
Cerca de 15 mil pessoas marcharam em Milão, na Itália, em 24 de outubro, enquanto milhares de manifestantes enfrentaram tropas de choque e ergueram barricadas em Bolonha, Roma e Turim, numa nova jornada de rebelião contra a carestia, os gastos militares e o governo de extrema direita de Giorgia Meloni. A mobilização ocorreu apesar da ocupação policial dos centros urbanos, do emprego de 500 militares adicionais em Milão e das detenções preventivas autorizadas pelo recente decreto de segurança. Ao longo do dia, a polícia conduziu 371 pessoas às delegacias, incluindo 110 menores de idade, e realizou nove prisões em todo o país. As manifestações foram noticiadas pelo portal O Arauto Vermelho, em 25 de outubro.
A manifestação de Milão reuniu duas marchas, compostas principalmente por estudantes, coletivos populares, militantes sindicais e organizações de solidariedade à Palestina. Inicialmente separados, os grupos se encontraram e avançaram até a Praça Leonardo da Vinci, diante do Politécnico.
A nova jornada deu continuidade à rebelião que levou a juventude a ocupar escolas, erguer barricadas e exigir a queda de Meloni nos dias anteriores. Em 17 e 18 de outubro, manifestações haviam alcançado Milão, Turim, Bolonha, Brescia e Bérgamo; em Florença, estudantes ocuparam o Colégio Gramsci e anunciaram a extensão das ocupações a outras escolas. O Movimento 17 de Outubro, surgido em meio aos enfrentamentos, passou a convocar manifestações semanais e a denunciar a falta de perspectivas para a juventude.
Em Bolonha, barricadas enfrentam tropas de choque até a noite
Em Bolonha, cerca de 3 mil manifestantes participaram da mobilização contra a carestia e o endurecimento das medidas repressivas. Grupos concentrados em diferentes pontos da cidade se reuniram na Praça do Netuno e marcharam pelas ruas centrais. Ao tentar avançar em direção à estação ferroviária, a marcha encontrou um bloqueio policial na Praça dos Mártires.
Os agentes avançaram com cassetetes, gás lacrimogêneo e canhões d’água, enquanto manifestantes responderam com o lançamento de garrafas, pedras e fogos de artifício. Os enfrentamentos se estenderam pela Via Marconi e pela Via Riva di Reno, onde barricadas foram construídas com contêineres de lixo e cercas retiradas de obras. Parte desses materiais foi incendiada, dificultando o avanço das tropas.
Os confrontos prosseguiram até a noite. O serviço de emergência registrou 32 atendimentos, enquanto a polícia informou que 24 agentes ficaram feridos. Três manifestantes foram presos. As informações constam dos balanços divulgados pela imprensa local em 25 e 26 de outubro.
Uma das intervenções policiais provocou denúncias de violência contra um manifestante imobilizado no chão. Segundo reportagem da la Repubblica, o jovem passou mal depois de ser derrubado e contido por policiais. Durante o atendimento, jatos de água empregados pela tropa de choque também atingiram a ambulância que havia chegado para socorrê-lo. O rapaz foi encaminhado ao hospital e recebeu alta durante a madrugada.

