
O governador reeleito de São Paulo, o reacionário Tarcísio de Freitas (Republicanos), procura se apresentar como uma das principais figuras da reorganização da direita após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio (PT) na farsa eleitoral. Em entrevista concedida ao monopólio de imprensa Estadão, em 28 de outubro, Tarcísio defendeu o reconhecimento do resultado das urnas, justificou a saída de “Rachadinha” do Brasil e admitiu publicamente a possibilidade de disputar a Presidência da República em 2030. As declarações evidenciam as contradições que atravessam a direita e extrema direita brasileiras após o pleito. Enquanto setores interessados em uma oposição institucionalmente mais disciplinada procuram se diferenciar das aventuras políticas do clã Bolsonaro, a força eleitoral e parlamentar do bolsonarismo, renovada pelas eleições, continua impondo limites às tentativas de construção de uma liderança independente.
A entrevista ocorreu em meio à crise provocada pela reação de Flávio Bolsonaro à derrota eleitoral. Após perder o segundo turno para Luiz Inácio, por 51,78% a 48,22% dos votos válidos, o senador “Rachadinha” fugiu do Brasil rumo ao país Estados Unidos (EUA), depois de receber uma ordem judicial do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes. Já no exterior, divulgou uma carta na qual se apresentou como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil” e acusou, sem apresentar provas, a existência de uma “fraude eleitoral”. Posteriormente, o texto foi alterado, substituindo a autoproclamação pela expressão “líder” do Brasil. A sucessão de episódios, que inclui a saída do país enquanto Flávio é investigado pela Polícia Federal, criou novos constrangimentos para os aliados do clã e abriu espaço para divergências sobre os rumos da oposição ao governo da falsa esquerda.
Defende Flávio e disputa espaço no bolsonarismo
Tarcísio procurou se afastar da contestação aberta do resultado eleitoral sem, contudo, abandonar a defesa política do senador. “A eleição passou. A eleição passou”, repetiu durante a entrevista, antes de afirmar que “não cabe contestar o resultado das urnas” e que a oposição deveria atuar dentro das instituições. O reconhecimento da derrota não impediu Tarcísio de questionar a atuação do Judiciário diante de programas anunciados pelo governo oportunista às vésperas da votação: “Será que houve uma leniência, uma conivência do Judiciário?”, indagou. Ao mesmo tempo, classificou a determinação judicial de Moraes como uma intimidação e justificou a covarde fuga de Flávio ao EUA como uma medida de “preservação própria, preservação da família”, diante de uma suposta perseguição judicial.
O governador revelou ainda que ele próprio, os advogados de “Rachadinha” e o senador e coordenador da campanha Rogério Marinho (PL-RN) haviam aconselhado o candidato derrotado a permanecer no Brasil. Segundo Tarcísio, a orientação incluía abandonar a retórica de não reconhecimento das eleições e recorrer aos instrumentos jurídicos disponíveis para pedir a cassação da chapa vencedora por suposto abuso de poder político e econômico, acusação que o próprio governador disse endossar. “Será que houve uma leniência, uma conivência do Judiciário?”, indagou. A posição expõe a tentativa de conter os efeitos políticos da radicalização do clã sem romper com a cantilena de perseguição.
A contradição tornou-se ainda mais evidente quando os jornalistas do Estadão perguntaram se, com Jair Bolsonaro em prisão domiciliar e Flávio e Eduardo Bolsonaro fora do país, não havia chegado a hora de Tarcísio trilhar um caminho independente do bolsonarismo. O governador respondeu exaltando a importância do ex-presidente capitão-do-mato. “Bolsonaro é uma figura importante pra direita brasileira, criou um grande movimento”, afirmou, acrescentando que esse movimento possui atualmente “força e luz próprias”. Questionado novamente sobre a possibilidade de uma direita menos dependente do clã Bolsonaro, reconheceu que não se pode desconsiderar o eleitorado mobilizado pelo bolsonarismo, mas fez uma ressalva significativa: “Obviamente respeito não significa submissão. São coisas absolutamente diferentes”. A frase sintetiza a tensão que atravessa sua posição política. Tarcísio reivindica autonomia para disputar os rumos da direita, mas reconhece que não pode simplesmente ignorar a base eleitoral construída em torno de Jair Bolsonaro.
