

No início de setembro, uma publicação no Instagram anunciou a abertura de um novo posto de gasolina no Tatuapé, zona leste de São Paulo, com uma promoção chamativa: quem abastecesse 35 litros ou mais receberia uma peça de picanha.
O vídeo promocional tinha como protagonista o ex-jogador Vampeta, embaixador da rede de postos Pitstop. “Tá maluco. Dia 4 de setembro, Pitstop Munique, no bairro Tatuapé. Você acha que não vou estar? Vou estar lá na festa, conto com vocês”, dizia o volante pentacampeão do mundo com a Seleção Brasileira e ídolo do Corinthians. Um ano antes, o posto Munique ainda se chamava Auto Posto Rei do Tatuapé e foi um dos alvos da Operação Tank, da Polícia Federal (PF), deflagrada no mesmo dia da Carbono Oculto, do Ministério Público de São Paulo (MPSP).
De acordo com a investigação da PF, o estabelecimento fazia parte de um grupo de postos acusado de adulterar combustíveis e era utilizado para reuniões dos operadores do esquema. Em março deste ano, Flávio Cava, dono da rede Pitstop, assumiu o local.
Na avaliação de Cava, as operações Carbono Oculto e Tank encerraram a trajetória dos envolvidos, mas trouxeram benefícios para os demais empresários do setor.
“Para mim, a Carbono Oculto foi muito boa. Muita gente que era picareta perdeu o ponto, daí o proprietário do terreno fica sem locador e começa a procurar outras pessoas do mercado”, afirma Cava, que trabalha há 20 anos com combustíveis e costuma assumir postos com problemas financeiros ou judiciais.
POSTOS ABERTOS
Um ano depois da Carbono Oculto, 14 dos 25 postos ligados aos alvos da investigação visitados pela equipe permanecem abertos. Veja no mapa onde ficam:
DINHEIRINHO?
Um ano após a Operação Carbono Oculto, a visita a 25 postos de gasolina ligados aos investigados constatou que 14 continuam funcionando de forma irregular. Os estabelecimentos aparecem como desativados nos registros da Agência Nacional do Petróleo (ANP), embora estejam de portas abertas.
Em um deles, na zona sul de São Paulo, o tanque foi abastecido duas vezes. Nas duas ocasiões, funcionários informaram que o estabelecimento só aceitava dinheiro. “Dinheirinho? A maquininha está sem sistema”, afirmou uma frentista.
No sistema da ANP, o posto está registrado como bandeira branca, isto é, sem contrato de exclusividade com uma grande distribuidora. A autorização para funcionar está revogada desde março de 2025.
Mesmo aberto ao público, o local atua clandestinamente por não cumprir as exigências da agência reguladora. Quem para na frente do posto para abastecer, porém, não percebe a irregularidade.
Entre os principais motivos para a ANP aplicar sanções estão a venda de combustível sem autorização, o descumprimento de normas de segurança, a comercialização ou o armazenamento de gasolina adulterada ou fora das especificações e o fornecimento de volume diferente do indicado na bomba.
Os alvos da Carbono Oculto e da Tank foram flagrados cometendo várias dessas irregularidades e muitos postos acabaram suspensos. Ainda assim, um ano depois, mais da metade dos estabelecimentos visitados pela equipe funcionava normalmente.
GOLPES EM CADEIA
Veja as principais fraudes atribuídas aos alvos da Carbono Oculto e como elas prejudicam consumidores e o poder público.
SETOR ERA UMA “VERGONHA”
“A situação do setor de combustível era uma vergonha para o Estado brasileiro. E as pessoas aceitavam como se fosse algo da vida, que não tinha jeito”, afirmou o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas.
Na primeira fase da Carbono Oculto, em agosto do ano passado, a Receita Federal informou que cerca de mil postos de gasolina em dez estados brasileiros serviam a um megaesquema de lavagem de dinheiro ligado ao crime organizado, comandado por Primo e Beto Louco.
