Demorou quase 100 anos para o Brasil conquistar a sua primeira estatueta do Oscar. Agora, ninguém quer ficar de fora da maior premiação do cinema. Depois de Ainda Estou Aqui, vencedor na categoria de Melhor Filme Internacional em 2025, e O Agente Secreto, indicado a quatro categorias na 98ª edição do prêmio, o país pode aparecer pelo terceiro ano consecutivo entre as produções indicadas. Dessa vez, o concorrente é Feito Pipa, drama de arrancar lágrimas sobre Gugu, um garoto que não aceita ser outro além de si mesmo.

Dirigido por Allan Deberton (Pacarrete), o longa apresenta a história de um garoto de cerca de 12 anos de idade, interpretado pelo estreante, mas talentosíssimo ator baiano Yuri Gomes. O personagem adora se enfeitar, usar roupas brilhantes, passar maquiagem, dançar com os amigos e sonha em se tornar jogador de futebol. Órfão de mãe, Gugu é criado pela avó e tem problemas com o pai, o caminhoneiro Batista (Lázaro Ramos, Madame Satã). Este desaprova as peculiaridades do menino e se dedica integralmente à sua outra família.
Simples, mas de uma sensibilidade ímpar, Feito Pipa conquistou Júri Infantil/Jovem da mostra competitiva Generation Kplus e levou o Urso de Cristal de Melhor Filme no Festival de Berlim, o conceituado Berlinale. Isso além do Grande Prêmio do Júri Internacional. O longa também foi premiado em passagens pela Colômbia, México, Ucrânia, Estados Unidos e, entre outros, no Brasil, no 54º Festival de Cinema de Gramado e na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Feito Pipa e o cinema brasileiro em 2026
Apesar de todo o reconhecimento e a oportunidade de ver o seu trabalho ganhar o mundo, Allan Deberton diz que não fica deslumbrado pelo momento. No lugar, se diz feliz por ver a história de Gugu tocar tanta gente:
“Dentro da minha trajetória no audiovisual, desde os primeiros curtas, depois de ter feito Pacarrete, eu fico muito feliz de Feito Pipa se comunicar bem, principalmente com o Brasil”, afirma o cineasta ao Seu Dinheiro. “Feito Pipa conta uma história simples, sem grandes expectativas. A gente só queria fazer um filme do coração e [agora] percebe que ele está atraindo a atenção de pessoas de Norte a Sul do Brasil, com a acolhida maravilhosa que está tendo.”

“Acho muito bonito quando as pessoas trazem que o filme as atravessa e esse atravessamento parece ser muito mais prático do que a gente imagina ser de fato”, completa Deberton. “Quando fazemos o filme, há uma intuição de que aquela história deve ser contada, porque é importante, porque emociona, porque vai conectar as pessoas. Mas é realmente só durante esse acesso que a gente percebe como isso é potencializado. Como isso, na verdade, ultrapassa o nosso imaginário em relação a essa expectativa de conversa com o público.”
Para o cineasta, Feito Pipa também é uma produção que pode encorajar as pessoas a irem mais ao cinema. “Até pouco tempo atrás, a gente falava, nos anos pandêmicos, da morte do cinema, de mudanças de hábito, e eu acho que não [aconteceu]. A gente tem um grande sucesso de bilheteria agora, que é Minha Melhor Amiga. Fez milhões de espectadores”, aponta. Estrelada por Mônica Martelli (Minha Vida em Marte) e Ingrid Guimarães (De Pernas pro Ar), a comédia superou a marca de 6 milhões de espectadores. Acabou entrando para a lista dos dez filmes mais assistidos na história do cinema brasileiro antes de ser lançado na Netflix no último dia 2 de novembro.
“A gente também consegue fazer isso com [mais] filmes brasileiros, por mais variados que eles sejam, porque a gente tem uma infinidade de grandes histórias prontas para serem lançadas, e outras que estão sendo gestadas agora mesmo. A gente quer que a plateia brasileira abrace Feito Pipa”, continua.

A campanha (re)começa
Na visão de Deberton, é essa aceitação do público brasileiro que pode, efetivamente, levar Feito Pipa à maior premiação do cinema. “Nós estamos trabalhando numa campanha muito dedicada, muito séria, muito bem desenhada, (…) para poder manter a alegria, a satisfação que o brasileiro começou a ter nesses últimos anos. A gente teve a felicidade de Ainda Estou Aqui ganhar Melhor Filme Internacional e O Agente Secreto ter sido indicado a tantos outros prêmios. O Brasil agora torce pelo cinema como torce pelo futebol, e a gente tem a responsabilidade de fazer bonito”, declara.
“Obviamente, é um grande desafio, nós estamos conscientes, mas a nossa equipe é muito batalhadora, muito otimista”, completa. “A gente quer que o público acolha o filme, quer estar perto de todo mundo, quer ouvir todo mundo e agradecer, seja público, imprensa, apoiador, patrocinador… Todo mundo que está com a gente de uma forma muito bonita, que tem sido [o nosso] oxigênio.”
ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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