
Cansei! Meses e meses em que a política tomou conta das notícias. Notícias ruins, inicialmente. Mentiras tratadas como verdades e verdades como mentiras. E um bando de Dons Quixotes (minha turma, né?) encarando tudo isso. E veio um resultado assustador no início de outubro. Desânimo. E de repente o ânimo reativado, esperança meio escondida pelo pessimismo. Enfim, a glória. Jovens se levantando como deve ser uma marca da juventude que ultimamente andava apagada, eles tomando conta das suas próprias cabeças e das ruas. E voltou a alegria, enfim, com o Brasil voltando a ser Brasil, exemplo para o mundo.
E me lembrei de umas pessoas e algumas das suas histórias…
Há tempos publiquei não sei onde o texto “Tipinhos inesquecíveis”. Inesquecíveis pelo mau-caráter que tinham. Eram do tipo que a gente não pode se esquecer mesmo, sob risco de ser sacaneado. Pessoas que dão trambiques em amigos, que passam doenças aos outros intencionalmente e outras sacanagens.
Nos causos de agora, não deixo de me lembrar de outros personagens desse tipo, mas não dou preferência a eles. Por que ficar remoendo lembranças de gente ruim? Como convém em tempo de esperanças, lembrar também dos que valem a pena. Vamos privilegiar pessoas boas, sem esquecer as ruins. Tem também uns que não encaixaria em nenhum dos lados. Não são maravilhas, mas também não são odientos, e têm histórias divertidas. Na maioria das vezes, não uso seus nomes verdadeiros. Foram muitos causos, publico só parte deles.
Começo por dois desses “neutros”.
Sexo antes do casamento
Esta historinha é do tempo em que mulher “tinha” que se casar virgem.
José e Ofélia, moradores de uma pequena cidade conservadora em que trabalhei, eram namorados havia uns três anos, e planejavam se casar.
Nesse tempo todo, José fez de tudo para acabar com a virgindade da Ofélia, mas ela resistia.
Casamento marcado… dois meses antes, ele deu um ultimato:
— Você não confia em mim? Acha que eu vou te abandonar antes do casamento?”
O assunto era novamente a virgindade dela.
— Confio sim — disse ela. —Mas e se eu engravidar?
José não teve dúvida:
— A gente diz que o filho nasceu de sete meses.
Ofélia topou, enfim. E eles se casaram direitinho.
A criança nasceu mesmo de sete meses. Quer dizer, cinco meses depois do casamento.
Um teste de fidelidade
Quando morava no Rio de Janeiro, um colega de trabalho era o Orlando. Ele tinha uma namorada de quem gostava bastante, mas nem por isso deixava de dar seus pulinhos. Achava normal homem fazer isso. Mulher, não! Isto é, a mulher que se relacionava com ele, pois as dos outros… Certa vez antecipou a volta de uma viagem e telefonou para a namorada, que não esperava que ele voltasse naquele dia. Falou, imitando a voz de um amigo e passou uma cantada nela… Como se fosse o tal amigo. Convidou a moça para um encontro amoroso e ela topou. Ficou injuriado.
Um puxa-saco e tanto
Agora um que não gostei de conhecer. Chefe do setor de Crédito na Fábrica de Tecidos Tatuapé, do grupo Santista, onde eu trabalhava, o Rubicão defendia o dinheiro do patrão com muito afinco. Até para justificar um atraso criava problemas, mesmo quando o trânsito ficava caótico na cidade. Atrasou… desconto no salário. Falta então, era imperdoável.
Lembro-me de uma vez que resolvi faltar uma manhã, para acompanhar meu irmão mais velho que veio de Minas fazer umas compras. Cheguei depois do almoço, preenchi o papel de justificativa de atraso e já tasquei um xis no quadradinho que precedia o dístico “falta abonada”, que não era descontada no pagamento.