Barreirinhas diz que, antes da operação, a clandestinidade predominava no setor. “A ANP já havia cancelado o registro de mais de 10 mil postos de gasolina. Só que eles continuavam a funcionar ilegalmente”, declarou. Diante desse quadro, a Receita Federal começou a cancelar os CNPJs dos estabelecimentos.
“Começamos a estrangular e asfixiar a lavagem de dinheiro, que é a lógica de financiamento do crime organizado. Fechamos a porta de entrada desses recursos oriundos do crime”, explicou o secretário da Receita Federal.
Para Emerson Kapaz, presidente do Instituto Combustível Legal (ICL), a lavagem de dinheiro do tráfico no setor de combustíveis deixou o Brasil perto de se tornar um narcoestado.
“Nós estávamos muito próximos de um ponto sem retorno. O ICL foi o primeiro a botar a boca no trombone e dizer o seguinte: o crime organizado está tomando conta de 20 setores da economia, o de combustíveis é o maior de todos. Ou a gente faz alguma coisa ou vamos virar o México. Começamos a colocar as linhas do que estava acontecendo, a procurar o Ministério Público”, declarou Emerson Kapaz.
PEDRO FURTADO E A FAMÍLIA MOURAD
Entre os postos em situação irregular visitados está um endereço em Praia Grande, no litoral sul paulista. No local, o pagamento também é aceito apenas em dinheiro ou Pix. A nota fiscal fornecida pelo frentista indica que o estabelecimento pertence a Pedro Furtado Gouveia Neto, representante da GGX Global Participações S.A.
Segundo a investigação do MPSP, a empresa é a holding central do braço patrimonial da organização liderada por Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, principais alvos da Carbono Oculto.
O MPSP identificou mais de 100 postos vinculados à GGX ou registrados em nome de Furtado. Além do estabelecimento em Praia Grande, foram visitados outros dois postos atribuídos ao acusado que seguem em operação: um em Campinas e outro em Catanduva, no interior paulista.
A ANP revogou em 2025 a autorização dos três estabelecimentos. A junta comercial paulista aponta que eles têm pendências judiciais relacionadas à Carbono Oculto.
“Operar fora das condições legais compromete a transparência e a confiança que devem existir nessa relação. Fato é que, se não tem autorização para vender, tem alguma coisa errada. Pode estar associado a fraudes de qualidade, quantidade, propaganda enganosa, ou até mesmo ser um braço do crime organizado”, alerta Kapaz.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirma que o combate às fraudes no setor busca, além de asfixiar financeiramente as facções, proteger o consumidor e os empresários que pagam os impostos regularmente, garantindo a concorrência leal.
“Nossa resposta foi transformar a investigação em ação permanente. Não tratamos a Carbono Oculto como uma operação isolada. A partir dela, aprofundamos a integração entre segurança pública, inteligência financeira, fiscalização tributária e recuperação do patrimônio”, afirma Tarcísio.
Embora Pedro Furtado apareça como representante da GGX, quem comandava a empresa era Himad Abdallah Mourad, primo de Mohamad Hussein Mourad, o Primo. Para o MPSP, Himad criava empresas, operava fundos de investimento e movimentava recursos por meio do BK Bank, principal canal de lavagem de dinheiro da organização criminosa.
O AGREGADO
Outro integrante do círculo de confiança de Primo era Tharek Majide Bannout, considerado uma espécie de “agregado” do clã. A irmã de Tharek é casada com um advogado que é primo de Mohamad Mourad.
O MPSP acusou Tharek de integrar o esquema de ocultação de bens, blindagem patrimonial e lavagem de dinheiro da organização. Entre 2023 e 2024, ele passou a fazer parte do quadro societário de pelo menos sete postos de combustíveis em São Paulo.
Ele também foi sócio de uma empresa de fachada que, segundo as investigações, Primo usou para ocultar a frota de veículos empregada nas atividades das usinas do Grupo Itajobi, inclusive no transporte de cana-de-açúcar e etanol.
A proximidade de Tharek com o PCC aparece quando ele compra postos de uma empresa ligada a Renan Cepeda Gonçalves, da família apontada como proprietária da rede Boxter, também alvo da Carbono Oculto. Cepeda Gonçalves já havia sido citado na Operação Rei do Crime, de 2020, quando a PF investigou relações entre empresários e o PCC.