Essa dependência constitui um dos principais obstáculos à formação de uma liderança independente do clã. Embora Flávio tenha sido derrotado na disputa presidencial, sua votação expressiva, somada à ampliação da bancada do PL no Congresso de corruptos e à eleição de governadores bolsonaristas, reforçou a hegemonia do clã sobre esse campo. O próprio Tarcísio fez questão de destacar a composição do Congresso e o resultado das eleições estaduais como demonstrações de que a direita permanece fortalecida. Ronaldo Caiado e Romeu Zema, que haviam disputado com Flávio o mesmo eleitorado no primeiro turno, regressaram ao palanque do clã no segundo. Ao mesmo tempo, a fuga de Flávio e sua tentativa de se proclamar vencedor podem estimular pugnas internas pela representação desse eleitorado, inclusive entre setores que até agora permaneceram subordinados à autoridade política de Jair Bolsonaro. Nessa disputa pela direção dessa base, Tarcísio procura conquistar maior margem de manobra, ainda sem condições para um voo independente do clã..
São Paulo como trampolim para 2030
Não é casual que essa movimentação tenha como protagonista o governador de São Paulo, principal centro econômico e financeiro do país, onde se concentram importantes frações do grande empresariado, do capital financeiro e dos monopólios de imprensa. Reeleito para um segundo mandato, Tarcísio ocupa posição privilegiada para articular setores interessados na continuidade da agenda econômica da extrema direita, mas que podem considerar inconvenientes os riscos institucionais associados às iniciativas mais extremadas do clã Bolsonaro.
A entrevista concedida ao Estadão, com amplo espaço para discutir seu programa e suas perspectivas nacionais, ocorre nesse contexto de projeção política. Perguntado sobre uma candidatura presidencial em 2030, o governador não descartou a hipótese. “2030 é outra conversa”, respondeu, acrescentando que concluir bem o segundo mandato paulista “obviamente abre uma possibilidade”. Porém, fez questão de afirmar que uma decisão dessa natureza seria avaliada “em grupo”, indicando que sua eventual candidatura dependeria de uma composição política mais ampla.
O ‘moderado’ defende o arrocho fiscal
As diferenças de postura entre Tarcísio e Flávio também não representam uma divergência sobre o programa econômico a ser aplicado no país. Na mesma entrevista, o governador defendeu um amplo ajuste fiscal, a revisão das vinculações orçamentárias e a adoção de medidas de “desinvestimento, desalavancagem, desindexação”. O governador citou Pedro Malan, Mansueto Almeida e Armínio Fraga entre os economistas burgueses que conhecem o “receituário” do ajuste fiscal, questionando se o PT estaria disposto a adotá-lo.
Ao discutir a possibilidade de rever os reajustes das aposentadorias e do salário mínimo, afirmou que se trata de “uma coisa para ser estudada”. Também reivindicou uma reforma que ampliasse a liberdade do governo federal para distribuir os recursos do orçamento, inclusive ao tratar das despesas com saúde e educação. Trata-se de uma agenda que encontra correspondência nas reivindicações de setores do mercado financeiro e do grande empresariado, interessados no mantra da contenção dos gastos públicos e flexibilização de compromissos orçamentários. A imagem de um “bolsonarista moderado”, portanto, não oculta a continuidade de propostas econômicas que podem atingir diretamente direitos e serviços utilizados pelas massas populares.
Mais repressão e novas funções para a caserna
Na pasta da segurança pública, a entrevista também revelou posições que aproximam Tarcísio das propostas de endurecimento repressivo defendidas pelo bolsonarismo – e parcialmente acatadas até mesmo pela falsa esquerda. O governador declarou ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos em todos os crimes e admitiu apoiar a proposta de Flávio de reduzi-la para 14 anos nos casos de crimes hediondos. Mais significativa ainda foi sua defesa de uma participação ampliada das Forças Armadas reacionárias em meio à propalada “crise da segurança pública”, para além das operações tradicionais de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).
