
Nikolas Ferreira (PL) recebeu mais de 3,1 milhões de votos e foi o deputado federal mais votado do país. Lucas Pavanato (PL) veio logo atrás, com pouco mais de 3 milhões em São Paulo. Erika Hilton (PSOL) teve cerca de 1,6 milhão e tornou-se a mulher mais votada da história para a Câmara.
Em Pernambuco, Jones Manoel (PSOL), que ganhou projeção como comunicador político na internet, teve quase 250 mil votos. Em Minas Gerais, Ana Elisa (PT), de 21 anos, somou mais de 520 mil, atrás só de Nikolas. Na Assembleia paulista, Eduarda Campopiano (PL), de 23 anos, recebeu quase 2 milhões de votos, cerca de três vezes o total do segundo colocado, Eduardo Suplicy (PT).
Ideologia, origem e estilo separam esses nomes, mas algo os aproxima. São o que se pode chamar de políticos-plataforma, figuras que acumulam as funções de representante, comunicador, produtor de conteúdo e gestor de uma comunidade própria, mobilizável e sempre conectada. Todos chegaram às urnas por partidos e vão somar, em Brasília, as articulações de sempre a um recurso que poucos antecessores tinham, uma audiência que os elegeu e que seguirá mobilizada ao longo do mandato. Lula, Fernando Henrique, Serra e Alckmin chegaram ao topo por caminhos muito diferentes, sempre com o partido, os sindicatos, as alianças regionais, o horário eleitoral e a grande imprensa entre eles e o eleitor. Os eleitos de 2026 são, eles mesmos, veículos de comunicação.
A ascensão do político-plataforma
Segundo o DataSenado, 54% dos brasileiros têm os meios digitais como principal fonte de notícias, contra 37% que citam a TV. O Digital News Report 2026, do Reuters Institute, mostra que mais da metade da população global usa redes sociais toda semana para se informar e que 27% consomem conteúdo de criadores ou influenciadores dedicados a notícias. Para muita gente, o celular deixou de ser apenas o canal por onde a política chega e virou o lugar onde ela acontece.
Bernard Manin já descrevia, nos anos 1990, a passagem de uma democracia de partidos para uma democracia de público, em que imagem e comunicação ganham peso à medida que as identidades partidárias se enfraquecem. As plataformas levaram esse movimento adiante. O político-plataforma tem audiência própria e permanente, que não depende do calendário eleitoral nem da boa vontade da imprensa.
Seguidor não é sinônimo de eleitor, mas essa comunidade se converte em visibilidade, poder de agenda, arrecadação e, em algum momento, votos. O caso de Campopiano, que esteve entre os jovens candidatos mais engajados da campanha, mostra que esse capital também encurta etapas que antes exigiam anos de partido ou de cargo.
Engajamento, emoção e confronto
As redes são orientadas pelo engajamento, e isso muda o que entra no debate público. Nem todo tema relevante tem apelo, e o discurso que busca alcance precisa de um enquadramento específico. William Brady, Jay Van Bavel e colegas mostraram, em estudo de 2017, que cada palavra de conteúdo moral-emocional em uma postagem aumentava em cerca de 20% seu compartilhamento, sobretudo entre usuários da mesma orientação ideológica. Os autores chamaram o efeito de contágio moral.
Isso cria um incentivo que merece atenção. Mensagens que discutem soluções tendem a circular menos do que as que contrapõem adversários e dialogam com quem já concorda. Em um ambiente que valoriza a atenção, conflito, emoção e simplificação costumam ter mais alcance, e quem domina essa linguagem tende a se destacar, à direita ou à esquerda.
Desconfia-se das instituições, não do representante
Os dados de confiança ajudam a entender por que essa linguagem encontra eco. No Edelman Trust Barometer 2026, o índice de confiança dos brasileiros em empresas, governo, mídia e ONGs subiu de 51 para 56 pontos em um ano, mas o governo segue em zona de desconfiança, com 45%. O dado mais revelador diz respeito às pessoas. Enquanto 54% confiam nos políticos em quem votaram, apenas 42% confiam nas autoridades em geral. A desconfiança recai sobre a instituição, não sobre o representante escolhido.
