
Reduzir a dependência de combustíveis fósseis, adaptar sistemas energéticos às condições de cada país, identificar causas de desmatamento e ampliar o financiamento para conservação e restauração florestal estão entre as estratégias propostas em dois Mapas do Caminho apresentados nesta terça-feira (3) pela Presidência brasileira da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). Os documentos buscam orientar os governos na definição de políticas e investimentos para implementar os compromissos climáticos já assumidos. Antes de encerrar seu mandato, o Brasil disponibilizou os materiais de direcionamento para consulta dos países, que devem ser novamente apresentados durante a COP31, que inicia no próximo dia 9, na Turquia.
O “Mapa do Caminho para a Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis nos Sistemas Energéticos” e o “Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030” foram lançados em uma cerimônia com André Côrrea do Lago, presidente da conferência no Brasil, pela a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, o atual ministro da pasta, João Paulo Capobianco, e Ana Toni, CEO da COP30.
Ambos são a entrega de uma promessa feita ainda na plenária de encerramento da COP30, em 2025, em Belém (PA), e foram inspirados no chamado do presidente Lula para ir além das declarações e acelerar a implementação de uma política climática.
Na prática, os governos devem aproveitar os mapas como manuais em cinco etapas para revisar e aprimorar suas estratégias:
1) autodiagnóstico, para avaliar questões como a dependência dos combustíveis fósseis e a capacidade de ampliar fontes renováveis e os principais vetores de desmatamento;
2) alinhamento de políticas, identificando que lacunas existem;
3) definição de prioridades, podendo encontrar recomendações nos mapas do caminho, sobre como agir em cada tipo de situação;
4) incorporação das medidas nos planos nacionais, como as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs);
5) mobilização de recursos a partir das informações estruturadas. Assim, os países podem buscar por financiamento e cooperação internacional.
Ainda que não sejam instrumentos de negociação e estejam fora, a priori, das discussões formais da conferência, os documentos encerram o ciclo da presidência da COP30 no Brasil, “devolvendo a bola aos países”, segundo Stela Herschmann, líder em política internacional do Observatório do Clima. “Acabaram as desculpas: cada país pode e deve fazer seu diagnóstico para se situar nesse mapa e começar a lição de casa já. A transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente, necessária e complexa, mas não é um bicho de sete cabeças e o mapa mostra vários caminhos para chegar até ela”, declara.
Acabaram as desculpas: cada país pode e deve fazer seu diagnóstico para se situar nesse mapa e começar a lição de casa já. A transição para longe dos combustíveis fósseis é urgente, necessária e complexa, mas não é um bicho de sete cabeças e o mapa mostra vários caminhos para chegar até ela.
Stela Herschmann, líder em política internacional do Observatório do Clima.
Apesar de terem estruturas semelhantes, orientadas em torno de cinco etapas, cada mapa do caminho tem um objetivo diferente. O mapa do caminho sobre transição para o fim dos combustíveis fósseis propõe uma agenda de mobilização internacional até 2033, do fortalecimento de políticas públicas e planos nacionais à expansão de fontes renováveis, eletrificação, expansão da infraestrutura elétrica, substituindo fontes baseadas em combustíveis fósseis por renováveis, e armazenamento de energia, até a revisão de subsídios aos combustíveis fósseis.
Já o mapa para proteção das florestas e redução do desmatamento traz diretrizes para os países implementarem ações em cinco frentes: conservação; manejo florestal sustentável, agrofloresta e bioeconomia; combate à degradação florestal; combate ao desmatamento; restauração, reflorestamento e florestamento. Juntos, os dois temas enfrentam cerca de 86% das causas de emissões globais de gases de efeito estufa: os combustíveis fósseis respondem por 75% e a perda florestal por 11%.
Os documentos foram elaborados a partir de uma chamada pública na plataforma da Convenção do Clima da ONU, que recebeu, ao todo, 267 contribuições, entre submissões de governos e da sociedade civil segundo a presidência da COP30. Os documentos também identificam oportunidades para a Agenda Global de Ação Climática, que reúne mais de 480 iniciativas e coalizões e cerca de 100 Planos de Aceleração de Soluções (PAS) para mobilizar governos, empresas, investidores e sociedade civil em torno da implementação do Acordo de Paris.
