
Feijão, amendoim, farinha de mandioca, biju de milho e de goma, frutas, verduras, mel e rapadura voltaram às barracas da 6ª Feira da Produção do Para Terra I, a Área da Ponte, na região de Varzelândia e São João da Ponte, no Norte de Minas, sob a direção da respeitada organização camponesa da Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Retomada em 19 de setembro de 2026, 12 anos após a edição anterior, a atividade expôs a riqueza do trabalho dos camponeses da comunidade e das áreas vizinhas, reunidos para celebrar os 20 anos da Ponte da Aliança Operário–Camponesa.
Desde cedo, os feirantes já vendiam seus produtos, enquanto moradores das comunidades e delegações de outras regiões chegavam para a celebração. Ao saudar a retomada da atividade, um representante do Para Terra I recordou que a comunidade a realizara por cinco anos consecutivos, até a interrupção. Agora, voltavam a se reunir para “mostrar o que é a produção do camponês”, ressaltou, explicando que essa era a finalidade da feira.
Réstias de cebola pendiam da armação das barracas, sobre mesas ocupadas por produtos ensacados e verduras. Ao lado dos grãos e da farinha, a feira oferecia couve, coentro, abóbora, tomate, cenoura, alho, cebola, banana e beterraba. Havia também açúcar e alimentos preparados a partir do que sai das roças. A diversidade dos produtos, trazidos pela Área da Ponte e pelas comunidades circundantes, dava conteúdo à consigna da atividade: “Se o camponês não planta, a cidade não almoça nem janta”.



O trabalho para receber os visitantes começara ainda de madrugada. Na cozinha comunitária, as camponesas preparavam a alimentação; no quintal, grandes bacias e utensílios ocupavam mesas de madeira. Panelas sobre o fogão a lenha e o feijão servido em tigelas completavam a passagem dos alimentos da roça à mesa de quem chegava para a festa. Nos dias em que a reportagem de AND esteve na área, os camponeses carnearam dois bois para compartilhar com todos, incluindo as delegações que participaram da celebração.
A diversidade exposta na feira se apoia na organização que os moradores apresentaram durante a visita às plantações. Eles explicaram como o trabalho coletivo permitiu instalar a rede de irrigação, manter as lavouras e aliviar parte do serviço pesado. A cooperação que erguera a ponte, em 2006, seguia dando frutos nas roças. Os registros aéreos capturados por AND mostram a dimensão da plantação coletiva. Vistas do alto, as fileiras de plantas, os canteiros e os grupos de bananeiras compõem um mosaico de cultivos, cortado por caminhos pelos quais os visitantes percorriam as roças.


O trabalho coletivo faz avançar a produção
A conquista da irrigação pelo trabalho coletivo é um avanço da Revolução Agrária na Área da Ponte e concretiza o segundo ponto do Programa Agrário de Defesa dos Direitos do Povo (PADDP), sistematizado e aplicado pela LCP: libertar as forças produtivas do campo, desenvolvendo a cooperação e adotando meios de produção e instrumentos mais avançados. A organização da comercialização e do abastecimento, assim como a construção de estradas, pontes e outras estruturas necessárias à vida das comunidades, também integra esse ponto do Programa.
Essa conquista tem uma história de organização e luta. Em 2011, os moradores já relacionavam a irrigação à persistência em exigir recursos públicos. Relatavam também que a construção da ponte, com apoio da LCP, ajudara a reanimar o grupo de produção coletiva da comunidade.
Após mais 15 anos de luta pela produção, os camponeses mantêm o caráter comunitário da área irrigada. Durante a visita, explicaram que a terra pertence à associação e não pode ser vendida individualmente. As famílias cultivam parcelas dessa área e compartilham a rede de irrigação.
Na celebração de setembro, o representante do Para Terra I relacionou a construção da ponte ao fortalecimento do coletivo e ao desenvolvimento da Assembleia Popular (AP) e do Comitê de Defesa da Revolução Agrária (CDRA). A participação das famílias nas decisões da comunidade corresponde ao terceiro ponto do Programa: organizar e exercer o Poder político das massas, construindo os embriões de seu autogoverno. “Nós como indivíduos, sem o coletivo, não somos ninguém”, afirmou o presidente da associação durante a celebração. E acrescentou: “É uma comunidade que tem decisão própria, sabe o que quer, luta pelos seus objetivos”.


Dos canos nos ombros à irrigação programada
Antes da rede fixa, os camponeses se dividiam em grupos e passavam o dia transportando tubos aquecidos pelo sol para molhar as lavouras. “Era o dia inteirinhozinho com a bota, carregando na lama, cano quente na carcunda”, recorda um dos moradores que apresentou as roças à reportagem. Hoje, a tubulação fica debaixo da terra e o horário de irrigar cada setor é programado num controlador digital.
A água da irrigação vem de poços e percorre a rede enterrada até os pontos de distribuição nas lavouras, contam os moradores. O controlador digital permite definir quando o sistema começa a funcionar e o tempo destinado a cada setor. Os camponeses ajustam a irrigação conforme o que plantam: culturas que precisam de menos água recebem menos; para as que precisam de mais, alteram a programação.
Na parte de sequeiro, o cultivo continua dependendo das chuvas. A irrigação amplia as possibilidades de plantar e colher além dessa dependência, mas exige que as famílias conheçam tanto o equipamento quanto as necessidades da lavoura. Durante a visita, um dos camponeses ressaltou o cuidado com a água no feijão, que requer controle na hora de irrigar.
A programação tampouco dispensa a manutenção. Ao apresentar uma peça chamada ventosa, um morador explicou que ela permite a saída do ar da tubulação. Em outro trecho, relatou a rotina de uma camponesa que cuida de sua parcela e vai cedo à lavoura verificar o funcionamento e desentupir bicos obstruídos por pequenas pedras.