Egresso da Academia Militar das Agulhas Negras e ligado à formação política e militar de Jair Bolsonaro, Tarcísio revelou já ter conversado com integrantes das Forças Armadas sobre o assunto. “Eu acho que tá na hora das Forças Armadas se engajarem de fato na segurança pública”, declarou, defendendo maior integração da inteligência militar com as polícias estaduais e o Ministério Público. Sobre a proposta de Flávio de ampliar o emprego dos militares nessa área, foi categórico: “Eu faria a mesma coisa”. O emprego pretendido incluiria atividades de inteligência e cooperação com as polícias estaduais, o Ministério Público e as forças de repressão dos países vizinhos. Tarcísio também apontou os adidos militares brasileiros no exterior como facilitadores de ações de inteligência, localização e captura de integrantes de “organizações criminosas”. Rejeitou a GLO como “receita” para essa atuação e cobrou mais investimentos nas Forças Armadas reacionárias.
Essa proposta converge com o ajuste tático do Alto Comando das Forças Armadas (ACFA). Em 29 de julho de 2026, o Estado–Maior do Exército já defendia que o combate à “criminalidade organizada” fosse permanente e articulado, em lugar de episódico. Sob esse pretexto, os altos mandos militares anseiam ampliar sua presença na vida nacional e a guerra contrarrevolucionária contra o povo, sobretudo contra a luta camponesa. O governador “moderado” oferece uma via política para essa agenda. Essa via já avança sob Luiz Inácio, que, no “Dia do Soldado”, em 25 de agosto, também defendeu maiores investimentos nas Forças Armadas. Ao cobrar novas atribuições e recursos para a caserna, Tarcísio endossa uma política do velho Estado que tende a ser aprofundada já no governo oportunista reeleito, independentemente de suas ambições para 2030.
Na mesma entrevista, Tarcísio elogiou a atuação do comandante do Exército reacionário, general Tomás Paiva, e do ministro da Defesa, o bolsonarista José Múcio. A este atribuiu o mérito de “blindar um pouco a instituição militar da politização” (sic) e de preservá-la de “retaliações”. O governador classificou o papel de Múcio na “pacificação” dessas relações como fundamental.
Pugnas pelo comando sob a hegemonia bolsonarista
O conjunto das declarações ajuda a compreender a natureza das divergências que emergem na direita e extrema direita após as eleições. Tarcísio não propõe abandonar a agenda econômica, o endurecimento penal ou a ampliação da influência militar sobre a segurança pública. Sua principal diferenciação está na condução política da oposição, na defesa de uma atuação institucional e na tentativa de evitar que as iniciativas do clã comprometam os mandatos, as negociatas partidárias e os interesses dos setores que o apoiam. Mesmo quando reivindica o “respeito às urnas”, preserva a retórica de perseguição contra Flávio, critica a atuação do STF e defende a possibilidade legal de impeachment de seus ministros. Assim, a disputa não pode ser reduzida a uma oposição entre uma direita extremista e outra supostamente democrática ou moderada. O que se evidencia é uma divergência sobre os métodos mais adequados para preservar e ampliar a influência política de um campo que mantém importantes convergências programáticas.
A crise aberta pela derrota e pela covarde fuga de Flávio Bolsonaro do País acirra as pugnas pelo comando da direita, cuja base permanece hegemonizada pelo clã. Tarcísio procura se cacifar para 2030 como fiador de uma oposição menos temerária para os mandatos e negociatas de seus aliados, mas depende do prestígio eleitoral de Jair Bolsonaro. Enquanto perdurar a polarização com Luiz Inácio e o PT, os pretendentes à sucessão continuarão disputando a direção de um campo cuja hegemonia bolsonarista as eleições reforçaram e que serve à ofensiva da contrarrevolução e do imperialismo ianque.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
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