
247 – O resultado das urnas que consagrou a vitória do presidente Lula (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) impôs uma postura de conformidade e resignação às principais lideranças evangélicas de projeção nacional. Apesar da frustração com a derrota da candidatura bolsonarista, os religiosos decidiram reconhecer o desfecho do pleito e não aderiram aos discursos que visam contestar a votação.
A vitória de Lula frustrou a maior parte da cúpula evangélica do país que torcia abertamente pelo bolsonarismo nesta eleição. No entanto, o tom geral entre os líderes evangélicos passou a ser o de aceitação democrática, sem endosso a propostas de questionamento das urnas levantadas por parlamentares como Nikolas Ferreira (PL-MG). O bispo JB Carvalho, da Comunidade das Nações — igreja brasiliense onde Flávio se batizou em 2024 —, publicou a imagem do mapa do Brasil sobre uma mão que remete a Deus e escreveu a legenda “vida que segue”. Na montagem, com o texto “a nação continua nas SUAS mãos”, o bispo declarou que Jesus segue no trono e que o país ainda presenciará “um avivamento”.
O pastor Silas Malafaia também divulgou um vídeo após a confirmação do resultado, afirmando que lamentava “profundamente” o triunfo petista, “mas essa é a decisão do povo brasileiro”. Ele encerrou sua manifestação dizendo: “Deus tenha misericórdia do Brasil e livre-nos do caos econômico e social”.
Líder da igreja Sara Nossa Terra e conselheiro espiritual de Jair Bolsonaro (PL) na prisão, o bispo Robson Rodovalho expressou sentimento semelhante e elogiou a habilidade do presidente reeleito. A instituição de Rodovalho foi onde o deputado eleito Jair Renan (PL-SC), filho caçula de Jair Bolsonaro, se batizou em 2024. “Fica nossa tristeza e nossa lástima, mas democracia é isso, vence quem consegue comunicar e convencer a maioria”, afirmou. Ele reconheceu expressamente que o adversário “soube jogar” e acrescentou: “vamos em frente com fé em Deus e confiando nas instituições democráticas”.
O apóstolo Estevam Hernandes, da Renascer em Cristo e organizador da Marcha para Jesus, que inicialmente apoiava uma chapa encabeçada por Tarcísio de Freitas (Republicanos) com Michelle Bolsonaro (PL) como vice, acabou declarando endosso a Flávio durante a campanha. Após a apuração, seguiu a linha de aceitação. “Apenas que essa foi a vontade popular. Democraticamente devemos aceitar, pois nos submetemos à vontade soberana de Deus”, pontuou. “Devemos continuar confiando que dias melhores virão”.
Na mesma linha, o bispo Abner Ferreira, da Assembleia de Deus Madureira, recorreu à “vontade soberana do povo, manifestada democraticamente”. O ministério assembleiano costuma mudar de lado conforme o poder Executivo do momento e, após se reaproximar do governo Lula, decidiu respaldar Flávio na fase final da eleição. “A democracia exige maturidade, equilíbrio e respeito às decisões populares, independentemente das convicções e preferências individuais”, ressaltou o bispo.
Por sua vez, o apóstolo César Augusto, da igreja Fonte da Vida, pediu que o país “vire a chave” da disputa eleitoral. “Somos todos brasileiros, orando pelo Brasil, orando por esse governo. Que ele seja melhor do que os governos passados”, declarou. Ele avaliou que a direita sai fortalecida do processo com conservadores “que vão realmente se posicionar no Congresso” e com Flávio consolidado como liderança de projeção nacional. Além disso, teceu elogios ao desempenho de Lula: “nós temos que reconhecer que Lula, como político, talvez seja o maior da história do país”.
Josué Valandro Jr., líder da Igreja Batista Atitude — templo frequentado por Michelle Bolsonaro quando morava no Rio de Janeiro —, ponderou que a direita cristã fez o possível. “Fica a paz de saber que não nos omitimos”, ressaltou, complementando que “agora, com o coração apertado, é hora de esperar em Deus e seguir com dignidade.”
Com tom mais severo, o reverendo Augustus Nicodemus Lopes, referência entre os presbiterianos, adotou uma abordagem voltada ao histórico de superação da igreja. Ele afirmou que a comunidade cristã já sobreviveu a cenários difíceis ao longo da história e não deve temer os resultados das urnas. “A Igreja sobreviveu a Nero, ao comunismo soviético e a inúmeras perseguições. Por que haveríamos de temer? Nossa esperança não está nas urnas, no Congresso ou no Planalto. Está em Cristo, o Rei dos reis, cujo Reino jamais terá fim”.
Já a Igreja Universal do Reino de Deus demonstrou uma postura neutra em relação aos concorrentes durante a eleição, atitude interpretada como cautelosa em meio a investigações da Polícia Federal envolvendo o banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo. Por volta da meia-noite, a Universal enviou uma mensagem por e-mail a seus fiéis com o título: “seu candidato ganhou ou perdeu. E agora?”. O texto destacava que “eleição passa” e reforçava a convivência pacífica: “o familiar que votou diferente continua sendo da família. O colega continua trabalhando ao seu lado. […] O resultado das urnas não muda em quem você deposita sua fé”.
Também ligado à Universal, o bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, publicou nas redes sociais apenas um versículo do Evangelho de Mateus: “… pois Teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém”. O trecho omitiu a frase inicial da oração (“e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal”). Em 2022, Cardoso havia afirmado publicamente que não seria possível ser cristão e de esquerda simultaneamente.
https://www.brasil247.com/brasil/lideres-evangelicos-aceitam-vitoria-de-lula-e-reconhecem-forca-politica-do-presidente/
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