Um dos postos da rede Boxter em Guarujá, na Baixada Santista, foi visitado. Apesar de haver uma restrição no sistema da ANP por problema de qualidade do combustível, o estabelecimento continuava aberto e atraía consumidores.
AS PADARIAS
Tharek teve papel relevante na ampliação da “face legítima” dos negócios da organização de Primo e Beto Louco. Além de se tornar sócio de postos, também ingressou no ramo de panificação.
Em janeiro de 2022, o grupo comprou, em nome de uma laranja que mora em Sergipe, a Iracema, padaria com 35 anos de história na região central de São Paulo. O estabelecimento fica em uma área boêmia da cidade e funciona 24 horas por dia.
No ano seguinte, outro CNPJ foi aberto no mesmo endereço, com o nome de Nova Iracema e capital social vinte vezes maior que o da empresa original. Esse tipo de mecanismo facilita o registro, em nome dos proprietários, de imóveis e aportes financeiros obtidos por meio de atividades clandestinas.
Dias depois da Carbono Oculto, Tharek entrou no quadro societário das duas “Iracemas” e deixou uma delas cinco meses após a operação. Ele continua como único sócio da outra. Para quem visita o estabelecimento, não é evidente que ali funcionam dois negócios diferentes.
No local, foram comprados cafezinhos no débito e no crédito: em cada nota fiscal solicitada aparecia um CNPJ distinto. Um mês depois, uma nova visita à padaria revelou um terceiro CNPJ. Conhecidas como “empresas-espelho”, essas estruturas duplicadas — ou, neste caso, triplicadas — costumam servir para lavar dinheiro de atividades ilícitas e sonegar impostos. Quando uma empresa acumula débitos tributários, o faturamento é transferido para outra “limpa”, que funciona no mesmo balcão.
O MPSP apontou que o grupo de Mourad usou a mesma estratégia de duplicidade na padaria Salamanca, na zona sul paulistana, e em lojas de conveniência da rede Aster. Segundo os investigadores, o método também permite esconder o beneficiário final e proteger o patrimônio, repartindo um único negócio em dezenas de camadas societárias.
Apesar de ser dono de 14 empresas, entre elas padarias, postos e uma holding, Tharek recebeu o auxílio emergencial do governo por seis meses durante a pandemia.
O QUÍMICO E O “CHUCRO”
Embora o MPSP aponte Beto Louco como um dos líderes de toda a trama, ele foi denunciado por um crime específico: o desvio de metanol.
Apresentada em 26 de agosto de 2026, a denúncia retoma descobertas da Carbono Oculto e da Operação Boyle, da PF. Os investigadores afirmam que as empresas Aster Petróleo, Copape e Duvale Distribuidora foram usadas por Beto Louco para comprar metanol, adulterar gasolina, álcool e diesel e lavar os lucros obtidos.
De acordo com o MP, a compra da formuladora Copape, em 2020, aproximou Beto Louco e Primo, que até então era um “chucrão”, como o descreveu um investigador.
Beto Louco tinha amplo conhecimento de misturas de solventes e outros produtos químicos usados para adulterar combustíveis, além de experiência com fundos de investimento para estruturar, blindar e esconder negócios ilícitos. Primo, por sua vez, vinha do setor de postos de bandeira branca.
A dupla comprou a Copape por meio do Location, fundo de investimentos administrado pela Reag. A sociedade deu início a um esquema que se tornou mais sofisticado com o passar dos anos.
Investigadores dizem que o beneficiário do Location é Renato Steinle de Camargo, apontado como “testa de ferro” do grupo Mourad na Operação Cassiopeia, que também investigou fraudes em postos de gasolina e foi deflagrada pelo MPSP em 2023.
A compra da Copape representou um avanço nos negócios de Primo e Beto Louco: com a experiência de varejo de Mohamad combinada à expertise química de Roberto, os rendimentos cresceram rapidamente.
TERRITÓRIOS EM DISPUTA
O império de Primo e Beto Louco, contudo, foi desmantelado depois que a ANP revogou, em 2024, a autorização de funcionamento da Copape, por envolvimento em infrações administrativas, fiscais e criminais.
