
247 – A professora de Relações Internacionais Ana GarcIa avalia que o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) apresenta um programa econômico sem medidas concretas para responder às dificuldades da população e enfrentaria obstáculos para alinhar o Brasil aos Estados Unidos diante da dependência comercial da China.
Em entrevista à teleSUR, a pesquisadora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) afirma que o segundo turno deste domingo (25) coloca em disputa projetos com consequências para a renda, a indústria e a inserção internacional do país.
Coordenadora do Núcleo de Estudos Avançados da UFRRJ, GarcIa também identifica limitações no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para ela, os indicadores econômicos positivos não foram suficientes para neutralizar o descontentamento de famílias endividadas e pressionadas pelos preços dos alimentos. Sua avaliação é que uma resposta duradoura exige reindustrialização, proteção aos trabalhadores e uma estratégia nacional de desenvolvimento.
“O programa de Flávio Bolsonaro é um programa vazio de propostas: apresenta essas medidas como uma solução sem especificar o que vai fazer”, afirma, ao analisar as promessas de abertura de mercado, privatização, desregulamentação e aproximação com Washington.
Endividamento distancia indicadores da vida cotidiana
García atribui parte da força eleitoral da direita à diferença entre o desempenho dos indicadores nacionais e a percepção da população sobre as próprias condições de vida. Ela menciona o superávit comercial, o desemprego baixo e o reajuste do salário mínimo, mas ressalta que os juros elevados dificultam investimentos e convivem com um alto endividamento das famílias.
“O relevante é essa distância entre os indicadores macroeconômicos positivos e a sensação das famílias de que as coisas não estão bem, por causa do endividamento e dos preços dos alimentos básicos”, declara.
Segundo a pesquisadora, a campanha de Lula enfatizou os resultados gerais da economia, enquanto a direita construiu sua comunicação em torno das dificuldades cotidianas. Essa diferença, em sua análise, abriu espaço para que Flávio explorasse eleitoralmente a insatisfação.
“A direita construiu sua narrativa em torno da vida cotidiana das pessoas, enquanto Lula se concentrou nos dados macroeconômicos. Isso permitiu a Flávio Bolsonaro capitalizar o descontentamento.”
Para García, a promessa de que privatizações e maior liberdade de mercado resolveriam esses problemas repete uma orientação econômica difundida na América Latina desde os anos 1990, sem explicar como ela melhoraria a renda ou reduziria as despesas das famílias.
“A mentira que se conta é que abrir mais o mercado, alinhar-se aos Estados Unidos, desregulamentar e privatizar resolverá os problemas econômicos das pessoas”, afirma.
Reindustrialização e proteção ao trabalho
A alternativa defendida pela entrevistada passa pela ampliação dos investimentos industriais, com prioridade para tecnologia, pesquisa, desenvolvimento e sustentabilidade ambiental. Ela considera que Lula tem condições de oferecer uma resposta de longo prazo, mas ressalva que essa possibilidade depende de políticas ainda insuficientemente executadas.
“O governo Lula pode, sim, oferecer uma resposta real, a longo prazo; não é que já tenha todas as soluções”, diz.
García aponta a implementação da Nova Indústria Brasil, lançada em 2024, como parte desse caminho. Destaca a digitalização, a transição energética e a recuperação da presença brasileira nas cadeias produtivas de maior conteúdo tecnológico.
“Não se trata da indústria tradicional, antiga e poluente, mas de indústrias ambientalmente sustentáveis.”
A pesquisadora também defende que a comparação entre os projetos econômicos considere os direitos trabalhistas. Cita a ampliação da proteção ao trabalho doméstico durante governos do PT e a proposta de redução da jornada sem diminuição salarial.
Ao mesmo tempo, argumenta que as políticas públicas precisam alcançar trabalhadores que permanecem fora das formas tradicionais de proteção, como entregadores, motoristas de aplicativos e microempreendedores individuais.
“Toda essa população precisa de respostas de políticas públicas que lhe permitam sentir-se mais segura economicamente”, afirma.
Relação com a China impõe limites ao alinhamento com Trump
Na política externa, García identifica uma contradição entre a aproximação pretendida com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e os interesses econômicos de setores que apoiam a direita brasileira.