“Os dois mapas do caminho são complementares. Quando você coíbe o desmatamento e protege uma vegetação nativa, ao mesmo tempo em que faz um caminho para a descarbonização, estamos reduzindo os riscos [de perda de modo de vida] especialmente para as populações mais vulneráveis”, explica Patrícia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
Os dois mapas do caminho são complementares. Quando você coíbe o desmatamento e protege uma vegetação nativa, ao mesmo tempo em que faz um caminho para a descarbonização, estamos reduzindo os riscos [de perda de modo de vida] especialmente para as populações mais vulneráveis
Patrícia Pinho, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
Propostas podem mitigar efeitos do El Niño no futuro
O anúncio dos mapas do caminho acontece em um cenário de El Niño de intensidade muito forte, em que a Amazônia já enfrenta redução de chuvas, excesso de calor e aumento de incêndios florestais. Embora não tenham sido formulados como respostas específicas a esse fenômeno, os documentos trazem como recomendações medidas capazes de reduzir as pressões sobre as florestas e a dependência energética de fontes poluentes.

Renata Prata, gerente de advocacy e projetos do Instituto Internacional Arayara, ressalta que fenômenos como o El Niño se tornam mais perigosos com a emergência climática. “Somado ao desequilíbrio do clima já estabelecido, que tende a se agravar se os países continuarem com as políticas atuais, teremos cada vez mais El Niños mais intensos e com consequências mais graves à vida”.
Além disso, o aquecimento global aumenta a vulnerabilidade a secas, incêndios e outros processos de degradação. Para Mauricio Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil, proteger as florestas significa reduzir os riscos climáticos e os custos econômicos e sociais da crise. “Essa urgência se torna ainda mais evidente diante de fenômenos como o El Niño, que podem intensificar secas e ondas de calor e aumentar o risco de incêndios florestais. Em ecossistemas já pressionados pelo desmatamento e pela degradação, esses eventos podem ampliar os danos e dificultar a recuperação da floresta”, complementa.
Com o Mapa do Caminho para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal, os países são orientados a diagnosticar as condições das florestas e os vetores de perda; alinhar políticas internas, fortalecer instituições e ampliar financiamento; focar em resultados; executar ações e monitorar o progresso; avaliar e ajustar a implementação.
O documento também analisa 30 mecanismos internacionais de financiamento florestal, entre eles os pagamentos por resultados, a Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD+) jurisdicional: Aplicação da estratégia de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, incluindo conservação e manejo sustentável, em escala jurisdicional, abrangendo territórios oficialmente delimitados, como países, estados ou províncias. e o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF): fundo de investimento lançado durante a COP30, com aportes de governos e do setor privado, destinado a remunerar países tropicais por cada hectare de floresta preservada.. A conclusão é que muitos instrumentos existentes operam abaixo de seu potencial, o que aponta para a necessidade de ampliar o financiamento, melhorar o acesso e recompensar países e comunidades pela conservação e pelo manejo florestal sustentável.
Para Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil, a parte mais desafiadora começa agora: “garantir um processo de seguimento para o mapa do caminho que seja capaz de elevar a centralidade política dessa agenda ao mesmo tempo que acelera sua implementação, com participação direta e real da sociedade civil, em especial dos Povos Indígenas e comunidades tradicionais”, comenta.
Pasquali acredita que o fato de ser uma iniciativa que partiu do Brasil traz uma credibilidade no cenário internacional, após o país ter alcançado a menor taxa de desmatamento já registrada. “Não há solução para conter o aquecimento global, que está temporariamente acima do limite de 1,5°C, sem a proteção das florestas e, para isso acontecer, o mundo precisa de uma ação coletiva, global e coordenada para acabar com a destruição florestal e senso de urgência”, finaliza.
Receita para longe dos combustíveis fósseis
Em relação ao “Mapa do Caminho para a Transição para o Afastamento dos Combustíveis Fósseis nos Sistemas Energéticos”, em vez de impor prazos de eliminação progressiva uniformes para todos, o plano divide o desafio em 12 “arquétipos” econômicos, que servem para agrupar países com características e desafios estruturais semelhantes em relação à transição energética. Os arquétipos estão distribuídos em três pilares: demanda de energia, oferta de energia e resiliência macroeconômica.
A metodologia central do documento é o Belém Índice de Prontidão para a Transição, uma ferramenta de autoavaliação que permite aos países identificar seu grau de dependência dos combustíveis fósseis e sua capacidade de avançar na transição energética. O índice considera justamente os três pilares que orientam a divisão dos arquétipos. É uma espécie de passo a passo para que os países possam implementar as mudanças com mais facilidade, uma “receita” para se afastar dos combustíveis fósseis, de acordo com os “ingredientes” de que dispõem.
