
“Naza”, documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor que reúne depoimentos de 24 integrantes do Exército e dos serviços de inteligência sionistas, expõe os mecanismos de vigilância, seleção de alvos e bombardeio empregados no genocídio do povo palestino em Gaza. Ao trazer relatos do aparelho militar, o filme vem provocando cizânias na própria entidade sionista, cujo governo sanguinário passou a perseguir seus realizadores e as fontes ouvidas na investigação.
Em 11 de outubro, o desprezível Benjamin Netanyahu exigiu a identificação e o processo dos militares que prestaram depoimentos anônimos. A perseguição também enfrenta oposição interna: desde setembro, mais de 1.500 profissionais do cinema assinaram uma petição de solidariedade aos cineastas, enquanto 43 organizações locais se manifestaram contra as ameaças e a perseguição às fontes.
Produzido pelo The Guardian e pela JW Films, “Naza” foi construído ao longo de três anos. As entrevistas, gravadas à noite nos telhados de Tel Aviv, tiveram imagens e vozes alteradas para proteger as identidades dos depoentes. Em artigo publicado pelo Outras Palavras, os diretores explicam que buscaram tornar ainda mais difícil negar crimes horrendos e bárbaros que os próprios moradores de Gaza já denunciavam.

Famílias transformadas em alvos
O título vem de um acrônimo hebraico para danos colaterais, empregado pela inteligência para designar o número de civis que se espera matar num ataque. O filme expõe o que esse eufemismo encobre: famílias e bairros entram nos cálculos que antecedem os bombardeios sionistas.
O Lavender analisa dados de vigilância e usa inteligência artificial para classificar possíveis combatentes das Brigadas Al-Qassam e das Brigadas Al-Quds – alas militares do Hamas e da Jihad Islâmica Palestina, respectivamente. O sistema Where’s Daddy? – “Onde está o papai?” – localiza os homens visados quando retornam às casas, para atacá-los junto de suas famílias.
A investigação de Abraham para a +972 Magazine e o Local Call, publicada em abril de 2024 e retomada pelo filme, descrevia operadores que aceitavam indicações da máquina sem examinar sua fundamentação. Segundo as fontes, a revisão de um alvo podia durar 20 segundos, mesmo com conhecimento de erros na classificação (!).
Essa vigilância alcança os telefones de crianças, cujas conversas ajudam os operadores a identificar a presença do pai na residência. Um depoente resume: “Você invade o telefone dela e depois a mata”. Outro descreve mapas com áreas habitadas em roxo e destruídas em branco; sua tarefa consistia em transformar as primeiras nas segundas.
Um entrevistado afirma ter visto uma autorização de ataque com previsão de 500 mortes civis, sem saber quantas pessoas foram efetivamente assassinadas. O Exército sionista negou esse relato e contestou o uso de inteligência artificial na aprovação dos ataques, sustentando que as decisões caberiam exclusivamente a pessoas.
As revelações alcançam justamente a responsabilidade de quem autoriza os bombardeios. Segundo os diretores, um oficial ouvia famílias em suas atividades cotidianas e, mesmo sabendo quem estava dentro da casa, dava sinal verde ao ataque. Ao explicar o motivo, declarou: “Você entende que o objetivo é destruir”.
Os cineastas afirmam que verificaram as identidades dos participantes e cruzaram as informações com fontes independentes. Em entrevista à Cadena SER, explicaram que a investigação se desenvolveu pela construção de uma rede de testemunhos, sem apoiar os dados relevantes numa única pessoa.

Netanyahu quer identificar e processar os depoentes
A exigência do genocida Netanyahu foi dirigida à procuradora-geral, Gali Baharav–Miara, ao comandante do Exército, Eyal Zamir, e ao chefe do Shin Bet, David Zini. Na carta de 11 de outubro, o primeiro-ministro classificou o filme como difamação e alegou suspeitas de divulgação de informações ultrassecretas, exigindo investigação criminal e processo. Entre as justificativas, invocou os prejuízos que a obra, com a exposição desses crimes contra a humanidade cometidos pela entidade sionista, provocaria aos interesses diplomáticos e de segurança de “Israel”, cujo isolamento só se agrava desde o Dilúvio de Al-Aqsa em 7 de outubro de 2023.
Zamir já havia determinado que órgãos militares e jurídicos identificassem os entrevistados e examinassem medidas contra eles. O procurador-geral militar, Itai Ofir, declarou, porém, que um processo criminal dependeria de provas de violações de segurança ou de divulgação de material confidencial, embora admitisse punições disciplinares.
A campanha começou logo após a estreia em Veneza. Em 13 de setembro, o ministro da Cultura, Miki Zohar, ameaçou retirar a cidadania de Abraham e Szor, acusando-os de traição. O ministro Itamar Ben–Gvir também os atacou e mandou que fossem embora. Netanyahu posteriormente anunciou apoio a mudanças legais para retirar a cidadania de quem, em seus termos, difamasse o Exército.
As ameaças chegaram às famílias. Em 16 de setembro, militantes da extrema direita se reuniram diante da casa dos pais de Szor, em Savyon. Segundo o Israel Hayom, a organização do ato envolveu ativistas e integrantes da campanha do partido de Ben–Gvir, o Otzma Yehudit.

Embaixadas promovem imitação para desacreditar as denúncias
A ofensiva também tomou a forma de contrapropaganda. Realizadores lançaram “Naza: The Real Story” – “Naza: A história real” –, uma produção destinada a legitimar os crimes perversos da entidade sionista e desacreditar as denúncias reais do documentário original. A imitação repete entrevistas em telhados de Tel Aviv e apresenta depoimentos abjetos em defesa das operações militares sanguinárias de “Israel”. Seus autores, sem escrúpulos, descrevem o projeto odioso como uma ofensiva sionista para disputar a repercussão internacional.
O endereço “nazadocumentary.com” foi registrado em 16 de setembro, seis dias após a estreia do original. Inicialmente, apresentou-se falsamente como página do filme de Abraham e Szor.
Embaixadas sionistas, entre elas a de Washington, promoveram a imitação. Em 8 de outubro, o governo anunciou certificados de reconhecimento aos realizadores por sua contribuição à propaganda diplomática de “Israel”. A embaixada na capital norte-americana afirmou que o Ministério das Relações Exteriores não participou da produção, mas confirmou que a divulgava para ampliar o alcance do material.
No entanto, para a cólera das hienas sionistas, a perseguição esbarra na grande repercussão internacional da obra em toda a humanidade progressista. “Naza” recebeu o Prêmio Especial do Júri do 83º Festival de Veneza em 12 de setembro. Abraham e Szor integram também a equipe de “Sem chão”, realizado com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal e vencedor do Oscar de melhor documentário em 2025. Ken Loach, Laura Poitras e Joshua Oppenheimer estão entre os cineastas que manifestaram solidariedade à dupla.
No Brasil, “Naza” estreou em 1º de outubro, com distribuição da Vitrine Filmes, e permanece em cartaz. O Guardian prevê disponibilizar o filme gratuitamente no fim de novembro.
Em entrevista publicada pelo The Irish Times em 14 de outubro, Abraham relatou o medo provocado pelas ameaças às famílias e pela incerteza sobre o retorno para casa. Avaliou, ao mesmo tempo, que a violência da reação de “Satãnyahu” indica que os governantes sionistas também temem as revelações do filme.

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