Aos 69 anos, Maria Nunes Perdigão, conhecida em Goiás como Maria Machadão, continua à frente da Estância MM, negócio que ajudou a transformar seu apelido em uma das personagens mais populares da noite goiana. Nascida em Ceres e criada em Goiânia desde os 6 anos, ela passou por uma infância marcada pela pobreza, trabalhou desde a adolescência, chegou a atuar por poucos dias como profissional do sexo e encontrou na administração de casas noturnas o caminho que a levaria à fama, à política e a uma trajetória empresarial que atravessa décadas.
Maria nasceu em 9 de agosto de 1957, em Ceres, Goiás, e chegou à capital goiana aos seis anos, acompanhada pelos pais e pelos nove irmãos. A família enfrentava dificuldades severas: o pai estava doente e sem emprego, enquanto a mãe trabalhava para sustentar a casa. Sem espaço suficiente na residência de uma tia, a família chegou a viver provisoriamente sob uma lona preta. A lembrança da fome e da falta de condições materiais tornou-se um dos capítulos mais marcantes da infância da empresária.
A necessidade de trabalhar apareceu cedo. Segundo o relato de Maria, aos 13 anos ela começou a trabalhar como doméstica e, aos 18, conseguiu emprego na Madeireira São Jorge, período que também seria decisivo para o surgimento do nome pelo qual posteriormente ficaria conhecida. Foi justamente nesse ambiente que o apelido “Maria Machadão” começou a ganhar forma, inspirado na personagem da novela Gabriela, adaptação da obra de Jorge Amado.
A associação não surgiu por acaso. Na novela, Maria Machadão era a proprietária do Bataclan, famoso estabelecimento de Ilhéus retratado na história de Gabriela. Na versão exibida pela televisão em 2012, a personagem foi interpretada por Ivete Sangalo; na produção original de 1975, o papel coube à atriz Eloísa Mafalda. O personagem acabou ultrapassando a ficção e, no caso de Maria Nunes Perdigão, o apelido passou a fazer parte de sua identidade pública.
A entrada de Maria no universo da noite goiana também ocorreu de maneira pouco convencional. Ela contou que chegou a trabalhar durante cinco dias como profissional do sexo, mas concluiu rapidamente que aquela atividade não correspondia ao que pretendia para sua vida. Em vez de permanecer na função, percebeu que tinha outra habilidade: organizar, administrar conflitos e exercer liderança entre as mulheres que trabalhavam nas casas noturnas.
Foi essa capacidade de gestão que mudou sua trajetória. Maria passou a atuar como agenciadora e, posteriormente, assumiu a direção da Estância MM, em Aparecida de Goiânia, estabelecimento que se tornou associado ao seu nome e à vida noturna da região metropolitana de Goiânia. Registros empresariais indicam que a empresa foi aberta em 1990 e permanece ativa; atualmente, Maria Nunes Perdigão aparece como sócia-administradora.
A longevidade da Estância MM ajuda a explicar por que o nome Maria Machadão atravessou diferentes gerações. Ao longo dos anos, a casa recebeu atrações e personagens que ajudaram a mantê-la no circuito de entretenimento de Goiás. Uma reportagem publicada pelo Diário da Manhã em 2016, por exemplo, registrava Maria como empresária responsável pela programação do estabelecimento e destacava sua preocupação em renovar as atrações para manter o público.
A personagem pública ganhou uma dimensão inesperada em 2022, quando Maria decidiu entrar na política. Filiada ao Avante, disputou uma vaga de deputada federal por Goiás utilizando o nome pelo qual já era conhecida popularmente. A candidatura recebeu 2.938 votos, insuficientes para garantir uma cadeira na Câmara dos Deputados.
A campanha, entretanto, revelou uma faceta política que ia além da provocação proporcionada pelo seu conhecido apelido. Maria dizia querer representar principalmente mães solo e mulheres que, segundo ela, enfrentavam dificuldades econômicas e sociais. Durante a campanha, também defendeu a legalização da profissão do sexo e criticou o preconceito contra mulheres ligadas ao setor de entretenimento adulto.
O episódio eleitoral também mostrou como a imagem construída ao longo de décadas poderia ser convertida em capital político — mas não necessariamente em votos suficientes para chegar ao Congresso. Maria declarou patrimônio de aproximadamente R$ 2,7 milhões durante aquela disputa, segundo reportagens da época, enquanto sua candidatura apostava fortemente na notoriedade construída em Goiás.
Depois da experiência eleitoral, a política deixou de ocupar o centro de seus planos. Maria afirma que não pretende disputar novamente uma eleição. O trabalho, entretanto, continua fazendo parte de sua rotina. Aos 69 anos, ela mantém a disposição de permanecer à frente da Estância MM enquanto tiver condições físicas para trabalhar.
Há, nesse percurso, uma contradição que ajuda a explicar a força da personagem: Maria Machadão nasceu de um apelido associado a uma personagem de ficção, mas acabou construindo uma identidade própria muito mais duradoura do que a referência que lhe deu origem. A menina que chegou a Goiânia em meio à pobreza tornou-se empresária, personagem da vida noturna, candidata a deputada federal e figura conhecida muito além do ambiente em que começou sua trajetória.
Mais de três décadas depois da abertura da Estância MM, o empreendimento continua formalmente ativo em Aparecida de Goiânia, com Maria Nunes Perdigão registrada como administradora. A história, portanto, ainda não terminou. Aos 69 anos, ela deixou a política eleitoral de lado, mas continua apostando na atividade que ajudou a transformar um apelido de novela em uma marca pessoal reconhecida em Goiás.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
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