
A interferência do governo Trump, do país Estados Unidos (EUA), para favorecer a volta do clã Bolsonaro à gerência do velho Estado e a convocação da base bolsonarista para vigiar mesários recolocam, na reta final do segundo turno, o perigo sobre o qual AND há muito tempo já vinha advertindo. A operação dentro do Departamento de Estado foi revelada em investigação do monopólio de imprensa Reuters publicada em 24 de outubro; na mesma noite, Flávio Bolsonaro convocou sua base de massas fanatizada a comparecer aos colégios eleitorais às 17h de 25 de outubro, sob a alegação de impedir fraudes.
Dois dias antes dessas revelações e da convocação bolsonarista, o diretor-geral de AND, Victor Costa Bellizia, havia exposto a lógica dessa ofensiva no A Propósito #377, transmitido em 22 de outubro: “Se o resultado não chancela a interferência do imperialismo ianque e os interesses da extrema direita em ofensiva, ele será questionado”. Para o representante do jornal, as suspeições e as ameaças procuram obter submissão por diferentes caminhos, conforme o resultado.
Assista ao programa na íntegra:
“Na verdade, ela efetivamente não tem resolução pela via do resultado eleitoral”, afirmou sobre a crise política. A conclusão dirigia-se à preparação das forças populares: “O fator mais importante é precisamente o incremento do protesto popular”.
Segundo os funcionários e ex-funcionários ianques ouvidos pela Reuters, Darren Beattie e Ricardo Pita orientaram diplomatas a favorecer Jair Bolsonaro e, depois, Flávio, inclusive evitando contatos com outros candidatos conservadores. Os dois atuam no Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio e impulsionaram medidas punitivas contra o Brasil para favorecer o clã. Já Flávio lançou suspeições contra os mesários para justificar a concentração de sua base nos locais de votação, reproduzindo uma acusação difundida por Gustavo Gayer.
As advertências de AND antecedem o #377. No programa #375, de 8 de outubro, o representante do jornal já apontava que “Trump deu sinais de que vai questionar o resultado” e relacionava esse perigo ao assanhamento da extrema direita, inclusive com ameaças de atentados. Em 15 de outubro, no #376, sintetizou o método da chantagem: “Donald Trump provavelmente vai criar desordens pra alarmar e depois negociar”.
Interferência para obter minerais, tropas e submissão
No #377, o diretor-geral denunciou a atuação de Washington na escolha do resultado: “O governo Trump está interferindo nas eleições. Ele está interferindo nas eleições, inclusive com as big techs. E ele está interferindo para escolher, para manipular a opinião pública do País, para que ela chancele os seus planos de interferência no País”.
O representante de AND relacionou essa operação aos compromissos de um governo de extrema direita: entregar reservas minerais estratégicas, permitir tropas e bases militares ianques, subordinar a diplomacia brasileira e afastar capitais das potências rivais do EUA. Em sua análise, a chantagem procura fazer o eleitor acreditar que a submissão a Washington evitaria problemas maiores: “O governo Trump está criando uma situação e está manipulando a opinião pública para que fique evidente que, neste cenário, o menos pior é aquele que não vai criar problema com o governo ianque”.
Foi diante desse quadro que o diretor-geral advertiu contra a confiança no desfecho das urnas: “Então, crer que essas eleições podem resolver o problema da crise que nós estamos observando, inclusive crise que ameaça a existência, como existem hoje, dos direitos e das liberdades democráticas fundamentais… Crer que o caminho para suplantar esse perigo sejam as urnas, seja o resultado eleitoral, é, no mínimo, ingênuo, porque também estamos assistindo à extrema direita e ao governo Trump darem, cada um a seu modo, sinais de que o resultado eleitoral é só uma chancela”.

