
247 – O governador reeleito da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), defendeu que o futuro sucessor do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não precisa pertencer ao Partido dos Trabalhadores, desde que esteja comprometido com a continuidade do projeto político do atual governo. Em entrevista ao jornal O Globo, publicada nesta quarta-feira (4), o petista citou o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como exemplo de liderança de outra legenda que poderia participar desse processo de sucessão.
A posição de Jerônimo foi apresentada ao comentar a necessidade de renovação do PT depois da reeleição de Lula para um quarto mandato. O governador considera que o próximo governo terá um papel importante na formação de novas lideranças, embora avalie que ainda seja cedo para definir quem poderá representar o campo político governista nas eleições seguintes.
“O sucessor não precisa ser necessariamente do PT. Tem que ser de um campo que conduza o que fizemos até aqui, para que o Brasil continue em boas mãos”, afirmou.
Jerônimo ressaltou que Lula construiu sua trajetória política ao longo de vários anos e que novas lideranças também precisarão de oportunidades para adquirir projeção nacional. Nesse sentido, considera importante que possíveis sucessores ocupem posições relevantes na próxima administração federal.
Ao abordar a possibilidade de uma liderança de outra legenda assumir esse papel, mencionou a participação de Alckmin no governo e a necessidade de ampliar a articulação política no Congresso Nacional.
“O vice-presidente Geraldo Alckmin ajudou bastante e não é do PT”, declarou.
Para o governador, a capacidade de reunir diferentes partidos em torno de uma agenda comum deve prevalecer sobre a filiação partidária na discussão sucessória. Ele também destacou a importância de o PT se renovar sem excluir seus atuais quadros.
A avaliação foi apresentada em resposta às declarações do presidente nacional do PT, Edinho Silva, que defendeu mudanças profundas na legenda depois da vitória eleitoral. Jerônimo concordou com a necessidade de transformações e afirmou que a renovação também pode alcançar a estrutura do governo federal.
Nordeste cobra maior participação nas decisões do PT
O governador também reivindicou uma presença mais expressiva das lideranças nordestinas na direção nacional do PT e na composição do quarto governo Lula.
Reeleito no primeiro turno, Jerônimo destacou o peso político da região, que concentra os quatro governadores petistas eleitos em 2026. A Bahia, especificamente, garantiu aproximadamente seis milhões de votos ao presidente.
Segundo ele, esses resultados precisam ser considerados na organização política da legenda e na definição dos espaços de participação regional.
“O PT nacional precisa enxergar que são quatro governadores do partido, todos do Nordeste”, afirmou.
Jerônimo rejeitou, entretanto, a ideia de transformar os resultados eleitorais em uma cobrança proporcional por ministérios. Para ele, o reconhecimento da força regional deve ocorrer por meio de maior participação nas decisões estratégicas e na elaboração das políticas públicas.
O governador também defendeu que representantes nordestinos assumam responsabilidades na formulação de propostas nacionais de desenvolvimento, especialmente nas áreas de infraestrutura, investimentos e ciência.
“Não queremos ser só fonte de voto”, declarou.
Jerônimo observou que a estrutura nacional do PT ainda apresenta forte influência das lideranças paulistas, associada à origem histórica da sigla no movimento sindical do ABC. Embora reconheça essa trajetória, considera necessário adequar os espaços de decisão à distribuição atual das forças políticas do partido.
O governador afirmou esperar que essa reivindicação não provoque disputas entre os grupos nordestinos e do Sudeste durante a formação do novo governo.
Governador critica pressão do mercado sobre Lula
Jerônimo também questionou as cobranças do mercado financeiro para que Lula anuncie rapidamente o futuro ministro da Fazenda.
Na avaliação do governador, os agentes financeiros haviam trabalhado com a expectativa de vitória de Flávio Bolsonaro na eleição presidencial e passaram a pressionar o presidente reeleito depois da confirmação do resultado das urnas.
“É legítimo cobrar, mas não forçar”, afirmou.
