
A luta contra os aluguéis altos e a carestia em Portugal reuniu acampadas e marchas de milhares de pessoas, aproximando o movimento por moradia das mobilizações dos trabalhadores. A acampada do Porto começou em 10 de outubro, na Praça Dom João I; em Lisboa, as tendas foram erguidas no Rossio no dia 17. Em 18 de outubro, os manifestantes mantinham as ocupações nas duas cidades, apesar da repressão do velho Estado, e a assembleia popular de Lisboa aprovou articular ações com o Porto e apelar às centrais sindicais pela convocação de uma greve geral ibérica em 11 de novembro.
O apelo à paralisação ibérica foi aprovado por unanimidade em Lisboa. A assembleia também decidiu realizar reuniões diárias às 19h e voltar à praça no dia seguinte caso a polícia retire os manifestantes. A proposta amplia uma mobilização que, no sábado, 17 de outubro, levou milhares às ruas de Lisboa, Porto e Coimbra por melhores salários, aposentadorias, serviços públicos e moradia, com protestos também em Faro e Funchal.

Acampadas ligam a luta por moradia às reivindicações dos trabalhadores
Em Lisboa, o acampamento começou na tarde de 17 de outubro, depois da manifestação da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP). Um “chaveiraço”, com chaves agitadas no ar, marcou a instalação das tendas no Rossio. A assembleia reuniu centenas de participantes; durante a madrugada, manifestantes formaram um cordão humano e permaneceram no local.
Entre as seis exigências aprovadas estão a reversão da nova lei do arrendamento, a legislação dos aluguéis; o fim dos despejos e das demolições sem alternativa de moradia; limites à compra de casas por fundos imobiliários; ampliação da habitação pública; recuperação de imóveis vazios para moradia; e tetos acessíveis para os aluguéis. A plataforma confronta a transformação da moradia em negócio de grandes proprietários e investidores.
No Porto, a assembleia de 17 de outubro decidiu voltar a montar tendas e manter a mobilização para além do dia 20, caso não haja mudanças. Durante a madrugada de domingo, centenas de pessoas permaneceram na praça. Pela manhã, os participantes organizaram a limpeza do local, a coleta de materiais recicláveis para ajudar na compra de alimentos e a distribuição de refeições.
A participação dos ativistas da moradia na marcha sindical do Porto foi recebida com aplausos. A porta-voz Cristiana Leal definiu a semana de protestos como o “despertar de um povo”. “Isto não é uma luta só do Porto, isto é uma luta do país inteiro”, afirmou à Lusa.
Uma semana de ocupação e organização popular no Porto
O acampamento começou em 10 de outubro, sob o chamado “Não consegues pagar renda? Então monta a tua tenda”. Os participantes instalaram cerca de 40 tendas diante do Teatro Rivoli e criaram, em assembleia, grupos de comunicação, limpeza e logística, além de um espaço para alimentação. As decisões sobre a continuidade do protesto passaram a ser tomadas coletivamente.
A revista Nova Aurora, órgão da imprensa popular e democrática em Portugal, acrescenta que a instalação do acampamento ocorreu depois de uma marcha em defesa da Resistência Nacional Palestina, da Praça dos Poveiros à Praça Dom João I, seguida de uma concentração contra o custo de vida.
Em 12 de outubro, a Polícia Municipal retirou as tendas, mas os manifestantes continuaram na praça, dormindo ao relento. Na noite de 14 de outubro, uma assembleia com mais de 500 pessoas decidiu voltar a erguer o acampamento. O porta-voz Pedro Manuel anunciou a instalação de cerca de 60 tendas e a disposição de ampliar a mobilização para outras cidades.
O ataque da Polícia de Segurança Pública (PSP) ocorreu por volta das 3h da madrugada de 15 de outubro. O movimento denunciou inicialmente 37 feridos e atualizou o balanço para 39, dois deles em estado grave. Entre os atingidos está uma pessoa com deficiência.

