
O dilema que atravessa todo o comunicado divulgado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central pode servir como prenúncio do que a economia do Brasil virá a enfrentar no ano que vem. Grosso modo, o colegiado parece ir ao encontro de análises de mercado que começam a indicar que um cenário estagflacionário pode estar bastante próximo. Para empresários e comerciantes, o alerta é claro: a combinação de inflação persistente e crescimento fraco exige cautela no planejamento.
Do outro lado, as projeções de inflação do colegiado — que consideram variáveis como o dólar, os preços do petróleo e as expectativas de inflação — se afastaram ainda mais da meta no horizonte relevante de política monetária, passando de 3,2% para 3,5%. Isso mesmo ao considerar uma trajetória de Selic mais elevada no Focus. A piora nas expectativas inflacionárias pressiona os custos de insumos e o poder de compra das famílias, afetando diretamente o varejo e os serviços.
Juros elevados e atividade fraca
O cenário parece empurrar o BC para um desfecho pouco desejável: o de manter os juros elevados mesmo em meio aos sinais claros de desaceleração da atividade. De outro ponto de vista, a discussão também parece desconfortável: deixar os juros parados enquanto há uma deterioração do cenário inflacionário. Esse impasse reduz a previsibilidade para decisões de investimento e contratação nas empresas.
Na noite de sexta-feira, foi grande a repercussão entre participantes do mercado da revisão de cenário do Itaú Unibanco assinada por Diogo Guillen, que meses atrás se sentava na cadeira do Copom. No cenário projetado para 2027, a inflação em 6,1% e o crescimento de apenas 0,5% do PIB foram sinais de alerta importantes. Para o comércio do interior paulista, esses números indicam um ambiente de margens apertadas e demanda reprimida.
Herança de ruídos na política econômica
Na Faria Lima, havia alguma expectativa de que erros e ruídos do governo Lula 3 na condução da economia não fossem repetidos. No início de seu atual mandato, o presidente encampou uma batalha pessoal contra a meta de inflação brasileira, que classificava como excessivamente restritiva, e direcionava ataques diários ao BC, comandado, à época, por Roberto Campos Neto. Esses embates geraram incerteza e afetaram a confiança de investidores e empresários.
Nenhuma das medidas surtiu efeito positivo. Campos Neto foi mantido no cargo e o ministro da Fazenda na ocasião, Fernando Haddad, se posicionou contra o Palácio do Planalto, votando pela manutenção do centro da meta nos atuais 3%. Muita energia foi gasta no embate e, de concreto, Lula viu as expectativas de inflação subirem, em movimento que não foi totalmente revertido até hoje. A instabilidade política se reflete em juros mais altos e crédito mais caro para as PMEs.
Confiança como chave para o futuro
Não resta dúvida de que os episódios contribuíram para que os juros no Brasil permanecessem em níveis bem mais altos do que o presidente desejaria. A retomada das discussões pouco produtivas na antessala de seu quarto mandato — e que, vale dizer, têm baixa probabilidade de serem adotadas — soa como algo incompreensível para quem acredita que Lula deseja, de fato, governar com juros baixos. Para o setor produtivo, recuperar a confiança é essencial para destravar investimentos e evitar um cenário de estagflação prolongado.
Espaço menor para corte de juros aumenta importância de recuperar a confiança. Sem previsibilidade, empresários adiam expansões, contratações e estoques, o que agrava a desaceleração. O dilema do Copom, portanto, não é apenas técnico: é um reflexo das escolhas políticas e de comunicação do governo, com impacto direto no dia a dia dos negócios.
Perguntas Frequentes
O que o dilema do Copom indica sobre o risco de estagflação no Brasil?
O dilema do Copom escancara o risco de estagflação, pois o colegiado enfrenta a difícil escolha entre manter juros elevados em meio à desaceleração da atividade ou deixá-los parados diante da deterioração inflacionária.
Quais são as projeções de inflação do Copom para o horizonte relevante?
As projeções de inflação do Copom se afastaram da meta, passando de 3,2% para 3,5%, mesmo considerando uma trajetória de Selic mais elevada no Focus.
Qual foi a revisão de cenário do Itaú Unibanco para 2027 e por que ela gerou alerta?
O Itaú Unibanco projetou inflação de 6,1% e crescimento do PIB de apenas 0,5% para 2027, sinais que foram considerados alertas importantes pelo mercado.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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