Além da falta abonada, havia as opções “justificada”, que não implicava em maiores encrencas, mas era descontada, e a “injustificada”, que causava até anotação na carteira de trabalho. Levei pra ele assinar, mas só quando a secretária estava conversando com ele. Foi uma estratégia minha.
— Seu Rubicão, não pude vir de manhã e trouxe o papelzinho pro senhor assinar…
— Como? Você já pôs falta abonada? Não assino, não. Nem sei porque você faltou — ele chiou.
— Estava com caganeira…
Ele vacilou. Na época, não se falava uma coisa dessas na frente de uma moça, e ele, muito moralista, ficou sem saber onde enfiar a cara, embora a Adélia, secretária, tenha ficado com cara de riso.
— Isso não é motivo. Pode preencher outro papel, não é falta abonada.
— Ora, o que o senhor queria? Que eu viesse cagando no ônibus? Moro na Cidade Universitária e de lá até aqui são no mínimo cinquenta minutos. Era o tempo de cagar duas vezes. Ia cagar dentro do ônibus?
Ia continuar falando, mas ele, roxo de vergonha da secretária, pediu que eu parasse de contar minhas cagadas e assinou a o papel.
Folgado enrolador
Este era do interior da Bahia, foi mandado para estudar em Salvador e morava numa pensão. Vivia na gandaia, não estudava coisa nenhuma. O pai lhe mandava dinheiro, mas ele fingia não ter nenhum. Devia mais de seis meses à dona da pensão, que um dia perdeu a paciência e ameaçou colocá-lo na rua, se não pagasse os atrasados. Ele chorou as mágoas, lamentou, disse que ela estava sendo malvada, fez ar de vítima, e a mulher resolveu dar-lhe mais um prazo para quitar a dívida. “Espero mais um mês, mas quero receber tudo. Trate de arrumar o dinheiro pra me pagar”, disse ela. Ele ficou com ar mais alegre, bateu nas costas dela e falou: “Vou pensar no seu caso com muita simpatia”.
Esse sim, é bom…
Aí vai uma historinha de um que não vejo há muitos anos, mas achava ser o sujeito mais cordial que havia, o Arlindo. Já lhe dei o título de “Campeão Mundial de Cordialidade”. Depois de uns tempos, nunca mais elogiei nada dele. É do tipo que, se alguém acha bonita sua camisa e a elogia, ele tira e dá ao sujeito. Numa boa.
Nos tempos em que era raro conseguir rum cubano, fui à sua casa e ele tinha acabado de receber duas garrafas, trazidas por um amigo que viajou para Cuba e não bebia. Trouxe sua quota de bebida para esse amigo. Abriu na hora e serviu uma dose generosa pra mim e outra pra ele. Sorvi a bebida com prazer. Gosto muito de um rum bem feito, e fico imaginando por que o Brasil não produz uma bebida igual. Com regiões de clima apropriado e cana tão boa quanto a cubana, produzimos um rum sofrível. Ganância de capitalistas, que não querem perder tempo com envelhecimento nem caprichando na produção, imagino.
Bem, o certo é que fiz uma cara de prazer e comentei com ele que, quando estive em Cuba a primeira vez — nos tempos em que a gente tinha que fingir que ia ao Peru, pois no passaporte brasileiro estava carimbado que ele não valia para Cuba — bebia quase uma garrafa de rum por dia. Na hora, ele me deu a outra garrafa fechada, intocada. Quase briguei para não levá-la, pois era uma sacanagem levar pra mim um presente tão precioso que ele acabava de ganhar. Não teve jeito. Não me deixou sair de sua casa sem levar a garrafa, de jeito nenhum.
Os solidários
Ao escrever sobre o Arlindo, eu me lembrei de muitos amigos, entre eles o Sergião, um dos campeões de solidariedade. Onde tem gente precisando, lá está ele. Tenho várias histórias dele, e vou contar só uma. Na minha segunda Covid, quando saí do hospital e ele ficou sabendo, apareceu na porta do meu prédio, me chamando para receber uma panelada de caldo verde, com torradas e tudo, alimento suficiente para vários dias. Não trouxe vinho porque eu não estava podendo beber.
