

Quando perdemos um espaço de uso e convívio coletivo, perdemos um pedaço de nós mesmos, enquanto indivíduos. Teatros, museus, bibliotecas, praças, praias, todos eles guardam, no todo, partes de nossa individualidade.
Pense comigo: se eu vou ao teatro assistir a um balé, ainda que eu esteja sozinha, existe algo que me conecta às outras pessoas ali presentes, um fio invisível que circula ainda que a gente não se conheça, ainda que não tenhamos trocado sequer uma palavra.
Essa é uma dimensão da experiência coletiva que modifica a nossa substância – a capacidade de partilhar algo que é da ordem do comum. A arte se encontra nesse cosmos experimental que propõe a jornada, a emoção, a dúvida, o arrepio, o desconforto.
Na semana passada, recebemos a triste notícia do incêndio no Teatro do Sesi, que, felizmente, não deixou feridos. Casa da Camerata Sesi, palco de música, teatro, dança.
A informação que circulou por ali, desde os artistas que performaram ao público que assistiu, ficou impregnada nas paredes, nas cortinas, no teto, no palco, uma energia que sentimos toda as vezes que entramos nesta casa.
A sensação que foi de alguém passa a ser a minha também e essa é a beleza – e importância – dos espaços coletivos de fruição da arte.
Quando um teatro, uma biblioteca, um museu, virá pó, parte de nós também é reduzida a cinzas. Incineradas estão as possibilidades de conexão com a arte e com todas as constelações que circulam ao seu redor e que dão menos utilidade e mais sentido à vida. No caso do Sesi, de certo será por um tempo, pois o teatro voltará.
Gosto de pensar na ideia que essa energia liberada no incêndio não se perdeu. Que ela segue pairando no ar, sobre nossas ruas, praças, sobre outros teatros e museus, animando outras cenas. Para que na hora exata, quando tocar o terceiro sinal, a luz se apagar e as cortinas se abrirem, possamos ser incorporados por ela novamente.
Enquanto isso, permanecemos para prestigiar os espaços de arte que temos e cultivamos essa energia que não cessa, mas que precisa de cada um de nós para se manter em movimento.
https://www.folhavitoria.com.br/cultura/arte/incendio-no-teatro-do-sesi-o-que-perdemos-quando-um-espaco-de-arte-vira-cinzas/
ACERCA DEL CORRESPONSAL
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