Nesse cenário, dois dos maiores sonegadores do país se encontraram no mercado de combustíveis: com as empresas de Beto Louco e Primo interditadas, a Duvale não conseguiu atender toda a demanda, e a Rodopetro, de Ricardo Magro, entrou no mercado.
Até então, as empresas mantinham uma espécie de acordo geográfico de não agressão: Beto e Primo não avançavam sobre o Rio de Janeiro, enquanto Magro atuava em São Paulo apenas com a marca Fera Lubrificantes, sem levar o combustível da Refit, uma das maiores refinarias do país, ao maior estado brasileiro. Em 7 de agosto de 2026, a ANP também revogou a autorização de funcionamento da empresa carioca.
A ação da fiscalização desfez o mapa traçado pelos operadores dos postos de bandeira branca.
Uma das entradas de Magro em São Paulo ocorreu na zona sul da capital. Um estabelecimento da rede do empresário carioca foragido funciona no Planalto Paulista. Na região, o grupo Mohamad opera vários postos, alguns dos quais fecharam em agosto, após a operação que denunciou Beto Louco.
O esquema de metanol para adulterar combustível, financiado por Beto, era conduzido por Admar de Carvalho Martins, o “Dema”. Em 2025, agentes acompanharam uma carga de metanol pela rodovia Régis Bittencourt. O caminhão despejou a substância nos tanques de quatro postos da zona sul e de um na região central paulistana, simulando que se tratava de etanol.
A carga foi rastreada e os postos foram visitados em 13 de setembro de 2026. Todos estavam fechados, e apenas um deles não tinha nenhum tipo de ocupação. Antigos pontos de descarga de metanol usados por Dema hoje abrigam lava-jato clandestino, estacionamento e garagem de ônibus interurbanos.
Apontado como operador logístico do desvio de metanol de Beto Louco, Dema também é um dos sócios da Upbus, concessionária de coletivos municipais que atua na zona sul e está sob intervenção da Prefeitura desde 2024 por suposto vínculo com o PCC.
O CRIME É COMO UM MOFO
Os principais alvos da Carbono Oculto estão foragidos, mas, segundo o secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, as operações tiveram resultados. O governo de São Paulo estima que a arrecadação tributária tenha aumentado R$ 3 bilhões em um ano.
Barreirinhas, porém, alerta que o crime organizado já procura novos caminhos. “Se pararmos, daqui a seis meses é que nem um mofo: ele vai voltar”.
Outro lado
A defesa de Mohamad Mourad afirma que as acusações são especulativas e “não encontram respaldo nos autos do processo”. Os advogados negam que Primo tenha vínculos com o PCC e dizem que a inocência do cliente será demonstrada na Justiça.
A defesa de Roberto Leme, o Beto Louco, afirma que ainda não teve acesso à íntegra das investigações e que responderá às acusações quando isso ocorrer. Os advogados consideram um “erro grave” associar o cliente ao PCC.
William Martinez, advogado da Usina Itajobi, nega a existência de vínculos entre a usina e o PCC e afirma que as associações feitas após a deflagração da Carbono Oculto estão causando danos à reputação da empresa.
Procuradas, as defesas de Pedro Furtado Gouveia Neto e Tharek Majide Bannout não quiseram se manifestar.
Os advogados de Himad Abdallah Mourad, Renan Cepeda Gonçalves, Renato Steinle de Camargo, Ricardo Magro e Admar de Carvalho Martins, assim como os representantes do BK Bank e da Reag, não foram localizados. O espaço permanece aberto para manifestações.
O advogado do BK Bank afirma que a instituição já entregou às autoridades responsáveis pelas investigações relacionadas à Operação Carbono Oculto todas as informações pertinentes. Também ressalta que o BK Bank exerce atividades lícitas, sujeitas à regulamentação e à fiscalização do Banco Central do Brasil. A Reag não quis se manifestar.
Tags: Operação Carbono Oculto, combustíveis, lavagem de dinheiro, postos de gasolina
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