Ele defendeu que Lula tenha liberdade e tempo suficiente para escolher os integrantes de sua equipe econômica, sem se submeter a pressões que possam comprometer a formação do governo.
Jerônimo também argumentou que a experiência administrativa do presidente demonstra capacidade de conduzir mudanças sem rupturas bruscas na orientação econômica.
Para o petista, o futuro líder do campo governista deverá saber ouvir tanto as reivindicações populares quanto as demandas do setor financeiro, preservando a autonomia necessária para tomar decisões.
Lula terá desafio de unificar o país, avalia Jerônimo
Outro tema abordado na entrevista foi a necessidade de diminuir as divisões políticas depois da eleição presidencial.
Jerônimo afirmou que Lula deverá procurar uma maior aproximação com diferentes segmentos da sociedade, levando em consideração as reivindicações apresentadas durante a campanha.
“O Lula tem um desafio grande, porque precisa unificar o país”, declarou.
O governador avaliou que as manifestações populares durante o período eleitoral expressaram preocupações relacionadas não apenas à possibilidade de retorno da família Bolsonaro à Presidência, mas também à preservação de direitos sociais.
Ele defendeu que o governo responda às demandas econômicas e sociais sem prolongar os conflitos da campanha.
Jerônimo citou ainda a divisão observada entre eleitores evangélicos e famílias com diferentes preferências partidárias. Segundo o governador, as divergências eleitorais não deveriam comprometer as relações pessoais e religiosas.
Disputa na Bahia e investigação sobre transporte em Salvador
O governador também comentou o comportamento dos eleitores baianos que votaram em Lula para presidente, mas escolheram seu adversário, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, na disputa estadual.
Jerônimo atribuiu parte desse resultado à tentativa do opositor de associar sua candidatura à popularidade de Lula na Bahia, além das particularidades das disputas políticas locais.
Questionado sobre possíveis irregularidades no transporte coletivo de Salvador durante o segundo turno, afirmou que a Polícia Federal abriu uma investigação sobre o episódio.
O governador mencionou uma reforma realizada na principal estação de transbordo da capital baiana no dia da votação e folgas concedidas a motoristas de ônibus. Ele levantou suspeitas sobre as circunstâncias dessas medidas, mas reconheceu que a apuração cabe à Justiça. A existência de uma ação deliberada para prejudicar eleitores não foi demonstrada pelas informações apresentadas na entrevista.
Jerônimo também foi questionado sobre a investigação envolvendo o senador reeleito Jaques Wagner (PT-BA) no caso Master.
O governador defendeu que as apurações prossigam, ao mesmo tempo que ressaltou a trajetória política do aliado.
“Tudo tem que ser investigado. Nunca abrimos mão disso”, afirmou.
Segurança pública e combate ao crime organizado
Na área de segurança pública, Jerônimo defendeu punições mais rigorosas para integrantes de organizações criminosas, combinadas com políticas sociais e ações de ressocialização.
“O crime organizado comete barbárie e precisa de uma lei mais severa”, declarou.
A posição foi apresentada ao comentar o endurecimento do discurso do governo federal sobre a criminalidade e a aprovação da PEC da Segurança pelo Congresso Nacional.
O governador afirmou que o enfrentamento às organizações criminosas exige uma combinação de atuação policial, legislação adequada e medidas de inclusão social.
Questionado sobre os elevados índices de letalidade policial na Bahia, Jerônimo destacou iniciativas adotadas por sua administração e afirmou que houve redução dos indicadores de mortes violentas nos últimos dois anos.
Segundo ele, o governo estadual ampliou as prisões e apreensões de drogas e armas, contratou quase 12 mil policiais e adquiriu câmeras corporais e equipamentos de reconhecimento facial.
Jerônimo também manifestou a expectativa de que os indicadores de segurança pública apresentem novos avanços ao longo dos próximos quatro anos de governo.
https://www.brasil247.com/brasil/jeronimo-rodrigues-afirma-que-sucessor-de-lula-nao-precisa-necessariamente-ser-do-pt/
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