

Abóboras iluminadas, fantasias e crianças percorrendo as ruas em busca de doces. Quando pensamos no Halloween, essas imagens parecem quase universais. Mas boa parte desse imaginário, que hoje está presente em celebrações de diferentes países, também foi construída e popularizada pelo cinema.
A relação é antiga e funciona em duas direções. Se o folclore, as lendas sobrenaturais e as histórias de criaturas misteriosas serviram de inspiração para os primeiros filmes de terror, Hollywood também teve um papel importante na maneira como o mundo passou a enxergar o Dia das Bruxas.
Desde os primeiros experimentos cinematográficos com bruxas e demônios até as grandes produções que transformaram o terror em um dos gêneros mais populares do entretenimento, o cinema ajudou a estabelecer símbolos que hoje parecem inseparáveis da celebração.
Dos monstros clássicos às fantasias de Halloween

Em 1896, o francês Georges Méliès lançou “Le Manoir du Diable”, considerado um dos primeiros filmes de terror da história. A produção explorava elementos sobrenaturais, transformações e aparições demoníacas, utilizando truques visuais para criar imagens que impressionavam o público da época.
Nas décadas seguintes, o gênero ganhou força, especialmente com a consolidação dos monstros clássicos de Hollywood. Produções como “Drácula” (1931), com Bela Lugosi, e “Frankenstein” (1931), com Boris Karloff, ajudaram a estabelecer a aparência de personagens que atravessariam gerações.
A capa do vampiro, o rosto quadrado da criatura , os lobisomens e as bruxas deixaram de ser apenas figuras das histórias de terror e passaram a integrar o imaginário popular.
Essa transformação também chegou às ruas. As criaturas eternizadas pelo cinema se tornaram referências para fantasias de Halloween, ajudando a definir o que crianças e adultos escolheriam vestir durante a celebração.
Embora o Halloween tenha origens muito anteriores ao cinema, associadas a antigas tradições europeias, foi principalmente a cultura popular americana que consolidou a versão comercial e visualmente reconhecida da festa.
Nesse processo, os filmes e programas de televisão tiveram papel importante. As produções passaram a apresentar famílias decorando suas casas, crianças fantasiadas percorrendo os bairros e vizinhos distribuindo doces durante a noite de 31 de outubro.
O mesmo aconteceu com elementos como as abóboras iluminadas, os esqueletos, as casas mal-assombradas e as fantasias. O cinema não inventou esses símbolos, mas ajudou a transformá-los em referências reconhecidas por públicos de diferentes culturas.
Quando o próprio Halloween virou cenário de terror

Se os primeiros filmes ajudaram a popularizar os monstros, uma produção de 1978 levou a relação entre a data e o cinema de terror a outro patamar.
Dirigido por John Carpenter, “Halloween: A Noite do Terror” transformou a noite de 31 de outubro no cenário de uma história sobre um assassino mascarado que aterroriza uma pequena comunidade americana.
Com orçamento estimado em apenas US$ 300 mil, o longa arrecadou mais de US$ 70 milhões mundialmente, tornando-se um dos grandes exemplos de como uma produção independente poderia alcançar enorme sucesso comercial.
O filme também ajudou a consolidar características do subgênero slasher, como o assassino implacável e mascarado, a perseguição a jovens e a chamada “final girl“, expressão utilizada para identificar a personagem feminina que sobrevive ao confronto final.
Com isso, o próprio nome passou a ser associado não apenas à celebração, mas também a uma das franquias mais conhecidas do gênero, e marcando uma fórmula muito conhecida que foi repetida em “Sexta–Feira 13” e “Brinquedo Assassino”.
A influência do cinema sobre a celebração não ficou restrita às histórias violentas e assustadoras. A partir dos anos 1990, produções que misturavam fantasia, comédia e elementos sobrenaturais ajudaram a apresentar o Halloween a um público ainda maior.
É o caso de “Abracadabra”, que acompanha três bruxas ressuscitadas em Salem, nos Estados Unidos, e de “O Estranho Mundo de Jack”, animação em stop-motion que apresenta um universo inteiramente inspirado nas celebrações de Halloween e Natal.
Essas produções ajudaram a consolidar uma outra face da data: a possibilidade de brincar com o medo, explorar a criatividade e transformar o sobrenatural em entretenimento para diferentes idades.
Uma relação que atravessou gerações

Mais de um século depois dos primeiros filmes de terror, Halloween e cinema continuam profundamente conectados. A celebração fornece histórias, personagens e atmosferas para novas produções, enquanto a indústria audiovisual mantém vivos e renova os símbolos que fazem parte do imaginário da data.
Se no passado o medo era representado principalmente por monstros, o terror contemporâneo passou a explorar também aquilo que assombra as pessoas por dentro. Filmes como “Hereditário” e “Midsommar” são exemplos de uma vertente que ficou conhecida como pós-terror, marcada por histórias que utilizam o sobrenatural como metáfora para temas como luto, traumas familiares e sofrimento psicológico.
Mais recentemente, o gênero também tem resgatado o horror visceral, com produções como “Terrifier”, ao mesmo tempo que explora novos medos relacionados à tecnologia e à internet. É o caso do chamado “analog horror“, que utiliza imagens antigas e uma estética de transmissões perdidas para criar tensão, como acontece nas histórias de “Backrooms”.
Essa diversidade mostra que o terror continua acompanhando as transformações da sociedade. No fim das contas, talvez uma das maiores contribuições do cinema para o Halloween tenha sido justamente essa: fazer com que pessoas de diferentes partes do mundo reconheçam a mesma imagem quando pensam na noite mais assustadora do ano, mesmo que nunca tenham participado de uma celebração tradicional de 31 de outubro.
https://www.folhavitoria.com.br/cultura/filmes/como-hollywood-ajudou-a-transformar-o-halloween-em-um-fenomeno-mundial/
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