
No dia 1º de outubro, o ativista e refugiado político marroquino Driss Mrani foi agredido e torturado por agentes da Polícia Militar de Goiás (PMGO) dentro do posto policial de São Jorge, distrito de Alto Paraíso de Goiás, segundo denúncia apresentada por ele ao Ministério Público. Presidente do Movimento Progressista Marroquino, Mrani acusa os sargentos Xavier e Pinheiro de espancá-lo com pedaços de madeira e barras de ferro, algemá-lo e lançar jatos de água em sua cabeça. Ele afirma que foi chamado de “terrorista” durante as agressões e que sua namorada foi intimidada ao tentar filmar.
Segundo Driss, os policiais o arrastaram para o interior do quartel, atiraram-no ao chão e continuaram a agredi-lo depois de algemá-lo. Durante o espancamento, chamaram-no repetidamente de “terrorista” e proferiram ofensas contra sua mãe. Sua namorada, Karla Gregorine Melo, também foi intimidada ao tentar registrar as agressões.
Em entrevista ao AND, Driss relatou que, naquela noite, havia discutido com Karla e, após uma situação envolvendo um terceiro, chegou à frente do posto policial.
“Eu fui recebido com golpes de barras de metal ou ferro na porta do quartel da Polícia Militar. Em seguida, fui algemado e levado para dentro, e as agressões continuaram no quintal do posto policial. Os policiais não me perguntaram o que havia acontecido, não solicitaram meus documentos e não me explicaram o motivo daquela violência. Apenas gritavam para eu calar a boca e continuavam a me bater com aparente raiva, enquanto eu não entendia por que estava sendo agredido.”
O ativista formalizou uma representação ao Ministério Público de Goiás (MPGO), registrada sob o número 202600602271. Também apresentou seu relato à Polícia Civil (PC), no Registro de Atendimento Integrado (RAI) nº 49022627. Segundo ele, o registro reúne imagens das lesões e classifica a ocorrência como lesão corporal dolosa consumada, identificando-o como vítima comunicante.


Chamado de “terrorista”, namorada impedida de filmar
Driss denuncia que as agressões foram acompanhadas de ofensas xenofóbicas. Para ele, a associação de sua origem marroquina ao terrorismo precisa ser investigada como parte da violência praticada pelos policiais.
“No meu caso, o fato de eu ser marroquino e refugiado político, somado ao relato de que fui chamado de ‘terrorista’ durante as agressões, levanta uma preocupação séria com a possibilidade de preconceito xenofóbico e antiárabe. A associação de uma pessoa árabe ou de origem árabe ao terrorismo é uma forma de estigmatização que não pode ser normalizada.”
De acordo com o relato, Karla chegou ao quartel depois do início das agressões e permaneceu do lado de fora. Ela presenciou Driss deitado no chão, algemado e com a cabeça molhada, enquanto os policiais exibiam uma corda.
Quando tentou filmar, foi cercada e impedida de registrar os fatos. Os policiais tomaram seu celular e examinaram o conteúdo do aparelho. Driss denuncia que a intimidação buscava impedir a produção de provas contra os agentes. Afirma ainda que seu próprio telefone, que estava no bolso, foi quebrado pelos golpes recebidos.
“A presença de Karla e o que ela presenciou são elementos importantes para esclarecer os acontecimentos e devem ser considerados na investigação”, afirmou.
Ausência de registro e falhas no atendimento médico
Segundo Driss, a Polícia Civil de Alto Paraíso informou não ter localizado um boletim de ocorrência produzido pelos sargentos sobre a intervenção daquela noite. Para o ativista, a ausência desse registro indica uma tentativa de ocultar as agressões e precisa ser esclarecida pela investigação.
“Por isso, não considero adequado reduzir o episódio a uma abordagem intimidatória. O que relato é uma sequência de agressões físicas, algemamento, tortura, humilhações e xenofobia, sem que me fosse dada sequer a oportunidade de explicar a situação.”