O resultado muda o mecanismo da ofensiva
Ao examinar uma eventual vitória de Flávio, o representante do jornal apontou a imposição das exigências ianques pelo governo eleito. Trump, afirmou, “vai aplicar todas as suas políticas através de acordos leoninos com a nação e vai colocar tropas aqui, vai controlar as reservas minerais estratégicas do País”. O programa relacionou esse perigo à disposição de generais de admitir operações com tropas do EUA nas fronteiras brasileiras.
Numa derrota de Flávio, explicou o diretor-geral, Washington poderia empregar a desestabilização para arrancar essas concessões de um governo petista. Ao desenvolver esse cenário, advertiu que Trump utilizaria a extrema direita para produzir desordens e intimidar a esquerda: “Vai colocar como alvo a esquerda. Em geral, todos que se qualificam como esquerda vão começar a ser alvos, para criar um caos”. A finalidade, na avaliação apresentada, seria amedrontar o PT e impor um acordo sob a promessa de preservar uma democracia cada vez mais esvaziada.

O representante desta tribuna também considerou improvável uma ocupação militar direta do Brasil naquele momento. Sua advertência se concentrava nos agentes internos da contrarrevolução: “Eles já têm lacaios aqui dispostos a isso”. No cenário de maior escalada, afirmou, esses aliados seriam utilizados “para criar uma desordem muito grande para justificar um golpe de Estado”.
Essa avaliação preserva a diferença entre os resultados. “É claro e evidente que um governo da extrema direita e a ofensiva da contrarrevolução são mais reacionários”, demarcou o diretor-geral. Por isso, concluiu, “o inimigo principal de todos os progressistas e democratas é a extrema direita, e ela é o alvo principal de todo o ataque político”. O resultado, explicou, altera a forma pela qual a ofensiva se processa; preparar o enfrentamento popular é indispensável em ambos os cenários.

Uma decomposição multi-institucional e suprapartidária
O diretor-geral relacionou a vulnerabilidade às chantagens à desmoralização das instituições. Citou o Datafolha divulgado em 16 de outubro: apenas 7% dos entrevistados viam no Brasil uma democracia plena; 50% apontavam uma democracia com grandes problemas, e 16% afirmavam que o País não era uma democracia. As duas últimas respostas somam 66% da amostra. O levantamento ouviu 2.520 eleitores nos dias 13 e 14 de outubro.
Para o representante de AND, esses números alcançam uma sustentação ideológica da velha ordem: a apresentação do Estado como algo imparcial, acima das classes e capaz de conciliar seus conflitos. Foi a esse mecanismo que se referiu ao falar do “suprassumo da ideologia burguesa”.
“Nesse estágio da sociedade em que nós vivemos, esse negócio ruiu, entende? As pessoas ou acreditam que isso nem é uma democracia ou a veem como algo muito problemático, que não consegue se realizar. Então é um cenário de degradação, de decomposição de tudo aquilo que é fundamental do ponto de vista político e ideológico da sociedade, que é uma sociedade burocrático-latifundiária”, afirmou.
A análise abrangeu o Supremo Tribunal Federal (STF). O diretor-geral citou a Quaest de setembro, na qual 56% diziam não confiar na Corte, dez pontos percentuais acima de agosto. Entre os eleitores classificados como independentes, o índice era de 65%. “Então não é uma questão só dos bolsonaristas”, salientou. Sua síntese foi: “É uma decomposição multi-institucional, suprapartidária”.

