
247 – Uma onda de manifestações reuniu quase 500 mil pessoas em toda a França neste sábado (31), segundo estimativas de organizações estudantis e sindicatos. Os protestos, inicialmente convocados para denunciar a deterioração do sistema educacional, ganharam dimensão nacional e passaram a incorporar reivindicações contra o aumento do custo de vida e a precarização dos serviços públicos.
Uma coalizão de entidades juvenis contabilizou aproximadamente 200 mil participantes somente em Paris. Os números, porém, divergem das estimativas oficiais: o Ministério do Interior francês e a polícia registraram cerca de 320 mil manifestantes em todo o território nacional, dos quais 70 mil estavam na capital.
A mobilização teve origem entre estudantes do ensino médio, insatisfeitos com a queda da qualidade do ensino e as condições das escolas. Com a adesão de universitários e outros setores da sociedade, os atos passaram a expressar um descontentamento mais amplo com a situação econômica francesa e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Embora a maior parte das manifestações tenha ocorrido pacificamente, foram registrados confrontos em diferentes cidades. Jornalistas da agência AFP relataram episódios de violência em Toulouse, no sudoeste francês, e Marselha, no sudeste, além de distúrbios ao término da marcha realizada em Paris.
Governo mobiliza 70 mil militares diante de risco de confrontos
As autoridades francesas haviam preparado um esquema extraordinário de segurança para acompanhar as manifestações. Segundo as informações divulgadas, o governo mobilizou 70 mil militares diante da avaliação de que os protestos poderiam resultar em episódios de violência, depredação e saques.
Antes das mobilizações, o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou que o país contaria com um “dispositivo de segurança excepcional”. Ele também alertou para possibilidades “muito elevadas de perturbações da ordem pública”.
A preocupação das autoridades estava relacionada, entre outros fatores, à circulação de convocações para ações violentas nas redes sociais. Segundo Nuñez, esses chamados foram associados a grupos da esquerda radical e ao movimento dos Coletes Amarelos, conhecido pelas manifestações contra políticas governamentais na França.
O governo também demonstrou preocupação com a possibilidade de participantes utilizarem máscaras para dificultar a identificação de envolvidos em eventuais distúrbios.
Apesar das medidas preventivas e dos confrontos pontuais, as manifestações transcorreram, em sua maior parte, sem episódios de violência.
Estudantes convocam bloqueios de escolas e universidades
A mobilização deve continuar nos próximos dias. Ainda na manhã deste sábado, duas organizações estudantis anunciaram novas ações para pressionar o governo francês a promover mudanças no sistema educacional.
As entidades convocaram estudantes a bloquear escolas de ensino médio e universidades na terça-feira (3) e na quinta-feira (5), com o objetivo de ampliar a pressão por melhores condições de ensino e reformas na educação.
“Bloquearemos nossas universidades e escolas de ensino médio, antes de nos juntarmos à manifestação de 5 de novembro, convocada por trabalhadores e sindicatos”, declarou Sabrine Kharbach, porta-voz da Union Étudiante.
A convocação demonstra a intenção dos movimentos estudantis de manter a mobilização e aproximar suas reivindicações das pautas defendidas por trabalhadores e organizações sindicais.
Além das condições das instituições de ensino, os manifestantes questionam a capacidade do governo de responder às dificuldades enfrentadas pela população, especialmente em relação ao encarecimento de produtos e serviços.
Economia francesa registra retração no terceiro trimestre
O crescimento da insatisfação social ocorre em um cenário de dificuldades econômicas. O Produto Interno Bruto (PIB) da França recuou 0,1% no terceiro trimestre de 2026, contrariando as projeções de analistas consultados pela agência Reuters, que esperavam uma expansão de 0,1%.
O resultado reforça as preocupações com o desempenho da economia francesa em um momento de pressão sobre o poder de compra da população e de cobranças por melhorias nos serviços públicos.
Nesse contexto, as reivindicações inicialmente concentradas na educação passaram a reunir diferentes demandas sociais. A insatisfação com os preços e com a qualidade dos serviços públicos contribuiu para ampliar o alcance dos protestos para além das instituições de ensino.
Alemanha também registra manifestações lideradas por jovens
A mobilização francesa ocorreu simultaneamente a protestos organizados em dezenas de cidades alemãs. Na Alemanha, os atos também foram liderados por jovens que reivindicam melhorias na educação e medidas para enfrentar o aumento do custo de vida.
As manifestações foram convocadas pelo movimento “Geração Z assume o comando”, que programou atividades em 34 cidades, incluindo Berlim, Frankfurt e Munique.
Entre as principais reivindicações do grupo estão a ampliação dos investimentos educacionais e a oposição ao serviço militar obrigatório. Os organizadores argumentam que as dificuldades econômicas enfrentadas pela juventude exigem maior atenção das autoridades.
A participação, entretanto, ficou abaixo das expectativas iniciais. Os organizadores projetavam a presença de até 182 mil pessoas em todo o país, mas os dados oficiais divulgados durante a tarde indicaram um comparecimento inferior.
Nas cidades de Frankfurt, Munique e Berlim, as autoridades policiais estimaram aproximadamente 18 mil participantes, metade dos cerca de 36 mil previstos pelos organizadores para essas localidades.
As manifestações alemãs coincidiram com as comemorações de Halloween e ocorreram, em sua maioria, de maneira pacífica. As autoridades, contudo, alertaram para tentativas de grupos extremistas de se aproveitar das mobilizações.
Os protestos na França e na Alemanha integram uma série de manifestações protagonizadas por jovens da geração Z em diferentes países europeus ao longo de 2026. Na Sérvia, por exemplo, a mobilização estudantil teve papel importante na derrota eleitoral de um líder que permanecia havia muitos anos no poder.
https://www.brasil247.com/mundo/protestos-na-franca-reunem-quase-meio-milhao-dizem-organizadores/
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