O pilar da demanda analisa o consumo de energia nos transportes, na indústria e nas edificações. Já o da oferta avalia como a produção de combustíveis fósseis pode se ajustar à queda da demanda e à expansão dos sistemas energéticos de baixas emissões. O pilar econômico aborda a dependência fiscal, do investimento, do custo de capital e dos sinais de preço, entre outros fatores. Um conjunto de indicadores e métricas, para uso dos países, ajuda a identificar suas capacidades, vulnerabilidades e principais desafios para a transição.
A proposta é que, como primeiro passo, cada país faça uma autoavaliação de seu contexto, fazendo as seguintes perguntas para cada um dos pilares: qual a exposição do país (a escala e a complexidade da transformação exigida) e qual a sua capacidade (as condições e os meios para realizá-la).
Em seguida, os países devem verificar em qual dos quatro arquétipos e dos doze perfis melhor se encaixam. A partir desse diagnóstico, o documento apresenta dois tipos de alavancas: as fundamentais, que precisam ser implementadas por todos os países, e as de implementação, específicas para cada arquétipo.
O Mapa do Caminho apresenta ainda três propostas para acelerar a implementação: incentivar países, governos subnacionais e setores a começar agora, usando a metodologia do Belém Índice de Prontidão para a Transição para avaliar suas circunstâncias e identificar prioridades; lançar uma agenda coletiva (nomeada Mutirão TAFF) para acelerar ações coordenadas nesta década crítica, até 2033; e manter o diálogo e a cooperação internacionais, inclusive por meio das futuras Presidências da COP e do Balanço Global, para avaliar o progresso e enfrentar desafios de implementação.
Apesar disso, Renata Prata, do Instituto Arayara, criticou a ausência do tema de áreas socioambientalmente sensíveis no mapa do caminho. “O Brasil se posiciona como produtor e exportador de petróleo e país mais biodiverso do mundo. Não haver nenhuma menção à biodiversidade no documento é sintoma de uma falta de harmonia entre as três convenções do Rio (UNFCC, CBD e UNCCD)”, argumenta.
Países devem fazer a lição de casa
Atualmente, os nove países amazônicos compõem uma fronteira fóssil: juntos, somam 3.028 blocos de exploração de petróleo, sendo 871 (29%) dentro da floresta. Mais da metade desses blocos (52%) está no Brasil, incluindo áreas em estudo, oferta e concessão, tanto em terra quanto no mar, com destaque para regiões sensíveis como a Foz do Amazonas. “Não há como garantirmos a proteção de biomas sensíveis e dos territórios tradicionais com a persistência de um modelo extrativista predatório”, afirma a diretora-executiva do Greenpeace Brasil, Carolina Pasquali.
Ao mesmo tempo, na Amazônia brasileira, mesmo a região sendo exportadora de energia, 14% de sua população não tem acesso a essa energia gerada no Sistema Interligado Nacional (SIN), sistema de produção e transmissão de energia elétrica, que liga as usinas aos consumidores ao redor do país. O paradoxo faz com que três milhões de habitantes da região sejam abastecidos por usinas locais, baseadas em combustível fóssil, principalmente, óleo diesel, segundo dados do Instituto do Meio Ambiente e Energia (IEMA).

A publicação dos mapas do caminho é feita poucos dias após o Ministério de Minas e Energia lançar uma consulta pública sobre metas do Programa Energias da Amazônia, que busca acelerar a transição energética, impulsionar o uso de fontes renováveis e reduzir os custos de geração de energia. O projeto prevê uma redução de 65,7% das emissões de gases de efeito estufa até 2030 e de 75,9% até 2035. Além das metas de descarbonização, estabelece também a redução de 70,2% do consumo de combustíveis fósseis até 2030 e de 73,3% até 2035, bem como a redução de 55,5% e 60,1%, respectivamente, dos custos totais de geração de energia elétrica nos Sistemas Isolados, uma instalação elétrica que não possui conexão com o Sistema Interligado Nacional (SIN).
Imagem de abertura: Em evento de lançamento dos Mapas do Caminho da Presidência da COP30, da esquerda para a direita: Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Ana Toni, CEO da COP30; André Corrêa do Lago, presidente da COP30; João Paulo Capobianco, ,ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima; Claudio Providas, , representante residente do (PNUD) no Brasil., participam Foto: Fabio Rodrigues–Pozzebom/ Agência Brasil
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