

Caroline Bezerra, psicóloga, mestra em Psicologia, pós-graduada em Saúde Mental e em Gestão de Pessoas, coordenadora e professora do curso de Psicologia da FAESA Centro Universitário.
“E se eu não passar?” Às vésperas do Enem, essa pergunta pode carregar muito mais do que a preocupação com uma nota. Para alguns estudantes, ela significa: “Vou decepcionar meus pais?”, “Vou ficar para trás em relação a meus amigos?” ou “O que vão pensar de mim?”. Entre conteúdos, simulados e escolhas profissionais, surge uma tarefa silenciosa: corresponder às expectativas de todos.
Ter expectativas faz parte da construção do futuro. O problema aparece quando a aprovação deixa de ser um objetivo e passa a ser uma condição para sentir orgulho de si ou merecer o reconhecimento de outras pessoas. Nesse cenário, uma prova ganha o peso de definir quem o estudante é e quanto ele vale.
A cobrança nem sempre é clara ou chega em forma de crítica. Ela pode estar em frases aparentemente motivadoras, como “Você sempre foi tão inteligente, vai passar com certeza” ou “Depois de todo o nosso esforço, agora só depende de você”. Mesmo quando expressam confiança, essas mensagens podem ser recebidas como uma obrigação de acertar. Para quem já está inseguro, o incentivo se transforma em uma dívida emocional.
A comparação também ocupa espaço nessa rotina. O número de acertos do colega, as horas de estudo divulgadas nas redes sociais e as histórias de aprovação podem produzir a impressão de que todos estão preparados, menos quem observa. Mas trajetórias diferentes não cabem na mesma régua. Condições de estudo, recursos, responsabilidades e oportunidades também participam desse processo.
É preciso reconhecer que o ingresso no ensino superior representa, para muitas famílias, uma possibilidade concreta de transformação de vida, por isso, dizer apenas que “é só uma prova” pode diminuir a importância desse momento. O desafio é sustentar duas ideias ao mesmo tempo: o resultado importa, mas não resume a capacidade, a trajetória nem as possibilidades de uma pessoa.
Para as famílias esse cuidado pode começar pela maneira de conversar. Perguntar “Como você está vivendo essa fase?” abre um espaço diferente de perguntar apenas “Quanto você acertou?”. Escutar antes de aconselhar, combinar expectativas e demonstrar que o afeto permanece independentemente do resultado ajudam a construir uma relação em que o estudante pode falar também de suas dificuldades.
As escolas têm um papel igualmente importante. Preparar para o Enem envolve ensinar conteúdos e estratégias, mas também cuidar das mensagens transmitidas sobre sucesso e fracasso. Simulados podem orientar a aprendizagem quando seus resultados ajudam a identificar o que precisa ser trabalhado, mas quando se tornam instrumentos de exposição ou comparação constante podem reforçar a sensação de inadequação. Valorizar avanços e apresentar diferentes caminhos de formação amplia a perspectiva de futuro.
Aos estudantes, cabe um exercício difícil, mas necessário: reconhecer a diferença entre assumir responsabilidade pela preparação e tentar controlar todas as variáveis do resultado. Organizar uma rotina possível, preservar o descanso e buscar apoio são partes desse compromisso. Estudar não exige transformar cada pausa em culpa e nem abandonar tudo o que dá sustentação à vida.
A escolha de uma profissão e o ingresso na universidade fazem parte de uma trajetória que continuará sendo construída. Há espaço para novas tentativas, mudanças de direção e descobertas que hoje ainda não podem ser previstas.
Famílias e escolas podem ajudar a transmitir uma mensagem essencial: “Nós reconhecemos seu esforço e estaremos aqui para pensar os próximos passos com você”. Preparar alguém para o futuro também é ajudá-lo a enfrentar resultados difíceis sem perder o respeito por si. A aprovação pode abrir uma porta, mas o valor de uma pessoa não depende de atravessá-la na primeira tentativa.

https://www.folhavitoria.com.br/cultura/comportamento/enem-quando-o-medo-de-decepcionar-pesa-mais-que-a-prova/
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