A eleição brasileira de 2026 começa a revelar uma estratégia política que conecta diretamente os desdobramentos judiciais do 8 de Janeiro de 2023 com a disputa por cadeiras no Congresso Nacional: pelo menos três mulheres ligadas a militares ou a pessoas condenadas pelos acontecimentos daquele período estão colocando seus nomes na corrida eleitoral. Rebeca Ramagem, esposa do ex-deputado Alexandre Ramagem, disputará uma vaga na Câmara pelo PL do Rio de Janeiro; Cida Villas Bôas, mulher do ex-comandante do Exército Eduardo Villas Bôas, concorrerá pelo NOVO no Distrito Federal; e Mariana Naime, esposa do coronel da Polícia Militar do Distrito Federal Jorge Eduardo Naime, também buscará uma cadeira na Câmara pelo PL-DF. O movimento é mais amplo do que a simples estreia de três candidatas: ele mostra como as consequências políticas e judiciais do 8 de Janeiro continuam produzindo novos atores eleitorais e podem transformar o próximo Congresso em um espaço ainda mais importante para as disputas sobre anistia, decisões do Supremo Tribunal Federal, segurança pública, papel das Forças Armadas e limites entre oposição política e defesa das instituições democráticas.
A movimentação ocorre em um momento em que o 8 de Janeiro continua sendo um dos principais temas da política brasileira. A invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, em Brasília, em 2023, desencadeou uma extensa investigação criminal, processos no STF, condenações de executores e integrantes considerados parte da articulação golpista e uma disputa política que ainda divide profundamente o país.
Agora, mais de três anos depois dos ataques, parte dessa disputa começa a migrar dos tribunais para as urnas. Em vez de apenas defender publicamente familiares envolvidos nos processos, algumas dessas mulheres passaram a buscar diretamente mandatos eletivos, o que lhes permitiria participar das decisões sobre legislação, orçamento, comissões parlamentares e eventuais propostas de revisão das consequências jurídicas do 8 de Janeiro.
Rebeca Ramagem: da defesa do marido à disputa pela Câmara
O caso de Rebeca Ramagem é o mais diretamente relacionado a uma condenação do núcleo central da trama golpista.
Procuradora do Estado de Roraima e ex-delegada, Rebeca é casada com Alexandre Ramagem, ex-diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência e ex-deputado federal pelo PL. O partido oficializou sua candidatura à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro em julho, durante a convenção estadual da legenda.
Ramagem foi condenado pelo STF a 16 anos, 1 mês e 15 dias de prisão por crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado. Em 2026, ele passou a ser considerado foragido da Justiça brasileira depois de deixar o país e posteriormente foi detido por autoridades migratórias americanas na Flórida.
A candidatura da esposa ganha, portanto, uma dimensão política evidente: Rebeca pode se transformar em uma das principais representantes eleitorais da defesa política do marido e de outros condenados, levando ao Congresso um discurso que hoje é articulado principalmente nas redes sociais e em manifestações de grupos conservadores.
Ela própria vive nos Estados Unidos com o marido desde o final de 2025 e afirma que a mudança ocorreu por razões políticas. A imprensa brasileira registrou que Rebeca se apresenta como vítima de perseguição política e utiliza essa narrativa como parte de sua exposição pública.
Existe ainda uma consequência institucional relevante: Rebeca está licenciada de seu cargo público em Roraima para disputar a eleição. Segundo informações divulgadas pela Procuradoria-Geral do Estado, o afastamento para atividade política começou em 4 de julho de 2026.
Cida Villas Bôas: outro nome com forte ligação militar
No Distrito Federal, o movimento assume outra característica.
Cida Villas Bôas, esposa do general da reserva Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, colocou seu nome à disposição para disputar uma vaga de deputada federal pelo NOVO. O próprio partido já apresenta Cida oficialmente em sua plataforma de pré-candidatos para a Câmara.
A ligação com o 8 de Janeiro, entretanto, precisa ser tratada com precisão.
Eduardo Villas Bôas não é réu nem condenado pelos ataques de 8 de Janeiro. A relação política de Cida com o episódio decorre de sua atuação pública e de sua presença em ambientes ligados aos acampamentos que antecederam os ataques. Segundo o R7, ela chegou a visitar quartéis onde havia manifestações antes do 8 de Janeiro.
A candidatura também possui uma dimensão simbólica. Villas Bôas foi comandante do Exército entre 2015 e 2019 e se tornou uma das figuras militares mais conhecidas da política brasileira nos últimos anos.
O nome do general voltou ao centro de debates políticos depois que investigações sobre a tentativa de ruptura institucional revelaram contatos e reuniões entre integrantes do governo Bolsonaro, militares e outras autoridades durante os meses que antecederam janeiro de 2023. Reportagens da época registraram, por exemplo, visitas de Jair Bolsonaro e outros personagens a Villas Bôas em dezembro de 2022.