Naquela mesma noite, cerca de 2,5 mil pessoas retomaram a Praça Dom João I e marcharam até a prefeitura. O cortejo ocupou parte da Rua Passos Manuel, chegou aos degraus do prédio municipal e voltou à praça para uma assembleia, entre palavras de ordem como “A rua é nossa” e “O Porto é nosso”.
“A causa é mais forte”, disse à Lusa a manifestante Mariana, que voltou com amigos e com “mais sede de revolução”, depois de participar do protesto atacado pela polícia. “Todas as pessoas no mundo merecem um teto digno”, afirmou.
Na madrugada de 16 de outubro, a organização encerrou a concentração depois de denunciar a presença de pessoas que pretendiam provocar tumultos. A retirada foi seguida por novos chamados à mobilização e pelo retorno das tendas no dia 17. No balanço do Comitê de Apoio – Norte publicado pela Nova Aurora, a continuidade da luta expressa a disposição dos participantes de aprimorar sua organização diante dos ataques do velho Estado.
Emprego não garante saída da pobreza
O agravamento dos custos da moradia ajuda a explicar a persistência dos protestos. Destacado pela Nova Aurora, o relatório Pobreza e Exclusão Social em Portugal 2026, da Rede Europeia Anti–Pobreza (EAPN Portugal), mostra que 47,6% dos adultos de 18 a 64 anos em situação de pobreza monetária trabalham. O levantamento utiliza o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2025, relativo aos rendimentos de 2024.
O mesmo estudo registra 1,66 milhão de pessoas em situação de pobreza monetária, com renda disponível inferior a 723,25 euros mensais por adulto equivalente. Quando descontadas as despesas com habitação, a proporção de pessoas abaixo da linha de pobreza passa de 15,4% para 26,8% – mais de um quarto da população.
A alta dos aluguéis amplia a pressão sobre quem vive do próprio trabalho. No segundo trimestre de 2026, o valor mediano dos novos contratos aumentou 10,2% em relação ao mesmo período de 2025, chegando a 10,17 euros por metro quadrado, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE). Na Grande Lisboa, o valor chegou a 15,24 euros; na Área Metropolitana do Porto, a 10,83 euros.

Governo rejeita os ‘gritos que vêm da rua’
O prefeito havia prometido ser “absolutamente implacável” contra a instalação das tendas. Já o primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu a polícia e pediu aos manifestantes que não fossem “egoístas”. Na convocação para retomar a praça, o movimento respondeu: “Face ao abuso policial, poder popular”.
Em 16 de outubro, o ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, do Partido Social–Democrata (PSD), declarou no Parlamento que o governo “não vai ceder aos gritos que vêm da rua”. A afirmação ocorreu num debate sobre o custo de vida, após o ataque policial à acampada do Porto.
A Nova Aurora denuncia também a tentativa de deslegitimar o conjunto dos protestos a partir de uma declaração isolada de um participante, que falou em atirar um tijolo contra a casa do primeiro-ministro. O jornal questiona a projeção dada ao episódio pelo governo e pela imprensa burguesa, enquanto permanecem sem resposta as reivindicações contra os aluguéis altos, os baixos salários e a deterioração das condições de vida.
De Portugal à Espanha, revolta contra a especulação imobiliária
A mobilização não se limita às duas maiores cidades portuguesas. Segundo a Nova Aurora, a jornada de 10 de outubro já havia reunido protestos em Aveiro, Braga, Lisboa e Porto, convocados pela plataforma “Não dá mais para viver assim”, formada por mais de 30 organizações. As reivindicações abrangem moradia, controle dos preços de bens essenciais e combustíveis e tributação dos lucros extraordinários dos bancos e das grandes empresas de energia e distribuição..
As acampadas portuguesas se inspiram na ocupação da Puerta del Sol, em Madri. A Nova Aurora relaciona a mobilização espanhola ao despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, retirada à força de sua casa em setembro, depois de mais de sete décadas no imóvel. Sua morte, em 7 de outubro, intensificou os protestos. O jornal registra manifestações e acampadas também em Barcelona, Valência e Sevilha.
Na convocação de solidariedade ao Porto, os organizadores de Lisboa afirmaram: “Do Porto a Lisboa, é tempo de transformar a indignação em organização”. A continuidade das acampadas e o apelo por uma paralisação ibérica dão expressão à busca de articulação entre as lutas contra a deterioração das condições de vida.

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