Despolitização diante de uma ameaça concreta
Ao analisar o debate da Band de 18 de outubro, o representante do jornal destacou o esvaziamento da discussão sobre o futuro do País. “Dos dois lados, o máximo que eles podem oferecer é uma demonstração de que o outro é pior do que ele, mas de modo algum qualquer força política consegue se apresentar como algo necessariamente bom”, avaliou. O efeito, em sua análise, é aprofundar a desesperança no sistema e a tendência a votar para impedir a vitória do adversário.
O diretor-geral relacionou esse quadro à pesquisa espontânea da Quaest divulgada em 21 de outubro, na qual os indecisos passaram de 7% para 14%. Nessa modalidade, o entrevistado menciona seu candidato sem receber uma lista de nomes. A referência foi empregada pelo representante de AND para discutir o afastamento da política oficial, enquanto a disputa seguia acirrada.
A despolitização, para o diretor-geral, é particularmente grave porque ocorre sob interferência estrangeira e ameaças aos direitos democráticos: “Primeiro, porque os de cima não estão preocupados em discutir o futuro do País”. Ao criticar a atuação petista, apontou o efeito concreto da contenção popular sobre a chantagem ianque: “Todas estão fragilizadas, e forças políticas fragilizadas ficam suscetíveis a chantagens”. E acrescentou: “O PT não está mobilizando o movimento popular para enfrentar essa situação. Então ele se torna ainda mais refém”.
O representante desta tribuna explicou também o círculo de promessas e frustrações: tentar reconquistar os votos das massas a qualquer custo, sem cumprir suas reivindicações, renova as ilusões que serão novamente frustradas. “Mas foi o fato de elas serem iludidas e frustradas que as levou para a extrema direita, agora mais do que antes”, afirmou. Sua crítica à falsa esquerda incide, assim, sobre o enfraquecimento da resistência ao inimigo principal.

Greve geral, direitos dos trabalhadores e tomadas de terra
A alternativa que o diretor-geral apresentou tem reivindicações e meios de organização determinados. Ao tratar da preparação de um movimento de greve geral, defendeu que fosse levantado “agora sendo preparado, agora desatado, agora para enfrentar o avanço da contrarrevolução”. O chamado dirigia-se ao movimento operário, estudantil, camponês e popular, em luta contra os ataques das classes dominantes.
O representante do jornal distinguiu a convocação para fazer campanha da mobilização para arrancar direitos. Disse ter visto chamados petistas para as ruas em busca de votos, mas não para lutar pela revogação da contrarreforma da Previdência. Essa reivindicação, sustentou, poderia levar milhões às ruas se fosse discutida e organizada nas unidades de produção pelo movimento sindical.
Na mesma intervenção, o diretor-geral criticou a ausência de um chamado das direções do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) para enfrentar o risco de golpe e “avançar contra o latifúndio bolsonarista, tomar terra”. Em contraposição à passividade, destacou pronunciamentos da Liga dos Camponeses Pobres (LCP), do Movimento Estudantil Popular Revolucionário (MEPR) e de outras organizações. Defendeu “trabalhar junto com as bases de todas as organizações da social-democracia para arrastar essa base para a luta”.
O representante de AND propôs também articular com direções que se dizem de esquerda para que correspondessem à sua própria caracterização e colocassem suas bases em luta contra os ataques da contrarrevolução. “O resultado eleitoral não é o fator mais importante para avançar a luta contra a extrema direita”, insistiu. “Se nós não mobilizarmos as massas, se não houver um incremento do protesto popular, qualquer que seja o resultado, nós veremos um avanço da extrema direita”.

A luta pela terra e a perspectiva popular
Ao examinar o campo, o diretor-geral vinculou o agravamento dos conflitos à função imposta ao Brasil na produção de mercadorias primárias e fontes de energia para o mercado externo, sustentada no monopólio da terra. Segundo ele, o capitalismo burocrático exige ampliar a concentração fundiária nas mãos do capital burocrático e financeiro, por meio do latifúndio, avançando sobre os posseiros.
O representante do jornal explicou o mecanismo da violência: “É mais barato você armar um exército de paramilitares para expulsar uma comunidade e ficar com aquelas terras, depois fazer uma grilagem”. A luta camponesa, em sua análise, enfrenta uma base material da reação que o simples revezamento de governos preserva.
A perspectiva que apresentou exige transformar o descontentamento e a decomposição da velha ordem em força popular organizada. Para as forças democráticas e populares, afirmou o diretor-geral, “há uma imensa possibilidade de arrastar mais e mais contingentes de massas para a luta revolucionária”.

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