Após as agressões, Driss foi retirado do quartel por uma ambulância dos bombeiros e levado ao Hospital de Alto Paraíso. Ele relata que apresentava lesões no tórax, dificuldades respiratórias e precisou utilizar máscara de oxigênio. Entretanto, havia oxigênio disponível para apenas dez minutos, enquanto o deslocamento durava aproximadamente 50 minutos. Segundo o entrevistado, o bombeiro que o acompanhava ajudou-o a controlar a respiração até a chegada ao hospital.
O ativista também denuncia falhas no primeiro atendimento hospitalar. Afirma que a médica plantonista lhe deu alta sem examinar seu corpo, registrar as lesões ou solicitar radiografias, apesar do relato de golpe de barra de ferro no peito e dos hematomas.
Na manhã de 3 de outubro, retornou ao mesmo hospital com dores no tórax e dificuldades para respirar.
“Dessa vez, fui atendido por outro médico, que solicitou uma radiografia, registrou as lesões e me concedeu 10 dias de afastamento. No atestado, registrou que houve risco de vida e que fiquei com sequelas.”
Driss afirma possuir documentação médica e um atestado psicológico emitido após o episódio. Exige que esses documentos, os exames e os prontuários sejam preservados e incorporados à investigação.
Oposição à monarquia marroquina e hipótese de perseguição política
Sob proteção internacional no Brasil, Driss deixou o Marrocos para fugir da perseguição política, da prisão e da tortura. O Movimento Progressista Marroquino, organização formalizada no Brasil, combate a monarquia absolutista marroquina e sua vinculação ao imperialismo e defende o estabelecimento de uma república democrática.
Além de presidir o movimento, Driss integra comitês de solidariedade internacional. Ele exige que a investigação apure uma possível relação entre sua atuação política e as agressões sofridas.
O entrevistado também relata que, em agosto de 2026, sofreu perseguições no Distrito Federal e registrou três boletins de ocorrência na Polícia Civil, posteriormente encaminhados à Polícia Federal.
“Não descarto que minha condição de refugiado político marroquino, minha atuação política e minha participação em iniciativas de solidariedade internacional possam ser elementos relevantes para a investigação. É justamente por isso que exijo uma investigação federal, e não apenas estadual.”
Driss ressalta que a hipótese de perseguição política precisa ser investigada:
“Não estou afirmando antecipadamente que essa conexão exista; estou exigindo que ela seja investigada com seriedade, independência e transparência.”
Ao relacionar sua denúncia à violência das forças de repressão no Brasil, o ativista destacou que ela atinge de maneira desproporcional trabalhadores, moradores de bairros pobres e movimentos que lutam por terra, moradia e direitos sociais. Defende que o enfrentamento dessa violência caminhe junto com o combate ao racismo, à xenofobia e à perseguição política.
Preservação das provas e investigação federal
A representação encaminhada ao Ministério Público solicita a preservação imediata e a apreensão das gravações das câmeras do quartel de São Jorge e das vias próximas. Driss exige também a análise dos documentos médicos e psicológicos, a oitiva de Karla e de outras testemunhas e a identificação de todos os policiais presentes.
O ativista apresentou denúncias à Corregedoria e à Ouvidoria da PMGO. Segundo ele, a Corregedoria confirmou o registro da denúncia e informou seu encaminhamento à 2ª Seção para conhecimento e providências. Driss ressalta que esse recebimento não significa conclusão da investigação nem responsabilização dos envolvidos.
Ele afirma ainda que o MPGO entrou em contato e está investigando o caso. Também registrou ocorrência na Polícia Federal, acionou o Ministério da Justiça e Segurança Pública e comunicou os fatos ao Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) e ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur). Buscou, ainda, apoio da Anistia Internacional e da Human Rights Watch.

“Como refugiado e militante de esquerda, defendo a solidariedade entre os povos e o direito de todos à dignidade, à liberdade e à justiça. Não quero privilégios por ser refugiado ou dirigente político. Exijo os mesmos direitos que qualquer pessoa deve ter: integridade física, respeito, proteção legal e acesso à Justiça.”
A reportagem tentou contato com os órgãos citados, mas não recebeu respostas até o fechamento desta matéria.

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