
Conversamos sobre o resultado do 3T26 da Vale com Victor Bueno, sócio e analista de equity research da Nord Investimentos.
Qual a sua avaliação sobre o resultado do 3T26 da Vale?
O resultado veio levemente abaixo do que era projetado pelo mercado, que esperava um resultado mais pressionado no 3T26 devido à queda de produção de minério de ferro, que já havia sido antecipada pela companhia. Além disso, como o cenário para a commodity é desafiador em termos de preço, ele acaba sendo um grande fator de composição no resultado final da Vale, mesmo que ela tenha se tornado uma empresa muito mais diversificada.
Por exemplo, a Vale Base Metals, que é a parte de metais básicos, vem crescendo muito e ganhando representatividade no resultado da companhia, o que compensa pressões relacionadas ao minério de ferro, mas, mesmo assim, não se pode negar que o que acontece com o preço da commodity interfere diretamente no resultado da Vale e na cotação das suas ações. Cabe destacar que a Vale Base Metals teve mais um trimestre positivo, com o cobre, principalmente, carregando o resultado da unidade.
O ponto é que independente da queda da produção do minério de ferro e do seu preço, a Vale aumentou as suas vendas. Como a companhia vendeu os estoques que haviam sido gerados nos últimos trimestres, essas vendas compensaram a pressão gerada pela produção menor do minério de ferro.
Agora, por mais que a receita da Vale tenha crescido 2% em relação ao 3T25 e 1% em relação ao 2T26, a companhia enfrentou um aumento de custos no trimestre, principalmente os relacionados aos fretes devido ao aumento dos preços dos combustíveis, o que fez com que o seu lucro operacional caísse.
Com relação ao lucro líquido, a Vale também teve uma piora. Por exemplo, enquanto no 3T25 a Vale teve um crédito tributário sobre o lucro de US$ 83 milhões, no 3T26 ela teve uma despesa de US$ 259 milhões, o que pressionou o seu resultado. Além disso, a companhia aumentou a provisão referente a Samarco, o que também interferiu no seu lucro líquido, que caiu 53% em relação ao 3T25 e 10% em relação ao 2T26.
Para os próximos trimestres, a perspectiva é que a Vale tenha resultados melhores, já que a pressão sobre os custos deve diminuir em um cenário normalizado. A companhia também tem trabalhado na melhoria da sua eficiência operacional para mitigar esses riscos e os efeitos da marcação a mercado dos derivativos, que são eventos não recorrentes que interferem no lucro líquido da companhia.
Qual a sua avaliação sobre o desempenho da ação da Vale?
A ação da Vale vem passando por altos e baixos ao longo de 2026. A ação teve um começo de ano muito positivo, sustentado, principalmente, pela entrada de capital estrangeiro na Bolsa. O problema é que depois de abril, quando a Vale bateu o seu pico, nós passamos a ver a saída desse capital da Bolsa e a pressão sobre o preço do minério de ferro, que não impacta apenas o resultado da companhia, mas também o comportamento das suas ações. Além disso, nós tivemos a desvalorização do dólar, o que também afetou a cotação da Vale.
Como a Vale não tem uma tese de grande expansão da sua produção, o seu resultado e as suas ações acabam sendo muito sensíveis ao que acontece com o câmbio e com o minério de ferro.
Depois do primeiro turno da eleição presidencial, muitas ações se valorizaram, mas a Vale se desvalorizou até o segundo turno. Depois do segundo turno da eleição presidencial, muitas ações se desvalorizaram, mas a Vale se valorizou no dia 26/10. O que explica esse comportamento da ação da Vale?
Esse comportamento se deve, principalmente, ao dólar. Depois do segundo turno, o mercado teve uma reação muito negativa ao resultado da eleição, com a Bolsa caindo, os juros futuros explodindo e o dólar subindo. Enquanto as ações das companhias mais sensíveis ao cenário doméstico sofreram bastante nesse dia, as companhias dolarizadas se salvaram. Ou seja, foi essa alta do dólar que puxou a ação da Vale. Cabe destacar que esse movimento não se deu por conta dos fundamentos da companhia, mas sim pela perspectiva de como o câmbio pode interferir nos seus resultados, caso o dólar continue no atual patamar por um bom tempo.
Qual a sua avaliação sobre o valor da ação da Vale?
Como a Vale já devolveu a alta do início do ano, ela voltou a operar em patamares atrativos. A ação está sendo negociada a um P/L de 7x, bem abaixo da média histórica da bolsa brasileira. No preço atual, o dividend yield também acaba sendo favorecido, tanto que ele está entre 7 e 8%. Além disso, a Vale acaba sendo uma proteção em uma carteira de ações devido à sua dolarização, já que o dólar tende a continuar agitado.
Qual a sua avaliação sobre o payout da Vale?
A Vale tem uma das políticas de dividendos mais bem estabelecidas da Bolsa. Como o payout é atrelado ao Ebitda, o que acontece com o lucro não interfere diretamente no pagamento de dividendos. A Vale distribui, duas vezes por ano, maio e setembro, 30% do seu EBITDA ajustado. Essa é uma política que faz total sentido para o momento da companhia, pois além de permitir a distribuição de grande parte da sua geração de caixa, ela também permite que a companhia continue investindo na produção. Dessa forma, a Vale deve continuar distribuindo um rendimento muito positivo para os seus acionistas.
Como você está vendo as perspectivas da Vale?
As perspectivas ainda são positivas, mesmo que haja um cenário mais desafiador para o minério de ferro, que é uma commodity muito dependente do que acontece com a China. Como a demanda do mercado chinês está praticamente estável há alguns anos, não há uma perspectiva de alta para o preço do minério de ferro que aumente, de forma expressiva, as vendas da Vale. Contudo, mesmo que esse cenário fique estável, a Vale Base Metals tem um cenário muito positivo. Como o crescimento da demanda global pelo cobre está aumentando o preço da commodity e as vendas da empresa, essa unidade já representa 1/3 de toda a receita da Vale.
Essa diversificação faz com que a Vale seja uma empresa mais resiliente e menos sensível a apenas uma commodity, o que traz benefícios muito positivos para a companhia. Voltando para o minério de ferro, existe uma tendência de redução de custos no longo prazo que tende a favorecer a eficiência operacional da Vale e os resultados da companhia nos próximos anos.
https://monitormercantil.com.br/vale-vale3-resultado-do-3t26-dinamicas-e-perspectivas/
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