
Quem viaja com frequência para destinos na África Oriental invariavelmente acaba voando com a Ethiopian Airlines. A companhia aérea estatal é hoje a maior e mais eficiente de todo o continente africano, transformando o aeroporto de Bole, em Adis Abeba, em um gigantesco centro de conexões globais.
Depois de inúmeras passagens pelo terminal apenas em trânsito, finalmente tive a chance de cruzar as portas e explorar a capital. Na minha última viagem, voando do Kilimanjaro em direção a Porto, em Portugal, a Ethiopian me concedeu um stopover gratuito com hospedagem no Hotel Skyview — um empreendimento luxuoso da própria companhia aérea. Para conexões rápidas, o visto não é exigido na saída temporária. Fiquei empolgado: conhecer a Etiópia era um sonho antigo.
O hotel fica tão perto do terminal que daria quase para ir a pé, mas peguei o shuttle da empresa. E logo nos primeiros minutos fora da zona aeroportuária, veio o primeiro choque: ruas surpreendentemente limpas, trânsito organizado e uma profusão de edifícios novos e arrojados erguendo-se contra o céu. Deixei a bagagem no quarto e saí para a rua disposto a devorar a cidade.
O encontro com Lucy
Tomei um táxi e fui direto ao Museu Nacional da Etiópia. Meu objetivo primordial tinha nome e milhões de anos de idade: Lucy.
Como contei no [artigo anterior da nossa série, sobre o berço da humanidade no Rift Valley], Lucy é o célebre fóssil de Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos descoberto na depressão de Afar, no norte do país, em 1974. Embora o que fique exposto para o público seja uma réplica científica perfeita (os ossos originais são guardados em um cofre especial do museu), estar diante daquele esqueleto bípede minúsculo é uma experiência comovente. Foi ali, nas galerias daquele museu, que registrei as imagens que ilustraram minha última coluna sobre nossos ancestrais primordiais.
A metrópole vista do alto: números e contrastes
Do museu, pedi ao motorista para subir em direção a um dos mirantes da cidade, nas encostas do Monte Entoto. Lá de cima, a mais de 2.600 metros de altitude (o que faz de Adis Abeba uma das capitais mais altas do mundo), descortina-se uma metrópole vertiginosa.
Adis Abeba abriga cerca de 5,5 milhões de habitanes (e supera os 8 milhões em sua área metropolitana). É o coração diplomático da África por sediar o imponente quartel-general da União Africana e a Comissão Econômica das Nações Unidas para a África. Nas últimas duas décadas, o país registrou taxas de crescimento econômico na casa de dois dígitos, impulsionadas por investimentos pesados em infraestrutura, ferrovias elétricas ligando o país ao porto de Djibuti e um metrô de superfície construído em tempo recorde.
O contraste visual com capitais ocidentais é chocante: não me lembro de ver no Brasil — e em quase nenhuma metrópole da América Latina — uma renovação urbana tão rápida, vertical e vibrante.
O Marco Zero e o ritual do café original
Seguimos para o Marco Zero da cidade. Estacionamos o carro e caminhamos a pé pela praça e pelas avenidas recém-reformadas, com calçadas largas, paisagismo impecável e um grande monumento recentemente inaugurado, celebrado pela população local.
Dali, caminhamos até uma cafeteria tradicional para o momento mais sagrado do cotidiano etíope: a cerimônia do café.
A Etiópia não é apenas uma grande produtora de grãos; ela é o berço biológico e histórico da planta do café (Coffea arabica). Conta a lenda que, nas florestas da região de Kaffa, o pastor Kaldi percebeu que suas cabras ficavam saltitantes e cheias de energia após mastigarem certas frutinhas vermelhas de um arbusto silvestre. Monges locais começaram a ferver os frutos para criar infusões que os mantivessem despertos durante as orações noturnas, e o resto é história.
Tomar o café etíope no local de origem — torrado na hora, servido em pequenas xícaras de porcelana acompanhado pelo aroma suave de incenso queimando na mesa — é um espetáculo à parte. O sabor é frutado, limpo, de acidez delicada e completamente diferente de qualquer café industrializado.
Fé milenar: entre a cruz e o crescente
O giro pela cidade ainda incluiu uma passagem pela Catedral da Santíssima Trindade e pela grandiosa Catedral de Medhane Alem, uma das maiores igrejas ortodoxas do continente.
A Etiópia é uma tapeçaria religiosa singular: quase 60% da população é cristã (com esmagadora maioria pertencente à Igreja Ortodoxa Tewahedo Etíope) e cerca de um terço professa o Islã, convivendo em relativa harmonia histórica. O cristianismo etíope é um dos mais antigos do planeta, adotado formalmente pelo Reino de Axum ainda no século IV (por volta de 330 d.C.), muito antes de boa parte da Europa se converter.
Essa herança espiritual atinge seu ápice em Lalibela, no norte montanhoso do país — a célebre «Jerusalém Negra» com suas onze igrejas monolíticas medievais esculpidas diretamente no interior da rocha basáltica viva. Um conjunto arquitetônico considerado uma das grandes maravilhas da história humana, que continua no topo da minha lista de expedições futuras.
Uma visão de Dubai e a dura realidade política
Ao entardecer, retornei ao hotel cruzando avenidas iluminadas por letreiros de LED, hotéis cinco estrelas e fachadas envidraçadas refletindo a noite. O visual me remeteu de imediato a cidades progressistas e ultratecnológicas do Oriente Médio, como Doha ou Dubai. Parecia uma África que encontrou a chave da prosperidade e do futuro.
Retornei ao aeroporto e embarquei rumo a Portugal para encerrar minha temporada africana de 2026. Mas o choque veio assim que pousei na Europa: os noticiários locais traziam manchetes alarmantes sobre a união de diferentes grupos rebeldes armados em ofensivas militares para tentar derrubar o primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed, reacendendo as tensões étnicas e regionais que já haviam devastado a região do Tigré poucos anos atrás.
VEJA MAIS: Entenda o conflito na Etiópia que ameaça o Nordeste da África
A constatação é dolorosa: como uma cidade pôde se transformar e se sofisticar urbanisticamente com tanta rapidez, enquanto as estruturas institucionais do país permanecem em um equilíbrio tão frágil?
Até onde irá essa nova espiral de violência? Será que os conflitos armados vão consumir, mais uma vez, o progresso e o dinamismo econômico que tiraram milhões de pessoas da miséria? É profundamente triste testemunhar como, na história da África, a prosperidade parece ser repetidamente sabotada e interrompida por guerras civis e disputas de poder.
Voltei para casa encantado com a riqueza cultural etíope e sabendo exatamente quais roteiros quero percorrer no país no futuro. Mas, infelizmente, resta a incerteza de quando será possível tirar esses planos do papel com a devida segurança. Resta torcer para que a terra de Lucy e da rainha de Sabá encontre na paz a estabilidade que seu povo e sua história tanto merecem.
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