Isso não significa que o general tenha sido responsabilizado judicialmente pelos ataques. A distinção é importante para evitar que uma associação política seja apresentada como condenação criminal.
Mariana Naime e a defesa dos policiais militares
A terceira candidatura destacada pelo R7 é a de Mariana Naime, esposa do coronel Jorge Eduardo Naime, ex-chefe do Departamento de Operações da Polícia Militar do Distrito Federal.
Naime foi condenado pelo STF a 16 anos de prisão por sua responsabilidade relacionada à omissão da cúpula da PMDF durante os acontecimentos de 8 de Janeiro. Em março de 2026, o Supremo determinou o início do cumprimento das penas dos ex-integrantes da cúpula da Polícia Militar condenados no processo.
Mariana, que é formada em Direito, construiu sua atuação política em torno de temas relacionados à família, pessoas com deficiência, doenças raras e defesa dos condenados pelo 8 de Janeiro. Ela se filiou ao PL e disputa uma das vagas do Distrito Federal na Câmara.
Sua candidatura apresenta uma diferença em relação à de Rebeca Ramagem. Enquanto Rebeca está diretamente ligada a um dos condenados do núcleo central da trama golpista, Mariana representa principalmente o grupo de familiares de policiais militares condenados por suposta omissão na resposta aos ataques.
Isso pode ampliar o alcance eleitoral da pauta, porque coloca no mesmo debate temas como responsabilidade individual, comando policial, segurança pública, hierarquia militar e tratamento judicial dado aos agentes públicos envolvidos.
O que une as três candidaturas?
Há diferenças importantes entre as histórias, mas existe um ponto comum: as três candidaturas transformam relações familiares e experiências pessoais relacionadas ao período do 8 de Janeiro em plataformas eleitorais.
O fenômeno também mostra uma mudança na estratégia de determinados grupos da direita brasileira.
Nos primeiros anos após os ataques, a principal estratégia política esteve concentrada em manifestações pela anistia, críticas ao STF, defesa dos condenados e mobilização nas redes sociais.
Agora, uma parte dessa mobilização busca uma representação institucional direta.
Se essas candidatas forem eleitas, poderão participar de debates que envolvam justamente os temas que marcaram suas trajetórias: anistia, revisão de penas, segurança pública, Forças Armadas, Polícia Militar, decisões do STF e responsabilização pelos ataques de 2023.
O Congresso pode virar o próximo campo de batalha
A disputa eleitoral de 2026 ganha, dessa maneira, uma dimensão institucional que ultrapassa as candidaturas individuais.
Uma bancada formada por parlamentares ligados politicamente às famílias de condenados ou às estruturas militares envolvidas no episódio poderia pressionar por mudanças na legislação, apoiar projetos de anistia ou redução de penas e ampliar a fiscalização sobre decisões do Judiciário.
Mas isso dependerá dos resultados eleitorais e, principalmente, da capacidade dessas candidaturas de transformar visibilidade política em votos.
O sistema eleitoral brasileiro para a Câmara dos Deputados é proporcional, o que significa que não basta necessariamente ser uma candidata individualmente conhecida. O desempenho depende também da votação do partido ou federação e da distribuição das cadeiras.
Por isso, partidos como PL e NOVO podem utilizar essas candidaturas não apenas como projetos pessoais, mas como instrumentos para mobilizar segmentos específicos do eleitorado conservador.
A estratégia do PL
Para o PL, a candidatura de Rebeca Ramagem se encaixa em uma estratégia mais ampla de renovação e ampliação de sua bancada.
O partido já abriga diversos políticos diretamente associados ao bolsonarismo e deverá utilizar a eleição de 2026 para reforçar sua presença no Congresso.
A escolha de uma mulher ligada a Alexandre Ramagem também permite ao partido trabalhar uma narrativa de continuidade política.
Mesmo com o marido fora do Brasil e condenado pelo STF, seu sobrenome continua tendo valor eleitoral entre determinados setores do eleitorado.
O desafio será transformar essa identificação em votos suficientes para conquistar uma cadeira em um dos maiores colégios eleitorais do país.
O papel do NOVO
A candidatura de Cida Villas Bôas possui outra característica.
O NOVO tenta equilibrar sua identidade tradicional — liberalismo econômico, redução do Estado e responsabilidade fiscal — com a aproximação de segmentos conservadores que têm forte presença no Distrito Federal.
A escolha de Cida demonstra que a pauta política relacionada aos militares e ao 8 de Janeiro também encontrou espaço fora do PL.
Segundo a Folha, Cida foi convidada a se filiar ao NOVO pelo desembargador aposentado Sebastião Coelho, que ganhou notoriedade nacional ao atuar na defesa de um dos primeiros condenados pelos ataques de 8 de Janeiro.
