
Seis meses depois de as preferências tarifárias do acordo entre Mercosul e União Europeia começarem a valer, em 1º de maio de 2026, o governo publicou o primeiro balanço com números. Entre maio e setembro, as vendas brasileiras de produtos que ganharam tarifa reduzida ou zerada no bloco europeu cresceram 21% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). No recorte do agronegócio, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) contabilizou US$ 12,21 bilhões embarcados para os 27 países da UE, alta de 14,8%.
Os dois números medem coisas diferentes, e a distinção importa. Os 21% do MDIC se referem apenas às mercadorias contempladas com preferência tarifária. Os 14,8% do Mapa cobrem todo o agro vendido à Europa, com ou sem desconto. Não se trata, portanto, de um salto de 21% em tudo o que o Brasil exporta para a UE, como parte das manchetes do fim de semana deu a entender.
Abacate, mel e transformadores puxam a fila
As maiores variações aparecem em produtos de base pequena, que encontraram espaço quando a tarifa caiu. O MDIC lista o abacate fresco (+421%), o mel (+367%) e o óleo de milho (+266%) no topo. Na indústria, o ferrossilício-manganês subiu 173%, o alumínio em bruto 107% e os óleos combustíveis 102%. O etanol avançou 95,2%, o óleo essencial de laranja 75,8% e a maçã fresca 29%.
O caso mais curioso é o dos transformadores elétricos: entre maio e setembro de 2025, o Brasil não havia exportado nada desse item para a UE. No mesmo intervalo de 2026, foram US$ 39 milhões. É um sinal de que o acordo não abre portas só para commodities agrícolas, mas também para bens industriais com tecnologia embarcada.
No agro, o Mapa destaca ainda as carnes, que mais que dobraram em valor (+103,5%), e o complexo soja (+34,2%). O saldo comercial do agronegócio com o bloco passou de US$ 9,01 bilhões para US$ 10,54 bilhões. As importações agrícolas vindas da Europa cresceram bem menos, 3,3%, para US$ 1,67 bilhão.
O Sul tem produto na vitrine
Vários itens da lista têm forte presença no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná: maçã, mel, carnes e soja, além de equipamentos elétricos. Para quem produz no Sul, o recado é que a preferência já está gerando pedido, e não apenas expectativa. Ao mesmo tempo, o bom desempenho de setembro, quando a Europa já tinha liderado o crescimento das exportações brasileiras, ajudou a compensar a perda de espaço nos Estados Unidos, onde a sobretaxa de 37,5% continua em vigor.
Vale lembrar que a desgravação não é igual para todos. Parte das linhas teve a tarifa zerada logo na entrada em vigor; outras seguem um cronograma de redução ao longo dos próximos anos, e alguns produtos sensíveis, como carnes, açúcar, etanol, arroz e mel, entram na Europa por meio de cotas. O que o exportador ganha hoje depende da linha tarifária exata do seu produto, como já mostramos ao analisar os mais de 5 mil produtos com tarifa zero no mercado europeu.
A preferência só vale com a origem em ordem
O desconto tarifário não é automático. Para que o importador europeu pague a alíquota reduzida, a mercadoria precisa cumprir as regras de origem do acordo e vir acompanhada da prova de origem exigida. Um erro nessa etapa faz o cliente pagar a tarifa cheia na alfândega europeia, o que costuma voltar como renegociação de preço ou perda de pedido. O MDIC mantém no Portal Siscomex a página do acordo, com o manual de regras de origem e os cronogramas de desgravação.
Para quem ainda não exporta para a Europa, o momento é bom para mapear a classificação fiscal dos produtos, conferir em que cesta de desgravação cada um está e se a regra de origem é atendida com os insumos usados hoje, sobretudo quando há componentes importados de fora do bloco. Quem já vende para o bloco deve revisar se os clientes estão de fato aproveitando a preferência.
O acordo com a UE se soma ao acordo Mercosul-EFTA, cujas preferências com a Noruega começaram a valer em 1º de novembro, com cotas que já podem ser pedidas no Siscomex. O próximo balanço mensal da balança comercial vai mostrar se o ritmo europeu se mantém no quarto trimestre. A equipe da Efficienza pode ajudar a checar a origem e o enquadramento tarifário de cada produto antes do próximo embarque.
Fonte: MDIC, 29/10/2026; Mapa, 01/11/2026; Portal Siscomex – Acordo Mercosul-União Europeia.
Autor: Redação Efficienza
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