
247 – A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais de 2026 foi impulsionada por uma expressiva migração de votos. Dos 14 milhões de novos votos registrados para os dois candidatos em relação ao primeiro turno, aproximadamente 10 milhões, ou 71%, foram conquistados pelo petista. O movimento contrariou as projeções dos institutos de pesquisa e foi decisivo para garantir a reeleição de Lula.
Os números foram apresentados pelo analista político e sócio do instituto Real Time Big Data, Bruno Soller, em entrevista à CNN Brasil. Segundo ele, a dimensão da mudança no comportamento do eleitorado surpreendeu até mesmo os especialistas responsáveis pelas projeções eleitorais, que apontavam uma vitória de Flávio Bolsonaro.
“O fato é que tivemos 14 milhões de novos votos, desses 14, o presidente Lula pegou quase 10 milhões deles, ou seja, 71% das pessoas que foram votar, dos novos votos que apareceram nas urnas para esses dois candidatos, foram para o presidente Lula. Não era o esperado”, afirmou Soller.
O especialista reconheceu que os modelos estatísticos utilizados pelo instituto não conseguiram identificar a intensidade da mobilização eleitoral favorável ao presidente. De acordo com ele, todas as simulações realizadas antes da votação indicavam um resultado diferente daquele confirmado nas urnas.
“Ninguém conseguiu captar (sentimento de virada), não tenho uma resposta pronta para te dar. Dos 24 modelos probabilísticos que fizemos, os 24 apontavam para uma vitória do Flávio Bolsonaro. Ou seja, foi algo muito fora da curva na vitória do presidente Lula. Nunca na história do mundo a gente viu um movimento tão grande nesse sentido”, declarou.
A avaliação evidencia a dificuldade dos modelos probabilísticos do instituto em antecipar a mudança na distribuição dos votos entre os dois turnos. Embora Flávio Bolsonaro tenha encerrado a primeira etapa da disputa à frente de Lula, o presidente conseguiu reverter a vantagem e conquistar seu quarto mandato presidencial.
Rejeição a Flávio Bolsonaro e políticas do governo podem explicar virada
Ao analisar os fatores que contribuíram para a vitória de Lula, Bruno Soller apontou uma combinação de elementos políticos e eleitorais. Entre eles estão a rejeição ao bolsonarismo e a possibilidade de que políticas e benefícios implementados pelo governo federal tenham influenciado a decisão de milhões de eleitores.
O analista destacou que a mobilização em favor do presidente não pode ser explicada exclusivamente pela rejeição ao adversário. Para ele, o volume de votos conquistados por Lula indica que parte significativa do eleitorado também encontrou razões próprias para apoiar sua continuidade no Palácio do Planalto.
“Não é possível que 10 milhões de votos venham para alguém sem que essa pessoa tenha, pelo menos, despertado no eleitorado uma vontade de votar nele. Vamos ter que analisar o quanto aquele pacote de benesses, que havia aprovação mas que parecia não virar voto, o quanto aquilo de fato virou voto mesmo. Pode ser efeito disso e a gente não conseguiu captar”, explicou.
A hipótese levantada por Soller é que medidas governamentais anteriormente bem avaliadas pela população, mas sem uma correspondência clara nas intenções de voto, possam ter adquirido maior peso na reta final da campanha.
O especialista, no entanto, ressaltou que ainda será necessário aprofundar as análises para determinar a contribuição de cada fator para o resultado. A influência das políticas governamentais, portanto, permanece como uma hipótese a ser investigada, e não como uma explicação definitiva para a mudança eleitoral.
Outro elemento destacado pelo analista foi a elevada rejeição a Flávio Bolsonaro. Segundo Soller, desde o início das projeções, os cenários indicavam que o presidente Lula teria suas melhores possibilidades de reeleição justamente em uma disputa direta contra o senador do PL.
Na avaliação do especialista, a resistência de parte do eleitorado ao bolsonarismo, associada à percepção positiva de medidas do governo, pode ter contribuído para a concentração dos novos votos no presidente.
Lula reverteu vitória de Flávio Bolsonaro em 213 municípios
A mudança no comportamento dos eleitores também ficou evidente na distribuição geográfica dos resultados. Lula venceu no segundo turno em 213 municípios nos quais Flávio Bolsonaro havia obtido mais votos na primeira etapa da eleição, realizada em 4 de outubro.
As viradas ocorreram em cidades de 18 estados brasileiros, incluindo duas capitais: Rio de Janeiro e Macapá.
Minas Gerais concentrou o maior número de municípios que passaram a registrar vantagem para Lula, com 76 localidades. São Paulo apareceu na segunda posição, com 33 municípios, seguido por Paraná, com 20, Rio Grande do Sul, com 19, Goiás, com 14, e Tocantins, com 12.
A distribuição dessas viradas demonstra que a recuperação eleitoral do presidente não ficou restrita a uma única região do país. O avanço ocorreu em diferentes estados e incluiu municípios que haviam dado vantagem ao candidato do PL apenas três semanas antes.
Lula conquista quarto mandato com mais de 64 milhões de votos
No resultado nacional, Lula foi reeleito presidente da República no domingo (25), com 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos. Flávio Bolsonaro recebeu 59.826.041 votos, correspondentes a 48,21%.
A diferença entre os candidatos foi de 4.430.191 votos, consolidando a vitória do petista após uma disputa marcada pelo equilíbrio e pela mudança de posição entre os dois turnos.
Na primeira votação, Flávio Bolsonaro havia liderado a corrida presidencial, com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula alcançou 45,16%. O resultado representava uma vantagem inicial de 1,87 ponto percentual para o senador.
No segundo turno, o presidente conseguiu inverter esse cenário e terminar a disputa com uma vantagem de 3,58 pontos percentuais.
https://www.brasil247.com/brasil/lula-conquistou-71-dos-novos-votos-no-segundo-turno/
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