
247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que pretende encerrar até o fim de 2026 a ajuda militar anual americana a Israel, atualmente estimada em US$ 3,8 bilhões. A declaração surpreendeu autoridades israelenses e abriu uma controvérsia sobre o futuro da relação estratégica entre os dois países, especialmente porque o acordo de assistência em vigor só termina em 2028.
Segundo o jornal The Times of Israel, Trump fez o anúncio durante uma entrevista por telefone à Fox News, afirmando que havia chegado a um entendimento com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu meses antes. “Quanto a pagar Israel, Bibi Netanyahu e eu fizemos um acordo — damos a Israel US$ 4 bilhões por ano — fizemos um acordo meses atrás de que vamos parar”, declarou.
Trump justificou a decisão afirmando que Israel alcançou um nível de desenvolvimento econômico que dispensa a assistência financeira americana. “Israel se tornou um país muito bem-sucedido” e “não precisa” mais do dinheiro, afirmou. O presidente acrescentou que Washington continuará disposto a ajudar seu aliado em caso de necessidade.
Anúncio surpreende autoridades israelenses
A declaração provocou surpresa nos ministérios das Finanças e da Defesa de Israel, que não haviam recebido comunicação formal sobre uma interrupção imediata dos repasses.
Um funcionário do Ministério das Finanças afirmou ao portal Walla que o governo conhecia a intenção de encerrar gradualmente a assistência, mas não esperava que a medida fosse antecipada.
“O ministério estava ciente da intenção de encerrá-la, mas foi surpreendido pela intenção de fazê-lo imediatamente”, declarou.
Um alto funcionário da Defesa também manifestou perplexidade à emissora pública Kan. “Não esperávamos esse anúncio, certamente não hoje”, afirmou, acrescentando que ainda seria necessário avaliar suas consequências.
O anúncio contrasta com o memorando de entendimento firmado entre Washington e Tel Aviv, que prevê US$ 3,8 bilhões anuais até 2028. Desse montante, US$ 3,3 bilhões são destinados ao financiamento militar e US$ 500 milhões à defesa antimísseis, sendo a maior parte dos recursos utilizada na compra de armamentos produzidos nos Estados Unidos.
Oposição acusa Netanyahu de comprometer a segurança
A oposição israelense reagiu com críticas ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
Gadi Eisenkot, presidente do partido Yashar, afirmou que o fato de as autoridades de Defesa terem tomado conhecimento da mudança pela imprensa demonstra problemas na condução das relações com Washington.
“O fato de o aparato de defesa, junto com os cidadãos israelenses, estar sabendo pela mídia de uma mudança na relação estratégica mostra o quanto a conduta de Netanyahu representa um perigo real”, declarou.
Yair Golan, líder do partido Democratas, alertou que a interrupção da assistência poderá comprometer a segurança israelense em um momento de aumento dos gastos militares e necessidade de recomposição dos estoques de armamentos.
“A cessação da ajuda dos EUA é um dano pesado à segurança de Israel”, afirmou.
Avigdor Liberman, presidente do Yisrael Beytenu, também criticou o governo e declarou que o preço do apoio político de Trump a Netanyahu seria de US$ 3,8 bilhões anuais.
Netanyahu já havia defendido publicamente a redução gradual da dependência israelense da ajuda americana, mas em um horizonte mais longo. Em janeiro, afirmou à revista The Economist que pretendia alcançar esse objetivo em uma década. Em maio, disse à CBS que desejava reduzir a assistência a zero.
Debate sobre ajuda a Israel cresce nos Estados Unidos
A declaração de Trump ocorre em meio a mudanças na opinião pública americana sobre o apoio militar a Israel, especialmente após a guerra em Gaza.
Uma pesquisa da Universidade Quinnipiac, realizada em junho, apontou que 48% dos eleitores americanos consideravam excessivo o apoio dos Estados Unidos a Israel. Entre os democratas, o percentual chegava a 66%.
Em 2017, quando a pergunta foi feita pela primeira vez, os índices eram de apenas 16% e 20%, respectivamente.
Nos Estados Unidos, as reações ao anúncio foram divergentes. Morton Klein, presidente da Organização Sionista da América, questionou por que Washington não encerraria também a assistência destinada a outros países do Oriente Médio.
Matt Brooks, diretor-executivo da Coalizão Judaica Republicana, afirmou que a redução da ajuda vinha sendo discutida entre os governos e poderia fortalecer a cooperação bilateral.
Já Ilan Goldenberg, dirigente do grupo liberal J Street, observou que o anúncio reflete mudanças no debate político americano, mas ponderou que ainda não é possível saber se a decisão será efetivamente implementada.
Ajuda militar supera US$ 300 bilhões desde 1948
Desde a criação de Israel, em 1948, os Estados Unidos destinaram ao país mais de US$ 300 bilhões em assistência econômica e militar, em valores corrigidos pela inflação, segundo dados do Conselho de Relações Exteriores.
Embora a importância relativa desses recursos tenha diminuído com o crescimento da economia israelense, o apoio americano continua sendo um componente relevante do financiamento militar do país.
O orçamento de Defesa de Israel alcançou níveis recordes em 2025, refletindo o aumento dos gastos militares após a guerra em Gaza e os confrontos regionais.
A declaração de Trump, contudo, ainda não representa uma suspensão formal dos repasses. O acordo bilateral vigente prevê assistência até setembro de 2028, e não foram apresentados os instrumentos jurídicos necessários para antecipar seu encerramento.
A divergência entre o anúncio presidencial e os compromissos existentes deixa em aberto o futuro do financiamento militar americano a Israel e acrescenta um novo elemento de tensão à relação entre Trump e Netanyahu.
https://www.brasil247.com/mundo/trump-anuncia-fim-da-ajuda-militar-dos-eua-a-israel-ate-dezembro-e-surpreende-netanyahu/
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