A pesquisa mostra ainda que a parcela de brasileiros que procura toda semana fontes de orientação política diferentes da sua caiu oito pontos em um ano, e que 59% sentem ressentimento moderado ou alto, com a percepção de que o sistema serve a poucos e favorece quem já é rico.
Nada disso transforma eleitores em antidemocratas, mas acende um alerta. Quando parte do país deixa de ver as instituições como árbitros confiáveis e passa a confiar apenas no seu político, discursos de exceção e de ruptura ganham terreno. Em uma sociedade polarizada, o eleitor tende a perdoar no próprio campo o que condenaria no adversário, e o freio que deveria vir das urnas fica mais fraco.
Quando a audiência encontra a máquina
Seria um erro, contudo, decretar o fim da política tradicional, e Alagoas mostra isso bem. Renan Calheiros (MDB), há mais de três décadas no Senado, perdeu a cadeira para a estreante Marina JHC (PSDB), que se tornou a mulher mais jovem já eleita para o Senado. A campanha dela apostou na comunicação digital e no discurso de renovação, mas contou com a força do marido, João Henrique Caldas, o JHC (PSDB), eleito governador no mesmo domingo, e com o apoio de Flávio Bolsonaro (PL). E o mais votado foi Arthur Lira (PP), símbolo da política feita de articulação, emendas e poder territorial.
O poder político ficou ainda mais multifatorial. Partido, prefeitos, emendas e alianças continuam pesando, mas audiência, linguagem digital e capacidade de gerar atenção, que sempre tiveram valor, tornaram-se centrais e passaram a funcionar como capital próprio. A política brasileira sempre foi personalista, e as plataformas tornaram esse personalismo escalável. Quem antes construía reconhecimento cidade por cidade hoje forma uma comunidade nacional antes de ter uma organização à altura. A audiência vem antes da máquina e, passada a eleição, ajuda a montá-la.
Há, porém, um descompasso entre o que esse ambiente recompensa e o que a sociedade espera. No Edelman Trust Barometer 2026, 83% dos brasileiros consideram eficaz que o governo evite discursos que culpem ou difamem grupos, e 78% que ele exija dos políticos um debate civilizado. Para 79%, o governo tem a obrigação de reduzir divisões, mas só 30% acham que ele cumpre esse papel. O ecossistema digital premia o antagonismo que a sociedade pede às instituições para conter.
Entre a accountability e a captura do capital político
A tendência é que esse modelo se aprofunde à medida que os quadros políticos se renovem. Os eleitos de 2026 chegam ao Legislativo com o hábito de falar todos os dias com uma audiência que comenta, questiona e compartilha. A mesma conexão que mobiliza pode servir para fiscalizar.
Quando o parlamentar grava vídeos sobre cada votação e responde a seguidores, a distância entre discurso e prática fica mais visível. Um voto que contradiz o que foi dito na véspera deixa rastro e circula entre os próprios apoiadores. Se a sociedade aproveitar essa proximidade, haverá espaço para mais cobrança e mais accountability, o que pode ser positivo para a modernização da representação política.
O risco está no lado oposto. A conexão só vira controle se houver quem acompanhe. Sem um eleitorado atento ao que os parlamentares votam, propõem e entregam, a audiência digital pode se tornar apenas mais uma forma de captar capital político, em que o engajamento substitui o resultado.
O primeiro turno de 2026 não marca o desaparecimento do político tradicional, mas a plataformização do personalismo brasileiro. A audiência digital virou uma forma de capital político capaz de competir com partido, território e máquina eleitoral, e cada vez mais de se combinar com eles. Caberá às próximas legislaturas mostrar se essa mudança altera apenas o caminho até o poder ou também a maneira de exercê-lo.
BRADY, William J.; WILLS, Julian A.; JOST, John T.; TUCKER, Joshua A.; VAN BAVEL, Jay J. Emotion shapes the diffusion of moralized content in social networks. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 114, n. 28, p. 7313–7318, 2017. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1618923114.
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https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/das-redes-as-urnas-o-que-o-1o-turno-revela-sobre-a-representacao-politica
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