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Era outono de 1987, mais específico em uma segunda-feira dia 19 de outubro, quando o mercado financeiro dos Estados Unidos vivenciou uma das maiores crises da sua história. Hoje, 39 anos depois, o fato ainda é lembrado como ‘Black Monday’, quando o índice Dow Jones recuou 508 pontos, ou 22,6% impulsionado por uma combinação de fatores.
O recuo permanece até os dias atuais como a maior desvalorização em um único dia na história do mercado de ações. Em apenas um dia, mais de US$ 500 bilhões foram perdidos no Dow Jones, o que também se refletiu no índice Nasdaq, que perdeu 11,35%, enquanto o S&P recuou 30%.
Esses eventos da ‘Black Monday’ também serviram para reforçar o conceito de globalização, já que o movimento desencadeou instabilidade em outros mercados e fez com que bolsas do mundo inteiro despencassem em questão de horas.
As bolsas da Austrália, Hong Kong, Singapura e México também registraram fortes quedas. O tombo global gerou temor de que o episódio repetisse o crash de 1929, que contribuiu para a Grande Depressão dos anos 1930.
Tal situação, inclusive, fez com que as bolsas de valores desenvolvessem mecanismos de susprender temporariamente as negociações em caso de rápidas quedas no mercado — conhecido como circuit breakers. Nos Estados Unidos, o interrompimento foi acionado cinco vezes, sendo quatro durante a pandemia. Já aqui no Brasil, o circuit breaker na B3 já foi acionado 23 vezes desde a sua criação em 1997.
O que explica a queda das bolsas?
Nos primeiros meses de 1987, o mercado acionário americano vinha de um longo ciclo de valorização, iniciado em 1982. Entre janeiro e agosto daquele ano, o Dow Jones acumulou alta de 44% e atingiu, em 25 de agosto, o recorde naquela época de 2.722 pontos. O avanço, no entanto, alimentava preocupações de que os preços das ações estivessem elevados demais.
Ao mesmo tempo, empresas buscavam crescer por meio da aquisição de concorrentes, recorrendo ao endividamento e à emissão de títulos de alto risco, conhecidos como junk bonds. A economia americana, que vinha de uma recuperação acelerada, começava a apresentar sinais de desaceleração, enquanto as pressões inflacionárias aumentavam.
Dólar, juros e tensões geopolíticas
Em outubro, notícias negativas intensificaram a desconfiança dos investidores. O governo americano divulgou um déficit comercial acima do esperado, enquanto o dólar perdia valor. Também pesavam as preocupações com a inflação, a alta dos preços do petróleo e de outras commodities e as tensões entre Estados Unidos e Irã.
Pouco antes do crash, o então secretário do Tesouro americano, James Baker, havia criticado a elevação dos juros na Alemanha Ocidental. Na semana seguinte, quando as bolsas desabaram, os dois países concordaram em manter as taxas nos níveis vigentes. Investidores interpretaram o cenário como um possível sinal de recessão nas principais economias desenvolvidas.
A instabilidade já era visível na sexta-feira, 16 de outubro, quando o Dow Jones recuou 4,6%, para 2.246 pontos, em uma sessão de volume recorde. Na segunda-feira seguinte, a pressão vendedora se intensificou.
Vendas automatizadas ampliaram o tombo
Outro fator apontado como possível responsável pela dimensão da queda foi o program trading, sistema que permitia a grandes investidores executar operações automaticamente. Na época, essas estratégias eram utilizadas, entre outras finalidades, para limitar perdas em momentos de baixa.
Com a queda das ações, os sistemas podiam acionar novas ordens de venda, aumentando a pressão sobre os preços e contribuindo para um efeito em cadeia. A hipótese, porém, é contestada por analistas que ressaltam que mercados como os de Hong Kong e da Austrália também sofreram fortes perdas, apesar de não utilizarem essas ferramentas de forma tão desenvolvida.
A crise se espalhou pelos mercados globais
A queda de 19 de outubro evidenciou a crescente interdependência dos mercados financeiros. Entre 19 e 23 de outubro de 1987, o índice Financial Times 100, de Londres, recuou 25%, enquanto o Nikkei Dow Jones, de Tóquio, caiu 13,2%. Bolsas de Hong Kong, Frankfurt, Amsterdã, Cidade do México e Sydney também registraram perdas expressivas.
Diante da turbulência, em 20 de outubro, o Federal Reserve anunciou que forneceria liquidez ao sistema financeiro para garantir o funcionamento dos mercados. A medida ajudou a conter a crise, e as bolsas se recuperaram gradualmente. Em meados de 1988, o mercado acionário americano já havia recuperado as perdas, sem que a economia dos Estados Unidos entrasse em uma recessão prolongada como a que se seguiu ao crash de 1929.
Apesar das possível causas, ainda não há consenso sobre o que provocou a dimensão histórica da ‘Black Monday’. O tombo foi resultado de uma combinação de fatores econômicos, geopolíticos e operacionais que abalaram a confiança dos investidores e ampliaram a pressão vendedora sobre as ações.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
JOSé CARLOS FERREIRA
José Carlos Ferreira es corresponsal de Prensa Mercosur en Río de Janeiro, Brasil, con posibilidad de desarrollar su labor periodística en todo el territorio brasileño. Cuenta con experiencia profesional en comunicación y medios, vinculada a WBP Brasil y Rede Globo de Televisão, y posee especial interés en política, noticias regionales, reportajes y entrevistas. Su incorporación fortalece la presencia de Prensa Mercosur en Brasil, aportando experiencia, contenidos y una mirada cercana a la realidad brasileña para informar y conectar al país con la agenda del Mercosur.
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