnologia, o CEO do BTG fez uma comparação entre as duas revoluções. Enquanto a Revolução Industrial transformou energia em força física, a inteligência artificial permite transformar energia em inteligência.
Segundo Sallouti, a discussão sobre a adoção da ferramenta dentro do BTG Pactual já deixou de ser quais áreas utilizam IA e passou a ser quais ainda não utilizam.
«Para mim isso aqui é mais disruptivo do que foi a internet e, se bobear, é mais disruptivo do que foi a Revolução Industrial«, afirmou.
O que falta para o Brasil crescer?
Apesar das transformações internacionais, Sallouti avalia que o Brasil precisa enfrentar três problemas estruturais para crescer de forma mais consistente: juros, segurança e produtividade.
O primeiro deles é o custo do dinheiro. Na avaliação do executivo, o caminho para reduzir os juros não exige soluções complexas, mas disciplina fiscal.
A proposta de Sallouti é que as despesas públicas cresçam apenas o suficiente para acompanhar a inflação, sem aumento real. Ele ressalta que não defende o corte de programas sociais ou investimentos essenciais, mas uma mudança no ritmo de expansão dos gastos.
«Eu não estou falando em cortar gastos e benefício social. Eu estou falando que crescer os gastos do governo 0% acima da inflação por ano. Isso já seria o suficiente que a gente pudesse cair rapidamente os juros no Brasil«, afirmou.
O executivo também criticou propostas que, na visão dele, tentam encontrar soluções pouco convencionais para os problemas fiscais.
Como exemplo de que a disciplina fiscal pode abrir espaço para juros menores, Sallouti citou o período entre 2017 e 2019, quando a Selic caiu de 13,75% para 4,5%, enquanto a inflação permaneceu entre 3% e 4,5%.
O segundo desafio é a segurança, que, para Sallouti, devem ser consideradas três dimensões: pública, jurídica e tributária.
A primeira envolve a proteção da sociedade e da atividade econômica contra práticas criminosas, incluindo esquemas de lavagem de dinheiro.
A segurança jurídica está relacionada à previsibilidade das regras e ao cumprimento dos contratos, enquanto a tributária depende de normas mais estáveis para as empresas.
Produtividade e educação são desafios de longo prazo
O terceiro pilar é a produtividade. Na avaliação do executivo, o Brasil precisa superar uma estagnação que já dura décadas.
Para mudar esse quadro, Sallouti aponta a necessidade de investimentos em infraestrutura, simplificação burocrática e, principalmente, educação.
Uma das iniciativas ligadas a esse objetivo é o Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), faculdade criada com uma proposta de ensino baseada em projetos reais e na integração da inteligência artificial ao aprendizado.
O modelo utiliza a metodologia Project–Based Learning, em que os estudantes desenvolvem projetos práticos para aproximar a formação acadêmica das demandas do mercado.
A instituição também mantém um programa de bolsas privadas em que metade dos alunos recebe apoio integral, incluindo mensalidade, moradia, alimentação e equipamentos.
Como proteger a empresa em um cenário de juros altos?
Para quem empreende, a análise do cenário econômico precisa se transformar em decisões concretas de gestão. A principal recomendação de Sallouti é não montar o planejamento da empresa considerando apenas uma perspectiva otimista.
O empresário deve estar preparado para enfrentar juros elevados e uma economia em ritmo mais lento. Isso significa dar atenção especial à estrutura de capital, evitar o excesso de endividamento e manter disciplina financeira.
Segundo ele, empresas que atravessarem esse período com balanços mais sólidos terão condições de aproveitar oportunidades quando o mercado passar por momentos mais difíceis.
«Trabalhe com que o cenário vai ter taxa de juro alta, desaquecimento econômico. Se preparem para isso, porque se não vier isso, você tá pronto e vai ser ótimo. E se vier isso, você está lá.»
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