
A China é uma das maiores consumidoras de petróleo do mundo, mas não consegue produzir internamente todo o volume necessário para abastecer sua economia. Para garantir o fornecimento, o país combina a exploração de reservas próprias com importações de dezenas de fornecedores, entre eles Rússia, Arábia Saudita, Iraque e Brasil.
Em 2025, as importações chinesas de petróleo bruto atingiram um recorde de aproximadamente 11,6 milhões de barris por dia, segundo análise do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, baseada em dados da Administração-Geral das Alfândegas da China. O volume fez do país o maior importador mundial da commodity.
A estratégia de Beijing envolve diversificar os países fornecedores, construir oleodutos para receber petróleo por terra e manter uma ampla rede de portos e refinarias. Mesmo assim, a dependência de importações representa um desafio estratégico, especialmente diante de conflitos e tensões nas principais rotas marítimas do planeta.
A China também produz petróleo?
Sim. A China possui uma indústria petrolífera de grande porte e explora reservas em diferentes regiões de seu território, tanto em campos terrestres quanto em plataformas marítimas.
Entre as principais áreas de produção estão a região de Daqing, na província de Heilongjiang, no nordeste do país; os campos petrolíferos de Shengli, em Shandong; a Bacia de Tarim, em Xinjiang; e as reservas marítimas do mar de Bohai e do mar do Sul da China.
Em 2024, a produção chinesa de petróleo bruto ultrapassou 4,2 milhões de barris por dia, de acordo com a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA). Considerando também outros líquidos derivados do petróleo, o volume produzido chegou a aproximadamente 5,3 milhões de barris diários.
O país investe na exploração de novas reservas e no desenvolvimento tecnológico para aumentar a produção doméstica. Empresas estatais como a China National Petroleum Corporation (CNPC), a China Petroleum & Chemical Corporation (Sinopec) e a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) desempenham papel central nesse processo.
Apesar dos investimentos, a produção nacional permanece distante do consumo. Por isso, a China precisa recorrer ao mercado internacional para abastecer suas refinarias e a indústria petroquímica.
De quais países a China compra petróleo?
A China mantém relações comerciais com produtores de diferentes continentes. A Rússia e os países do Oriente Médio ocupam posições importantes, mas fornecedores da África e da América Latina também participam do abastecimento chinês.
Em 2025, cinco países responderam por aproximadamente 62% das importações chinesas de petróleo bruto registradas oficialmente: Rússia, Arábia Saudita, Malásia, Iraque e Brasil, segundo levantamento do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia.
A relação de fornecedores inclui ainda Emirados Árabes Unidos, Omã, Angola, Kuwait e Canadá.
Rússia
A Rússia é um dos principais fornecedores de petróleo da China. A proximidade geográfica permite transportar parte da produção por oleodutos, reduzindo a necessidade de utilizar rotas marítimas.
O comércio energético entre os dois países ganhou importância após a invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022, e a imposição de sanções ocidentais contra Moscou. Com a redução de compradores em mercados europeus, a Rússia ampliou sua presença no mercado asiático.
Para a China, o petróleo russo representa uma alternativa de abastecimento e uma oportunidade comercial, especialmente quando os preços são competitivos.
Arábia Saudita e Oriente Médio
O Oriente Médio continua sendo uma das regiões mais importantes para o abastecimento chinês. Arábia Saudita, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Omã, Kuwait e Catar estão entre os fornecedores da região.
A Arábia Saudita é um dos principais parceiros comerciais de Pequim no setor energético. O relacionamento também envolve investimentos, infraestrutura, comércio e cooperação diplomática.
A importância do Oriente Médio, entretanto, cria uma vulnerabilidade: boa parte do petróleo exportado pela região passa pelo Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo.
Brasil
O Brasil também é um fornecedor importante para a China. A produção brasileira, concentrada em grande parte nas reservas do pré-sal, oferece petróleo que abastece refinarias chinesas.
Em 2025, as entregas brasileiras de petróleo à China cresceram 28%, segundo análise do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia. O aumento fez do Brasil um dos países que mais contribuíram para a expansão das importações chinesas naquele ano.
A relação é estratégica para os dois lados: a China garante uma fonte adicional de abastecimento, enquanto o Brasil encontra no mercado chinês um dos principais destinos de suas exportações de petróleo.
Irã e Venezuela
O petróleo iraniano e venezuelano também chega ao mercado chinês, embora as sanções impostas pelos Estados Unidos e por outros países compliquem a identificação e o registro dessas operações.
Há uma diferença importante entre os dados oficiais de comércio e as estimativas feitas por empresas que monitoram o deslocamento de navios petroleiros. A Administração-Geral das Alfândegas da China não registra importações diretas de petróleo iraniano desde 2022. Entretanto, a consultoria Kpler estimou que o país recebeu aproximadamente 1,38 milhão de barris diários do Irã em 2025.
