A rotina de Juliana Alcântara, de 42 anos, transformou-se em uma mobilização permanente por acessibilidade em Belo Horizonte. Servidora pública e mãe de Gael Alexandre, de 6 anos, que tem paralisia cerebral do tipo diplegia espástica e utiliza cadeira de rodas, ela afirma ter registrado mais de mil reclamações em dois anos contra obstáculos encontrados nas ruas e espaços públicos da capital mineira. A lista inclui calçadas danificadas, ausência de rampas, raízes de árvores, postes, lixo e outros obstáculos que dificultam a circulação de pessoas com mobilidade reduzida.
Moradora da região Leste de Belo Horizonte, Juliana passou a registrar sistematicamente os problemas depois que percebeu que os deslocamentos com o filho se tornavam cada vez mais difíceis à medida que ele crescia. Gael nasceu prematuro e sua condição compromete principalmente os movimentos das pernas. A cadeira de rodas tornou-se indispensável para os deslocamentos, mas as próprias calçadas e ruas passaram a representar uma barreira constante para a família.
Durante os primeiros anos escolares do menino, a mãe chegou a percorrer aproximadamente três quilômetros empurrando a cadeira de rodas porque considerava impraticável utilizar o transporte coletivo nos horários de maior movimento. Segundo ela, embora os ônibus tenham mecanismos de acessibilidade, a realidade cotidiana de um veículo lotado pode impedir que uma pessoa em cadeira de rodas consiga utilizá-lo adequadamente.
Para ampliar as possibilidades de lazer e deslocamento com o filho, Juliana encontrou outra alternativa: mandou produzir uma bicicleta adaptada de três rodas. Gael permanece sentado na parte dianteira enquanto a mãe conduz o equipamento. Além de permitir passeios, segundo ela, a bicicleta possibilita que o menino movimente passivamente as pernas e tenha maior contato com diferentes espaços da cidade.
A família também criou um nome para essa mobilização. Gael é chamado carinhosamente de “Periquito Fiscalizador”. De acordo com Juliana, o apelido “Periquito” está relacionado ao fato de ele ter nascido prematuro, enquanto “Fiscalizador” representa a participação do menino na luta por uma cidade mais inclusiva. A mãe passou a transformar situações encontradas durante os deslocamentos em registros e reclamações direcionadas ao poder público.
Uma planilha para acompanhar as reclamações
A quantidade de registros chegou a um nível que levou Juliana a organizar as ocorrências em uma planilha. Ela afirma que muitas reclamações demoram meses para produzir algum resultado. Em determinados casos, depois de denunciar a ausência de uma rampa, por exemplo, ela precisa voltar a registrar o mesmo problema porque a intervenção não foi realizada.
A preocupação também se estende aos espaços de lazer. Segundo um levantamento realizado pela própria Juliana, 35 clubes de Belo Horizonte não possuem plataforma ou rampa adequada para cadeirantes, enquanto 11 seguiriam as exigências que ela pesquisou. Para a mãe, acessibilidade não deve ser tratada como uma necessidade exclusiva das pessoas com deficiência, mas como uma característica necessária para uma cidade que também precisa atender idosos e pessoas com mobilidade temporariamente reduzida.
A luta chegou às escolas
Juliana decidiu levar a discussão também para as crianças. No aniversário de Gael, ela entregou aos colegas do menino um jogo de tabuleiro criado por ela, chamado “Turminha do Gael na missão de acessibilizar BH”. A proposta apresenta situações do cotidiano urbano e incentiva atitudes relacionadas à identificação e cobrança de melhorias.
Ela também criou um “baralho da acessibilidade” e escreveu uma carta dirigida aos pais das crianças. A ideia é fazer com que o tema seja compreendido desde a infância e deixar claro que acessibilidade não é uma questão distante ou restrita às pessoas que utilizam cadeira de rodas.
Entre as mensagens utilizadas nos materiais estão orientações como registrar calçadas danificadas, evitar árvores que destruam os passeios, defender esportes sem barreiras e reduzir obstáculos provocados pela instalação inadequada de postes.
Especialista vê problema estrutural
Para o arquiteto e urbanista Sérgio Myssior, mestre em Ambiente Construído e Patrimônio Sustentável pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o caso expõe uma questão que ultrapassa a experiência individual da família.
Segundo ele, “a mobilidade urbana é o primeiro degrau da cidadania”, porque uma cidade só pode ser considerada inclusiva quando seus moradores conseguem percorrer todo o caminho necessário entre suas casas, serviços, equipamentos públicos e espaços de convivência. O especialista também chama atenção para o envelhecimento da população, que aumenta a necessidade de ambientes urbanos acessíveis.
Myssior considera que o número de reclamações feitas pela mãe demonstra a necessidade de transformar acessibilidade e inclusão em prioridades permanentes das políticas públicas. A avaliação, porém, é uma análise do especialista, e não uma conclusão independente sobre a atuação da administração municipal.
Prefeitura apresenta números de fiscalização
A Prefeitura de Belo Horizonte informou à reportagem que as diretrizes de acessibilidade seguem normas da ABNT NBR 9050/2020 e NBR 16537/2024, além de regulamentações municipais. O Executivo também afirmou que, em determinadas calçadas junto a imóveis particulares, a responsabilidade pela execução, manutenção e adequação dos passeios é do proprietário.
Segundo os números apresentados pela prefeitura, em 2025 foram realizadas 5.760 vistorias, com 935 multas e 2.534 notificações orientativas. Em 2026, até o momento da reportagem, haviam sido realizadas 3.565 vistorias, aplicadas 432 multas e emitidas 1.825 notificações orientativas.
A administração municipal informou ainda que denúncias sobre irregularidades em calçadas podem ser encaminhadas pelo aplicativo BH SIM, pelo Portal de Serviços ou pelo telefone 156, com prazo informado de até 20 dias para a realização da vistoria. A prefeitura também citou intervenções em diferentes áreas da cidade, incluindo praças, corredores viários, regiões comerciais e estruturas do sistema de transporte.
Uma luta que começou dentro de casa
Para Juliana, a mobilização não nasceu apenas da necessidade de conseguir uma rampa ou uma calçada transitável para o filho. Ela afirma que deseja que Gael cresça podendo participar ativamente da sociedade e que outras crianças com deficiência encontrem menos obstáculos do que ele encontra atualmente.
A experiência da família mostra como uma dificuldade aparentemente simples — uma calçada quebrada, uma raiz que impede a passagem ou a ausência de uma rampa — pode transformar completamente o deslocamento de quem utiliza cadeira de rodas. Para quem caminha, o obstáculo pode ser apenas uma irregularidade no caminho; para quem depende de uma cadeira, pode significar a impossibilidade de continuar a rota.
A história de Juliana e Gael transformou uma experiência familiar em uma campanha permanente por acessibilidade. Mais de mil reclamações depois, a mãe continua registrando obstáculos, cobrando respostas e ensinando crianças sobre inclusão. A mensagem que ela procura deixar é simples: uma cidade acessível não deve ser aquela em que algumas pessoas conseguem superar as barreiras, mas aquela em que as barreiras deixam de impedir que alguém participe plenamente da vida urbana.
Foto: Reprodução / Record Minas
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