Os moradores descrevem dois sistemas e explicam que irrigam no período noturno para reduzir a despesa com energia. A conta de luz era um dos grandes problemas do equipamento antigo, quando a cobrança tornava mais difícil manter a produção. “Muitas das vezes aquilo que era a renda a empresa de energia carrega embora”, resume um dos entrevistados ao falar do peso da tarifa comercial.
A rede fixa também livrou os grupos de movimentar os tubos pela roça durante o dia. “A gente, com a batalha da gente, conseguiu esse conjunto de irrigação aqui pra diminuir o serviço”, afirma um camponês. A mudança é lembrada por outro morador numa frase: “Passou do fel pro mel”.
Em 2015, estudantes visitaram as áreas camponesas e registraram a instalação coletiva de mais de 27 mil metros de canaletas para a irrigação. O relato descrevia controladores digitais e 12,48 hectares irrigados, mantidos pelas famílias. Sob forte estiagem, a delegação encontrou milho, mandioca, jiló, abóbora e hortaliças. A diferença entre as plantações irrigadas e as que dependiam das chuvas já chamava a atenção dos visitantes.


A riqueza da produção camponesa
Nas roças, o feijão aparece em diferentes estágios: há plantas em floração e outras próximas da colheita. Entre as hortaliças, os camponeses mostram cenoura, pepino, tomate e abóbora. Também relatam o cultivo de alho, cebola, alface e coentro, além de milho, mandioca, cana e banana. Junto às demais culturas, plantam também café, manga e urucum. Dessa diversidade vêm os alimentos consumidos na comunidade e os produtos comercializados pelos camponeses.
A capacidade de produzir em maior escala aparece também nos registros históricos. Estudo de David Batista Batella acerca da LCP e da luta pela terra no Norte de Minas registra cerca de 100 toneladas de pimenta produzidas e comercializadas coletivamente entre 2013 e 2017. É o acumulado daquele período, uma dimensão da experiência produtiva das famílias.
O beneficiamento – isto é, o conjunto de operações pós-colheita destinadas a transformar o fruto colhido em um produto seguro, padronizado e pronto para a comercialização ou industrialização – também foi tema das trocas entre comunidades. Na 3ª Festa da Produção Coletiva, em 2012, uma camponesa de Rondônia ensinou a beneficiar e embalar pimenta. Os moradores do Para Terra I apresentaram a irrigação coletiva de suas roças. A atividade reuniu experiências que iam do cultivo ao preparo dos produtos para a venda.



Nas parcelas irrigadas, as camponesas também cultivam e cuidam do funcionamento do sistema. Ao responder se a esposa também trabalha na lavoura, um dos camponeses foi direto: “Ela trabalha mais do que eu”. As mulheres tomam parte no cultivo e na manutenção da produção, além do beneficiamento da mandioca para fazer farinha, mencionado pelos moradores durante a caminhada.
O feijão ocupa lugar de destaque entre os produtos da comunidade. Na ocasião da visita, um dos camponeses já cultivava a segunda safra de feijão. Da primeira, relatou ter tirado entre 800 e 900 quilos. Enquanto esperava outra boa safra, mostrou os canteiros de hortaliças e contou que já havia colhido boa parte do alho, da cebola, da alface, da abóbora e do tomate. Nos lotes individuais visitados pela reportagem de AND, viam-se galinhas, galos, gado, leitões e um jegue.
Produzir na comunidade também transformou a vida de quem antes trabalhava para o latifúndio. Um dos moradores, que tirava leite para outros antes de chegar ao Para Terra I, estima que 80% da alimentação de sua família vêm de dentro da área. Ao comparar sua trajetória com as condições atuais, afirma: “Rico nós não somos não, mas fome aqui ninguém passa não”.

A luta para ampliar a produção e escoar os alimentos
Ampliar as conquistas da comunidade exige enfrentar as dificuldades de transporte e comercialização. Os moradores relatam vendas para escolas e vizinhos e a participação em feiras, mas apontam o transporte como uma das maiores dificuldades. A estrada ruim atrasa a chegada e prejudica a qualidade das verduras. Com poucas alternativas para levar os alimentos ao mercado, os camponeses ficam sujeitos aos preços baixos oferecidos pelos atravessadores.
“O que mata mais hoje pra nós aqui é o transporte”, afirma um dos entrevistados. Ele conta que há um companheiro que leva produtos à feira, mas as condições do trajeto dificultam entregar a verdura como foi colhida. Quando a oferta dos atravessadores é baixa demais, os moradores procuram outros compradores ou destinam os alimentos ao consumo.
Também faltam máquinas para aliviar etapas do cultivo. Um camponês relata que o trator e a grade foram obtidos por emenda parlamentar, depois de mais de 20 anos de cobranças. Ainda precisam de plantadeira e outros equipamentos. “Mas foi pressão, foi pressão. E a gente precisa fazer mais pressão”, afirma.
Na celebração dos 20 anos da ponte do povo, o representante do Para Terra I contrapôs os avanços da irrigação ao trabalho ainda feito com enxada e matraca e defendeu o fortalecimento da organização camponesa para ampliar as condições de produzir e escoar os alimentos. “Precisamos nos agarrar no nosso coletivo”, afirmou.
Nas barracas da feira retomada, a variedade de alimentos mostrava a força do trabalho que os camponeses organizaram em comum nas roças e na conquista da irrigação. Essa fartura e os avanços da produção coletiva são conquistas da Revolução Agrária, que toma as terras do latifúndio e as entrega a quem nelas vive, trabalha e produz.

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