Isso indica que existe uma rede política mais ampla conectando juristas, militares da reserva, familiares de condenados e grupos conservadores.
Antes: o 8 de Janeiro como crise institucional
Para compreender o significado das candidaturas, é necessário voltar a janeiro de 2023.
Após a derrota eleitoral de Jair Bolsonaro em 2022, milhares de apoiadores permaneceram mobilizados em manifestações e acampamentos próximos a instalações militares.
Em 8 de janeiro de 2023, uma multidão invadiu e depredou o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal.
O episódio foi tratado pelas instituições brasileiras como uma tentativa de ruptura da ordem democrática.
A resposta judicial foi extensa. O STF processou centenas de pessoas e separou diferentes níveis de responsabilidade entre executores, financiadores, participantes e integrantes considerados responsáveis pela articulação política ou operacional.
Ao longo dos anos seguintes, as condenações produziram uma reação política crescente entre setores da direita.
Agora: a batalha chega às urnas
Em 2026, a situação mudou.
A defesa dos envolvidos deixou de ser exclusivamente uma questão jurídica. Passou a ser também uma questão eleitoral.
Rebeca Ramagem, Cida Villas Bôas e Mariana Naime representam diferentes dimensões dessa transformação.
Uma é esposa de um condenado do núcleo central da trama; outra está ligada a um dos mais conhecidos generais da história recente do Exército; a terceira é esposa de um oficial condenado pela atuação da PMDF durante os ataques.
A diversidade das conexões permite que o discurso alcance públicos diferentes.
Depois: o que pode acontecer se forem eleitas?
Se as três conseguirem chegar à Câmara, o debate sobre o 8 de Janeiro ganhará novos protagonistas.
Uma possibilidade é a formação de uma frente parlamentar dedicada à revisão das condenações, à defesa de anistia ou à alteração das regras penais aplicadas aos crimes contra o Estado Democrático de Direito.
Outra possibilidade é a ampliação do confronto entre Congresso e STF.
O resultado dependerá, entretanto, da composição geral da Câmara. Mesmo que essas candidatas sejam eleitas, elas precisarão construir alianças para transformar suas posições em legislação.
Também existe um cenário contrário: caso não consigam eleger-se, o movimento poderá demonstrar que a ligação familiar com os condenados não é suficiente para transformar mobilização digital em força eleitoral.
Uma eleição que poderá medir a força do bolsonarismo após as condenações
O significado mais profundo dessas candidaturas está justamente nessa incógnita.
O bolsonarismo de 2026 precisa responder a uma realidade diferente daquela de 2022. Jair Bolsonaro não ocupa mais a Presidência, diversos integrantes de seu antigo círculo político foram condenados e o 8 de Janeiro passou de um acontecimento recente para um processo judicial com consequências concretas.
Ao mesmo tempo, a base política conservadora permanece mobilizada.
As candidaturas de mulheres ligadas a militares e condenados mostram que esse eleitorado procura novos representantes capazes de levar ao Congresso uma narrativa de contestação às decisões judiciais e defesa das famílias dos condenados.
O desempenho eleitoral de Rebeca Ramagem, Cida Villas Bôas e Mariana Naime poderá, portanto, funcionar como um indicador da capacidade de sobrevivência política dessa pauta.
Mais do que três candidaturas individuais, o que está em disputa é se a batalha política iniciada nas ruas de Brasília em janeiro de 2023 continuará nos tribunais ou encontrará no Congresso Nacional uma nova arena para sua próxima etapa.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
GILSON DANTAS CARMINI
Gilson Dantas Carmini es periodista brasileño, presidente y editor en jefe de Prensa Mercosur. Especializado en integración regional, geopolítica y derechos humanos, desarrolla una destacada labor en el ámbito de la comunicación internacional.
Posee un Máster en Desarrollo y Cooperación Internacional y mantiene una amplia red de relaciones profesionales, académicas y diplomáticas en América Latina y Asia.
Entre sus reconocimientos destacan el Micrófono de Oro de la Asociación Nacional de Locutores de México (2021), el Doctorado Honoris Causa de la Universidad Internacional México Blanco (2020) y el título de Amigo de la Niñez y la Adolescencia.
- ★PARAGUAY: Localizan con vida a un paraguayo tras más de 48 horas perdido en la selva de Misiones mientras buscaba un globo sonda
- ★PARAGUAY: Gustavo Leite rompe el silencio dentro del cartismo y cuestiona a Santiago Peña por la crisis de medicamentos
- ★PARAGUAY: Un lote del IPS terminó vinculado al Grupo Vázquez tras una cadena de cambios societarios y modificaciones contractuales
- ★PARAGUAY: Una agencia vinculada a una red investigada por desinformación operó anuncios digitales de la campaña de Camilo Pérez
- ★BRASIL: MPF abre investigación por presunto discurso de odio contra indígenas tras publicaciones vinculadas al apoyo del cantante Renegado