Em Roma, manifestantes entram no Coliseu e enfrentam canhões d’água
Em Roma, milhares participaram de manifestações contra a guerra e as políticas do governo Meloni. O centro da capital foi ocupado por um amplo dispositivo policial, com mais de 1,5 mil agentes, blindados e bloqueios de acesso às áreas comerciais e aos prédios institucionais.
Parte dos manifestantes deixou o percurso inicialmente previsto e entrou na área do Coliseu, chegando ao Arco de Constantino. A ação foi registrada pela imprensa italiana e divulgada internacionalmente como parte da nova jornada de protestos.
Os confrontos mais intensos ocorreram posteriormente, nas proximidades do Largo Santa Susanna e da Praça da República, quando manifestantes tentaram avançar em direção aos edifícios governamentais. Após lançamentos de garrafas e outros objetos contra as barreiras policiais, os agentes empregaram canhões d’água, gás lacrimogêneo e realizaram cargas para dispersar os grupos. Jovens responderam com pedras, fogos de artifício e materiais retirados das ruas.
O balanço divulgado em 26 de outubro registra 96 pessoas conduzidas às delegacias, 28 submetidas a detenções preventivas e 11 denunciadas, além de dois jovens detidos durante os confrontos. Portanto, os 96 mencionados no levantamento inicial de O Arauto Vermelho não correspondem a 96 prisões formais. A polícia prossegue na análise de imagens para identificar outros participantes dos enfrentamentos, segundo a imprensa italiana.
Em Turim, os protestos se voltaram particularmente contra o rearmamento e os gastos militares. A faixa de abertura denunciava a transferência dos recursos públicos para a guerra, a implantação de centros de dados e o encarecimento dos combustíveis. Quando a marcha tentou avançar pela Via Po, a polícia atacou os manifestantes com escudos e cassetetes, seguida pelo emprego de gás lacrimogêneo. Os jovens resistiram às cargas e entraram em confronto com os agentes.
Também houve manifestações em Florença, onde a polícia bloqueou o acesso à região comercial da Via Tornabuoni e, posteriormente, à estação ferroviária de Santa Maria Novella. Outras cidades registraram concentrações contra a carestia, a guerra e as medidas repressivas do governo.
Governo emprega militares e realiza 171 detenções preventivas em Milão
Em Milão, o governo deslocou 500 paraquedistas da Brigada Folgore para reforçar a operação de patrulhamento Strade Sicure. Tropas militares e policiais ocuparam os principais acessos ao centro comercial, realizaram revistas e impediram o avanço de manifestantes em determinadas ruas.
Apesar do cerco, as marchas prosseguiram pela cidade. O principal confronto ocorreu na região da Via Borghetto, quando policiais bloquearam a passagem de um dos grupos e utilizaram cassetetes. A manifestação reunificada seguiu até o Politécnico, com palavras de ordem contra Meloni, a guerra e o aumento do custo de vida.
O balanço da polícia de Milão, divulgado em 25 de outubro, informou 171 detenções preventivas, cinco prisões, 44 denúncias e 2.921 identificações. Essas ocorrências integram o balanço nacional de 371 pessoas conduzidas às delegacias. As detenções preventivas decorrem das novas atribuições policiais estabelecidas pelo decreto de segurança do governo Meloni.
A repressão não impediu outras iniciativas. Pela manhã, militantes da União Sindical de Base (USB), do movimento estudantil Cambiare Rotta e do partido Potere al Popolo realizaram um protesto diante da sede da Autoridade Reguladora de Energia, Redes e Ambiente (ARERA), órgão responsável pela regulação dos serviços energéticos. Os manifestantes despejaram esterco na entrada do edifício e incendiaram uma conta de eletricidade simbólica, denunciando o encarecimento da energia.
A RaiNews registrou a ação, na qual os participantes acusaram o governo de destinar recursos ao rearmamento enquanto famílias trabalhadoras enfrentam dificuldades para pagar despesas básicas. A USB anunciou novas mobilizações para 30 de outubro.
Promotoria pede prisão de pesquisador por suposta ‘estratégia revolucionária’
A ofensiva repressiva também alcançou os meios de organização e divulgação dos protestos. Em 24 de outubro, a polícia deteve em Milão o pesquisador Youssef Siher, de 30 anos, apontado pelas “autoridades” estatais como responsável por canais do Movimento 17 de Outubro nas redes sociais. A promotoria o acusa de incitação à prática de crimes, com agravantes relacionadas a supostas finalidades “terroristas” e à violência organizada em manifestações.
Em 26 de outubro, a promotora Francesca Crupi e o procurador Marcello Viola solicitaram a manutenção de Siher na prisão, alegando risco de fuga e de repetição dos supostos delitos. No pedido, afirmaram que o pesquisador possuía conhecimentos informáticos suficientes para desenvolver uma “estratégia revolucionária”, inclusive mediante a publicação de comunicados capazes de reunir milhares de pessoas nas ruas.
A acusação também examina mensagens de mobilização contra o governo Meloni e orientações divulgadas nos canais administrados pelo pesquisador. Sua esposa, Sagia Hammoud, é investigada em liberdade.
Entretanto, a cronologia dos próprios investigadores revela uma contradição importante: os canais vinculados ao Movimento 17 de Outubro foram criados na noite de 18 de outubro, depois dos grandes enfrentamentos registrados no dia 17. Uma apuração da la Repubblica publicada em 26 de outubro constatou que nenhuma das acusações examinadas se refere diretamente à organização daqueles confrontos anteriores.
As “autoridades” também investigaram possíveis vínculos com outros grupos, incluindo organizações acusadas de financiar o Hamas e hackers pró-Rússia. Até 26 de outubro, porém, não haviam apresentado elementos que comprovassem essas ligações. A polícia ainda bloqueou mensagens programadas para divulgar locais de concentração no dia 24.
Siher será ouvido em 27 de outubro, na prisão de San Vittore, em audiência na qual a juíza Tiziana Landoni deverá avaliar a legalidade da detenção e o pedido de prisão preventiva. A decisão é aguardada para os dias seguintes.
A perseguição judicial ocorre em meio à tentativa do governo de atribuir a organização dos protestos a um núcleo restrito de agitadores. A amplitude das mobilizações, contudo, envolve estudantes, trabalhadores, sindicatos de base e organizações populares com diferentes reivindicações e formas de atuação.

Juventude italiana dá continuidade à rebelião popular europeia
As manifestações italianas ocorrem em meio ao ascenso das lutas populares em diferentes países da Europa. Em 24 de outubro, cerca de 800 mil pessoas desafiaram o aparato policial e militar de Macron na França, segundo estimativa divulgada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT). Na Itália, como na França, a carestia, a deterioração dos serviços públicos e a repressão às manifestações impulsionam a participação de setores cada vez mais amplos da juventude.
Em comunicado divulgado depois da jornada de 17 de outubro, o Movimento 17 de Outubro declarou não reconhecer representantes nas instituições oficiais e rejeitou a tentativa de limitar a revolta às negociações partidárias. O manifesto denunciou a falta de perspectivas para os jovens e defendeu a continuidade das manifestações.
Organizações revolucionárias também procuram desenvolver a solidariedade internacionalista. Em declaração reproduzida pela Liga Anti-imperialista Internacional (LAI) em 25 de outubro, os Coletivos pela Democracia Popular destacaram a atuação da Juventude Comunista da França e defenderam o fortalecimento da organização anti-imperialista na Itália. Os coletivos anunciaram para 31 de outubro uma atividade de apresentação da Liga em Nápoles.
As próximas jornadas já estão convocadas. Sindicatos de base e organizações estudantis preparam novas manifestações para sexta-feira, 30 de outubro, enquanto a Confederação Geral Italiana do Trabalho (CGIL) anunciou uma greve geral para 20 de novembro.
A jornada de 24 de outubro terminou sem repetir os grandes saques registrados em Milão uma semana antes, mas com novos confrontos em diferentes cidades e centenas de pessoas submetidas a procedimentos policiais. Em Bolonha, as barricadas permaneceram nas ruas até a noite; em Milão, 15 mil manifestantes conseguiram marchar apesar do cerco militar. Para 30 de outubro, novas convocações já circulam entre estudantes e trabalhadores.

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