
Por trás das fachadas coloridas, 10% da população dos EUA vive sem moradia digna, dividindo espaços superlotados ou habitando veículos.
A imagem dos subúrbios americanos, com suas casas de cercas brancas e gramados impecáveis, sempre foi o maior produto de exportação cultural dos Estados Unidos. No entanto, para uma parcela crescente da população, o “sonho americano” tornou-se um pesadelo de metal e asfalto. Atualmente, mais de 400 mil cidadãos norte-americanos — e é preciso sublinhar: cidadãos nativos, pois a estrutura de fiscalização enviaria imigrantes indocumentados à detenção — vivem dentro de veículos. Este é o sintoma final de uma doença social profunda: o direito à moradia tornou-se um artigo de luxo inacessível.
Os dados oficiais são brutais e ajudam a dimensionar esse abismo. Em 2024, a taxa de pobreza nos Estados Unidos atingiu 10,6%, o que representa cerca de 35,9 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da necessidade básica. Mas a estatística esconde uma realidade ainda mais perversa: ter renda não garante ter um teto. O último levantamento do Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano (HUD) registrou um recorde histórico: mais de 771 mil pessoas em situação de rua ou em abrigos em uma única noite.
A pobreza espremida e invisível
O que assistimos em cidades como Los Angeles e São Francisco não é apenas uma crise imobiliária, mas a institucionalização de uma nova classe de trabalhadores pobres. Além dos que dormem visivelmente sob pontes, existe um exército invisível: 17 milhões de americanos vivem em moradias abaixo do padrão aceitável, e outros 4 milhões sobrevivem “de favor” (doubled up) em sofás de parentes. Somando-se as 10 milhões de pessoas em casas superlotadas, temos quase 10% da população enfrentando insegurança habitacional severa.
A pobreza nos EUA raramente se manifesta como as grandes favelas da América Latina; ela se esconde atrás de fachadas coloridas, em porões adaptados ou em carros estacionados discretamente à noite. O mercado paralelo de exploração é feroz: alugar um trailer precário, muitas vezes sem motor, pode custar até mil dólares mensais. É a cobrança de aluguel sobre a miséria, sem direito a água, luz ou dignidade.

A “loteria” da assistência e o colapso institucional
Muitos questionam por que programas como o Section 8 (vouchers de aluguel) não resolvem o problema. A resposta é institucional: ao contrário do auxílio-alimentação (SNAP) ou da saúde (Medicaid), que são direitos garantidos por lei, o auxílio-moradia tem verba limitada. O resultado é o que especialistas chamam de “loteria da assistência”: apenas 1 em cada 4 famílias elegíveis consegue de fato o benefício. Os outros três quartos ficam à própria sorte nas filas intermináveis.
Essa precariedade é alimentada por um descompasso cruel. A maioria dessas pessoas trabalha em serviços essenciais — hotelaria, limpeza e construção. Elas possuem renda, mas o salário mínimo federal não acompanha a disparada dos aluguéis. O Federal Poverty Level (FPL), usado como régua pelo governo, considera pobre uma pessoa com renda mensal de aproximadamente US$ 300, um valor bizarro diante da realidade de cidades onde um quarto de hotel de beira de estrada custa o triplo disso por semana.

O Brasil e a barreira da especulação
Ao compararmos essa tragédia com a realidade brasileira, percebemos uma diferença fundamental de abordagem. Enquanto os EUA confiam quase exclusivamente no mercado privado, o Brasil consolidou o Minha Casa, Minha Vida, um programa que, apesar das críticas, entende a moradia como uma política de Estado e um direito social. Em 2024 com um milhão de contratos do Minha Casa, Minha Vida. O resultado foi 25% superior: 1,25 milhão de residências para famílias em situação de vulnerabilidade social e econômica foram contratadas ao longo do período. Diferente da “loteria” americana, o modelo brasileiro foca na produção de unidades habitacionais e no subsídio direto, permitindo que famílias de baixíssima renda saiam do aluguel — algo que milhões de americanos hoje apenas sonham em fazer.
Entretanto, o Brasil só não está em uma posição muito superior por causa de um inimigo comum: a especulação imobiliária e o lobby das grandes corporações imobiliárias. No Brasil, grandes grupos econômicos mantêm vazios urbanos imensos e terrenos subutilizados apenas para valorização financeira, enquanto o déficit habitacional empurra trabalhadores para as periferias extremas. A lógica do lucro máximo de incorporadoras e bancos trava o potencial de programas habitacionais, encarecendo a terra e dificultando a expansão de cidades mais justas.
A lição do asfalto
O colapso do sonho americano de moradia deve servir de alerta global. Para quem deseja visualizar essa realidade além dos números, obras como Nomadland e The Florida Project são essenciais. Elas mostram que a cultura da meritocracia não segura todo mundo quando as engrenagens do sistema falham.
Se até a nação que se vende como modelo de sucesso não consegue abrigar seu próprio povo trabalhador, é preciso questionar as bases de um sistema que prioriza a especulação em detrimento da sobrevivência humana. Seja no asfalto americano ou nos grandes centros brasileiros, a moradia não pode ser um jogo financeiro. O asfalto tornou-se a última fronteira de resistência, mas não deveria ser o destino de ninguém.
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