Parte dessas cargas pode aparecer nas estatísticas comerciais com outra origem declarada, especialmente a Malásia. Por isso, os números oficiais e as estimativas baseadas no rastreamento de navios não são necessariamente iguais.
Como o petróleo chega à China?
A maior parte do petróleo importado pela China chega por navios petroleiros. Em 2024, aproximadamente 92% das importações de petróleo bruto foram transportadas por via marítima, segundo a EIA. O restante chegou por oleodutos.
Os navios descarregam a carga em grandes terminais portuários, de onde o petróleo é encaminhado às refinarias por dutos, ferrovias e outros meios de transporte.
Entre os principais centros portuários e industriais estão Ningbo–Zhoushan, na província de Zhejiang, Qingdao, em Shandong, e os complexos industriais da região de Tianjin.
O país também investiu em rotas terrestres para diminuir a dependência exclusiva do transporte marítimo.
Os oleodutos que conectam a China a outros países
A China recebe petróleo por três grandes corredores terrestres:
- Rússia: o oleoduto Sibéria Oriental–Oceano Pacífico (ESPO) permite transportar petróleo russo diretamente para o território chinês.
- Cazaquistão: o oleoduto Cazaquistão-China conecta os campos petrolíferos da Ásia Central ao mercado chinês.
- Mianmar: o oleoduto Mianmar–China transporta petróleo do litoral do país do Sudeste Asiático até a província chinesa de Yunnan.
Essas estruturas não substituem as importações marítimas, mas oferecem alternativas importantes em situações de crise. A ligação com a Rússia, por exemplo, permite que parte do abastecimento continue mesmo quando há problemas em rotas marítimas internacionais.
Por que o Estreito de Ormuz preocupa a China?
O Estreito de Ormuz, localizado entre o Irã e Omã, é uma das passagens marítimas mais importantes para o comércio mundial de petróleo.
A rota conecta os principais produtores do Golfo Pérsico ao oceano Índico e aos mercados asiáticos. Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Irã dependem, em diferentes graus, dessa passagem para exportar petróleo e outros produtos energéticos.
A China está entre os maiores compradores desse petróleo. Em 2025, aproximadamente 42% das importações chinesas de petróleo bruto registradas oficialmente vieram de países do Oriente Médio, de acordo com análise da Universidade Columbia.
Uma interrupção prolongada no Estreito de Ormuz poderia elevar os custos de transporte, reduzir a oferta disponível e pressionar os preços internacionais. Mesmo que a China consiga comprar petróleo de outros países, substituir rapidamente todo o volume proveniente do Golfo Pérsico seria difícil.
Essa vulnerabilidade ajuda a explicar por que Pequim procura diversificar fornecedores e investir em oleodutos, infraestrutura portuária e estoques de petróleo.
A China tem reservas estratégicas de petróleo?
Sim. Além de comprar e produzir petróleo, o país mantém estoques destinados a reduzir os efeitos de interrupções no abastecimento.
As reservas estratégicas permitem que o governo libere petróleo armazenado em situações de emergência, como conflitos, crises comerciais ou interrupções no transporte internacional.
A existência desses estoques é especialmente importante porque a China importa volumes muito elevados e depende de rotas marítimas que podem ser afetadas por disputas geopolíticas.
O tamanho exato dos estoques chineses é difícil de determinar. Parte das reservas é mantida pelo governo, enquanto empresas estatais e comerciais também possuem instalações de armazenamento. Estimativas de consultorias e instituições internacionais, portanto, podem variar.
A China pode deixar de depender do petróleo importado?
No curto prazo, não. Mesmo com investimentos em produção doméstica, a demanda chinesa continua exigindo grandes volumes de petróleo do exterior.
Ao mesmo tempo, o país desenvolve alternativas para reduzir a necessidade de combustíveis fósseis em determinadas atividades. A expansão dos veículos elétricos, o crescimento da energia solar e eólica e a eletrificação do transporte público fazem parte desse processo.
A China é atualmente o maior mercado mundial de veículos elétricos e tem investido na expansão de sua capacidade de geração de energia renovável. Essas mudanças podem reduzir a demanda por derivados de petróleo no transporte, embora não eliminem a utilização da commodity na aviação, no transporte marítimo, na indústria química e em outros setores.
O petróleo continua sendo um componente central da segurança energética chinesa. A estratégia de Pequim, portanto, não consiste apenas em produzir mais, mas em garantir que o país tenha diferentes fornecedores, rotas de transporte e reservas para enfrentar eventuais crises internacionais.
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