Pois é, tem o Sergião… Felizmente, tenho muitos amigos pra lá de solidários. Se sobrevivi durante a ditadura, devo muito a eles. Na pindaíba por estar numa lista a que deram o racista nome de “negra”, de pessoas que os patrões da época não podiam empregar (precursores dos bolsonaristas…), eles sempre me deram trabalhos como autônomo, pagando o suficiente para eu pagar minhas despesas. E quando possível, me deram empregos formais. Se fosse listar todos aqui, poderia esquecer algum, o que seria injustiça. Então, não cito nenhum. Mas eles sabem quem são e que minha gratidão é inesquecível.
E tem os que me deram abrigo, quando precisei. Morava no Crusp (Conjunto Residencial da USP) em 1968 e, quatro dias depois da edição do AI-5, houve uma invasão policial-militar, fomos todos levados para passar uns dias no xilindró. Quando saí, vi que, além de não ter mais onde morar, fui despojado das minhas roupas e meus livros, porque o exército e a polícia exerceram devidamente o seu “direito” de saque.
Morei um pouco na casa de um irmão muito solidário, em Santos, trabalhando em São Paulo. Além de morar no seu apartamento, usava as roupas dele. Ônibus todos os dias, de manhã de Santos para cá, e à noite daqui pra lá. Mas a volta das aulas, tornou impossível fazer isso. Não dava para sair da Cidade Universitária às 23h e ir para ao centro pegar ônibus pra Santos e voltar no dia seguinte de manhã.
Continuei usando as roupas do meu irmão, trazidas numa mochila semanalmente, mas revezando sofás em casas de amigos, que eram muitos, até conseguir uma república de conterrâneos para morar, e depois mudar para outra também de conterrâneos, quase todos operários.
Livreiros de verdade
Uma lembrança mais alegre… A Livraria da Vila, nos tempos em que o proprietário era o Aldo. Só comprava livros em outras livrarias quando não tinha lá os que eu queria. Dava gosto, desde um bom papo com o próprio Aldo, até pedir recomendações aos funcionários Douglas e Cida.
Vejo com alegria agora a volta das livrarias em que os livreiros gostam de livros. Justo agora que não tenho frequentado muito. Vou a sebos, onde também tem bons livreiros e os preços dos livros usados são acessíveis para quem é aposentado. Em tempos recentes, a impressão que eu tinha ao entrar em certas livrarias, principalmente as grandes, de redes, em que o fato de venderem livros nelas era um mero acaso. Os vendedores pareciam não entender nada de livros e nem queriam entender. Poderiam vender batatas, eu pensava, se dessem mais lucros. Eram simplesmente comerciantes.
Pois bem, volto à Livraria da Vila e em especial à Cida, funcionária que eu achava (e acho ainda) ser a maior conhecedora de livros que já vi. Parecia ter lido todos os livros da própria Livraria da Vila e tantos outros. O Douglas também era um craque em literatura, além de boa pessoa. Eu gostava especialmente de testar os conhecimentos da Cida, por pura diversão perversa. Um dia, resolvi dar de presente a uma amiga um livro que gostei muito e fui lá comprar. Sabia muito bem o nome do livro e do autor, mas fingi que não:
— Cida, eu quero comprar um livro, mas não me lembro do nome dele nem do autor. Nem da editora.
Ela não se impressionou:
— O que você sabe sobre ele?
— Só que o personagem central é um velho que usa uma dentadura, mas ela fica no bolso dele. Só coloca na boca quando entra na cidade…
Nem continuei, ela falou logo, caminhando até a estante e pegando o livro:
— Um velho que lia romances de amor, do Sepúlveda…
Dá ou não dá gosto comprar livros de alguém assim?
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.
https://revistaforum.com.br/opiniao/para-sempre-inesqueciveis/
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