
Dados do governo americano revelam que bebês e adolescentes foram levados a centros de detenção; denúncias apontam comida contaminada e surtos de sarampo em presídios do Texas.
O cenário para imigrantes brasileiros nos Estados Unidos atingiu níveis críticos no último ano. Dados oficiais do governo americano, compilados pelo Deportation Data Project da Universidade da Califórnia e analisados pela Folha, revelam que 157 crianças de nacionalidade brasileira foram detidas pela polícia de imigração (ICE) ao longo de 2025.
Desse total, 142 menores foram encaminhados para centros de detenção federais e 114 já foram deportados ou deixaram o país. O levantamento abrange desde recém-nascidos — bebês com menos de um ano, nascidos em 2024 — até adolescentes de 17 anos. Devido a lacunas nos registros de brasileiros nascidos em 2007, estima-se que o número real de menores detidos possa ser ainda superior.
Ocupação em “campos de concentração” no Texas
As instalações no Texas concentram a maioria dos casos. O Centro Residencial da Família do Sul do Texas, em Dilley — considerado o maior complexo para imigrantes nos EUA, com capacidade para 2.400 pessoas — recebeu 29 crianças brasileiras. Outras 11 foram enviadas para o Centro Residencial do Condado de Karnes.
Um dos casos mais emblemáticos registrados é o de uma criança nascida em 2023, que permaneceu 44 dias presa em Dilley antes de ser deportada em setembro do ano passado. O tempo médio de detenção tem sido uma das maiores fontes de críticas contra o governo federal americano.
Violação de direitos e condições insalubres
Embora o limite legal nos EUA para a detenção de crianças seja de 20 dias, o próprio ICE admite que cerca de 400 menores imigrantes ultrapassaram esse teto. Há registros de crianças que ficaram confinadas por mais de cinco meses (168 dias).
Advogados de imigração e familiares denunciam um quadro de negligência sistemática:
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Alimentação: Relatos apontam comida servida com vermes em Dilley, causando surtos frequentes de diarreia e dores estomacais.
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Saúde: Falta de acesso a cuidados médicos básicos e denúncias de lesões corporais sofridas dentro das unidades.
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Jurídico: Processos extremamente lentos e ausência de aconselhamento legal adequado para as famílias detidas.
Quarentena e risco sanitário
A situação se agravou recentemente com a confirmação de dois casos de sarampo no centro de detenção em Dilley. A instalação foi colocada em quarentena total pelo Departamento de Segurança Interna (DHS).
“O corpo de serviços de saúde do ICE tomou medidas imediatas para interromper todo o movimento dentro da unidade e isolar os indivíduos suspeitos de contato com os infectados”, afirmou a porta-voz do departamento, Tricia McLaughlin. A medida expõe a vulnerabilidade de mulheres e crianças confinadas em massa em ambientes sob quarentena sanitária.
Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre
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