Segundo ela, o agronegócio e a mineração dependem das compras chinesas, enquanto Pequim também oferece investimentos em infraestrutura e industrialização. Essa relação restringiria a margem de um eventual governo Flávio Bolsonaro para reduzir os vínculos com a China.
“A contradição é que os setores que apoiam a extrema direita, especialmente o agronegócio e a mineração, dependem da China.”
A pesquisadora observa que as exportações brasileiras ao mercado chinês se concentram em petróleo, soja e minerais, enquanto as importações incluem bens de maior valor agregado e produtos de alta tecnologia. Apesar dessa assimetria, ressalta que o comércio bilateral gera receitas externas fundamentais para a economia brasileira.
“É impossível que o Brasil renuncie às suas relações com a China. Temos uma dependência muito grande dos recursos externos que entram em dólares graças ao comércio com esse país”, declara.
Em sua avaliação, Washington oferece poucas alternativas econômicas concretas à América Latina para substituir os vínculos construídos com Pequim. Além disso, mudanças nas tarifas e nas decisões comerciais americanas aumentam a incerteza para os parceiros.
Para o próximo governo brasileiro, a saída seria diversificar mercados e parcerias, com atenção à recuperação das exportações industriais para países latino-americanos.
“O Brasil perdeu uma parte importante do comércio com a América Latina, onde antes era um exportador relevante de produtos industrializados”, afirma.
Estratégia nacional para negociar investimentos
García ressalta que ampliar a relação com a China não dispensa a formulação de uma política própria de desenvolvimento. Para ela, o Brasil precisa definir quais setores pretende fortalecer e quais condições exigirá dos investimentos estrangeiros.
“Não queremos receber indústrias atrasadas, poluentes e com tecnologia obsoleta”, diz.
A pesquisadora considera que essa definição deve orientar as negociações com todos os parceiros, incluindo Estados Unidos, União Europeia e China.
“Precisamos de uma estratégia nacional clara que permita levar esses países à mesa de negociação”, afirma. “Isso ainda falta, inclusive durante o governo Lula.”
Brics enfrenta dificuldades para avançar
Na entrevista, García também descreve os Brics como um agrupamento diante da necessidade de transformar sua expansão em capacidade de atuação conjunta.
“Os Brics estão numa encruzilhada: ou avançam ou ficam estagnados e voltam a perder força.”
Ela recorda o impulso inicial do grupo, associado à criação do Novo Banco de Desenvolvimento, e a retomada das discussões sobre alternativas à dependência do dólar a partir de 2022 e 2023. Em sua avaliação, propostas financeiras impulsionadas pela presidência russa, em 2024, perderam espaço nas gestões seguintes.
García considera que o Brasil adotou uma postura mais cautelosa para evitar novos atritos com os Estados Unidos. Já a Índia, segundo ela, teve como principal resultado preservar a unidade do agrupamento diante das divergências internas.
Entre as prioridades, a professora menciona infraestruturas para transações financeiras, mecanismos de compensação entre bancos centrais e o fortalecimento do acordo de reservas contingentes. A ampliação do grupo, acrescenta, exige soluções para tornar as decisões viáveis e incorporar os novos integrantes.
Segundo turno condiciona atuação internacional
Para García, uma vitória de Lula significaria a continuidade da participação brasileira nessa agenda, acompanhada de esforços para reduzir tensões com Washington e negociar o conflito tarifário.
Em um eventual governo Flávio Bolsonaro, ela considera mais provável uma atuação discreta nos Brics do que uma saída imediata. Sua avaliação é que os custos econômicos e diplomáticos de abandonar instituições internacionais podem superar os de permanecer nelas.
“O Brasil precisa manter boas relações com a China”, afirma.
A pesquisadora lembra que Jair Bolsonaro preservou relações com integrantes do agrupamento, como Índia e Rússia, apesar de sua orientação política. A diferença, segundo ela, está na intensidade da pressão americana sobre as escolhas brasileiras.
“O que mudou foi a pressão exercida pelos Estados Unidos. Este será um dos principais fatores que o próximo governo brasileiro terá que levar em consideração.”
https://www.brasil247.com/brasil/flavio-bolsonaro-tem-programa-vazio-de-propostas-afirma-professora-ana-garcia/
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