
247 – Perfis religiosos e figuras políticas ligadas ao Partido Liberal (PL) intensificaram uma estratégia de manipulação digital focada em descontextualizar rituais afro-brasileiros nesta reta final das eleições presidenciais no Brasil. O objetivo, segundo a reportagem, é construir a narrativa de uma “batalha espiritual” entre o bem e o mal, colocando o candidato Flávio Bolsonaro como vítima de ataques sobrenaturais e reforçando o viés ideológico de eleitores conservadores. As informações são da teleSUR.
Um monitoramento realizado pela Casa Galileia e pelo Instituto Democracia em Xeque, mostra que diversas publicações virais retiram de contexto imagens de manifestações culturais e religiosas de matriz africana e indígena. O conteúdo as apresenta de forma inverídica como cerimônias realizadas para causar danos físicos ou a morte de lideranças políticas. O estudo apontou a propagação em massa desses vídeos por parte de influenciadores, pastores e parlamentares.
A influenciadora Bella Falconi, por exemplo, compartilhou um vídeo com declarações do pastor angolano Edivaldo Simão, que previa “derramamento de sangue no Brasil” após uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. O vídeo intercalava imagens de um caixão em chamas contendo o rosto do candidato com rituais afro-brasileiros. A publicação obteve mais de 51.500 curtidas em poucas horas, acompanhada de uma mensagem afirmando que o país se libertaria de “uma ideologia demoníaca”.
Na quinta-feira, 22 de outubro, durante um ato no Largo da Batata (São Paulo), manifestantes cantaram uma cantiga tradicional que falava em “amarrar Bolsonaro em um cipó”. Contas associadas ao deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), além dos pastores Naor Pedroza e Eduardo Batista (este último com meio milhão de seguidores), compartilharam o vídeo. Eles alegaram que “o inferno foi solto” e instigaram os cristãos a não recuarem diante da “ameaça sobrenatural”.
Contestação especializada
A narrativa promovida pelo bolsonarismo foi desmentida pelo Coletivo Bereia, agência de checagem de fatos focada no meio religioso, que atestou não haver evidências de ameaças ou rituais voltados para prejudicar opositores.
Especialistas ressaltam que as expressões utilizadas no ato em São Paulo fazem parte da Jurema, uma tradição espiritual afro-indígena do Nordeste brasileiro. A pesquisadora Carolina Rocha, do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e autora do livro “A Culpa é do Diabo”, esclareceu que, nessas tradições, termos como “amarrar o inimigo” ou “dar um nó” têm, estritamente, o significado de proteção, contenção e afastamento de forças nocivas, sem qualquer desejo literal de violência. “É uma súplica ritual para conter a força daqueles que ameaçam a floresta, a democracia e os povos tradicionais. Existe uma diferença abismal entre recorrer à espiritualidade para autoproteção e desejar a violência contra um adversário político”, destacou Rocha.
Debate interno e estigmatização política
A polêmica também alcançou o ambiente interno das religiões afro-brasileiras. Durante a manifestação em São Paulo, o babalorixá e doutor em semiótica pela USP, Sidnei Nogueira, declarou que praticantes de religiões afro que votam em Flávio Bolsonaro “trabalham contra o axé”. Ele defendeu que há uma contradição intrínseca entre essas tradições e o projeto político do PL. Suas declarações provocaram intenso debate nas redes sociais entre praticantes da Umbanda e do Candomblé com diferentes inclinações políticas.
O uso do racismo religioso como tática eleitoral não é uma novidade na política do Brasil. Em 2022, a ex-primeira-dama e senadora Michelle Bolsonaro utilizou um vídeo no qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebia o tradicional banho de pipoca (prática de purificação da Umbanda), classificando a disputa como uma “luta contra as potestades das trevas”. Além disso, em uma campanha de desinformação em 2024, circulou uma montagem jornalística falsa que atribuía à primeira-dama, Janja da Silva, o pedido de um ritual para tentar frear a desvalorização do Real.
Analistas alertam que o ressurgimento dessas narrativas enganosas na reta final das eleições de 2026 tem como objetivo não apenas consolidar o voto religioso através do medo, mas também aumentar significativamente o risco de agressões e intolerância contra as minorias religiosas do país.
Reta final decisiva
A polarização política atingiu o ápice neste sábado, 24 de outubro, quando Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva promoveramm seus atos de encerramento de campanha antes do segundo turno, marcado para o domingo, 25 de outubro. Na primeira etapa, Bolsonaro obteve 47,03% dos votos, enquanto Lula alcançou 45,16%. Aproximadamente 160 milhões de eleitores brasileiros retornarão às urnas em um cenário que, segundo pesquisas recentes, aponta para empate técnico.
A campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é baseada na defesa da democracia, no fortalecimento dos programas sociais, na erradicação da fome e na proteção ambiental da Amazônia. Por outro lado, Flávio Bolsonaro (PL) foca sua proposta na agenda econômica liberal, no endurecimento das penalidades contra o crime organizado e na valorização de princípios conservadores e cristãos.
https://www.brasil247.com/brasil/bolsonaristas-intensificam-o-uso-de-racismo-religioso-as-vesperas-do-segundo-turno/
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