
O recado da mobilização é claro: não vamos esquecer o que vocês fizeram no governo passado. Esse alerta precisa chegar a quem ainda não enxergou o que está em jogo em 25 de outubro.
O Brasil enfrenta uma das eleições mais decisivas desde a redemocratização. A escolha do próximo presidente pode fortalecer um projeto de concentração de poder que ameaça o futuro da República.
Parte do eleitorado já despertou. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta quinta-feira, 13 de outubro, mostra que Lula passou de 49% para 57% entre os jovens de 16 a 24 anos, em comparação com o levantamento sobre segundo turno do fim de setembro.
São oito pontos percentuais a mais. No conjunto dos eleitores, Flávio continua numericamente à frente, com 48% contra 45% de Lula. A mobilização é urgente. Os meninos e meninas do Brasil soltaram o grito de guerra. “Vamo pra rua.”
A pesquisa foi realizada entre 10 e 12 de outubro, período em que entidades estudantis organizaram atos na avenida Paulista e em Copacabana. As ruas dão rosto à recusa do retrocesso e aproximam gerações que têm razões profundas para defender a democracia.
Muitos dos jovens que agora se mobilizam ainda eram crianças ou adolescentes quando a pandemia atropelou suas vidas. Viram as máscaras entrarem na rotina, os hospitais lotarem, os tubos de oxigênio faltarem, os enterros em massa, o choro da perda. Carregam a memória das despedidas impossíveis e das famílias enlutadas.
A pandemia de irresponsáveis
A Covid–19 deixou mais de milhares de mortos no Brasil. Ao fim de 2022, quando Jair Bolsonaro encerrou seu governo, o país registrava exatos 693.853 mortes. A tragédia foi agravada pela irresponsabilidade de quem tinha o dever de proteger a população.
Em junho de 2021, quando o país já ultrapassava 500 mil mortos, o epidemiologista Pedro Hallal estimou, em depoimento à CPI da Pandemia, que 400 mil dessas mortes poderiam ter sido evitadas se o Brasil tivesse alcançado a média mundial de enfrentamento da doença. E se tivesse um governo que cumprisse sua missão de proteger a população.
Na mesma CPI, o representante da Pfizer confirmou a demora do governo Bolsonaro nas negociações de vacinas. Ofertas feitas em 2020 ficaram sem resposta. O negacionismo e os atrasos na proteção da população cobraram um preço que as famílias continuam pagando.
Por trás dos números estão pais, mães, filhos, vizinhos e amigos. Pessoas que poderiam estar vivas. Lugares vazios à mesa. A saudade que nenhuma campanha eleitoral consegue apagar.
A memória vem de longe
A memória que chega às ruas em outubro de 2026 vem de mais longe. A ditadura de 1964 a 1985 perseguiu, torturou e matou brasileiros, a maioria jovens na casa dos 20 anos que lutavam pela liberdade. As cicatrizes dessa violência atravessam gerações. Esquecer ajuda quem pretende fazer do autoritarismo uma alternativa aceitável.
Décadas depois, o desprezo pela vida e pela vontade popular reapareceu nas tramas golpistas do governo Bolsonaro 2019 a 2022. A mesma sanha autoritária dos anos1970, que torturou e matou jovens no passado, e a fúria sanguinária que arquitetou o plano “Punhal Verde e Amarelo” para decapitar a democracia, em 2023, prevendo o assassinato do presidente Lula e do vice Alkmin, são as mesmas que ainda tentam se perpetuar na eleição de outubro de 2026.
A ofensiva contra a democracia culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023. Se o golpe desse certo, Lula não estaria aqui em outubro de 2026 disputando a reeleição com o Bolsonaro filho, de prenome Flávio.
Bolsonaro, Nunca mais
Jair Bolsonaro foi condenado pelo STF a 27 anos e três meses de prisão por sua participação na tentativa de golpe. Agora, seu filho e herdeiro político disputa a Presidência assumindo o compromisso de libertar o pai a quem jura “continuar seu legado”.
Em 7 de outubro, Flávio Bolsonaro voltou a anunciar que o pai Jair subiria a rampa do Planalto “para colocar a faixa no filho dele”. O vínculo que importa é político e foi assumido pelo próprio candidato. Flávio apresenta o retorno do pai como parte de sua vitória.
O eleitor tem o direito de perguntar o que acontecerá com as instituições que investigaram, julgaram e condenaram a tentativa de golpe: Depois de tudo o que o país sofreu, vamos entregar a Presidência a quem faz da libertação do condenado uma bandeira de campanha?
É esse projeto de continuidade familiar e impunidade que a juventude tem o direito de recusar. Sua presença nas ruas cobra uma resposta dos adultos. E os tios e tias responderam o apelo dos mais jovens. Estão nas ruas para também afirmar Bolsonaro, nunca mais.
Esta conversa é com você que não gosta de Lula, se decepcionou com o PT, votou em outro candidato, anulou o voto ou deixou de votar no primeiro turno. Sua insatisfação merece ser ouvida. Querer salário melhor, segurança e serviços públicos decentes é um direito. Cobrar o governo é uma obrigação democrática.
O perigo começa quando essa insatisfação é usada para entregar o Estado a um projeto que pode enfraquecer os mecanismos de fiscalização e de alternância no poder.
Dinastia Bolsonaro
No vídeo “Dinastia Bolsonaro: Por que essa eleição é diferente de todas”, Aline Câmara sintetiza o alerta:
“A família Bolsonaro não pode comandar todas as instituições desse país”, como diz que vai fazer o candidato Bolsonaro da vez se for eleito. Nenhuma família pode. Nenhum sobrenome está acima da Constituição.
Depois do primeiro turno, Flávio Bolsonaro falou em usar a vantagem da direita no Congresso para mudar a Constituição e “redemocratizar o país”. Ao explicar a proposta, citou reformas do Judiciário e o fim da reeleição, deixando aberta a possibilidade de mandatos de cinco anos. Essas intenções precisam ser examinadas à luz do compromisso de reabilitar politicamente o pai.
A Constituição exige três quintos dos votos, em dois turnos, em cada Casa, para aprovar emendas. E impede mudanças que visem abolir a separação dos Poderes, o voto periódico e os direitos e garantias individuais. Uma vitória eleitoral não autoriza poder sem controle.
Quando os Poderes deixam de fiscalizar uns aos outros, a corrupção ganha proteção, a oposição perde espaço e o cidadão fica mais vulnerável. Eleições podem continuar existindo enquanto as condições de uma disputa livre são destruídas.
O que está em jogo é também nossa capacidade de escolher novamente. Você pode discordar de Lula hoje e continuar discordando amanhã. Pode denunciar erros, exigir mudanças e construir outra opção política. Para isso, precisa conservar a liberdade de criticar o governo, organizar uma alternativa e substituí-lo pelo voto.
Em 25 de outubro, pense na vida que você quer ter depois da eleição. Pense no direito de discordar sem medo e de mudar o governo sem enfrentar a violência de quem se recusa a sair.
O Brasil não é herança dos Bolsonaro. A República não é negócio de família.
Desperte. Vá votar. Os mortos não podem comparecer às urnas. Nós podemos — e temos o dever de impedir que o esquecimento abra caminho para a repetição da tragédia. Em memória de Rubem Paiva, os meninos e meninas do Brasil, de mãos dadas aos adultos, gritam nas ruas:
Ainda estamos aqui. E não vamos esquecer.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
REDACCIóN CENTRAL
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