
Por Amr Hdiefa (*) – Não acredito que seja possível compreender o confronto em curso entre o Irã e os Estados Unidos apenas por meio da correlação de forças militares, ou reduzi-lo ao conflito em torno do programa nuclear e da influência regional. O que acontece hoje na Ásia Ocidental, a meu ver, ultrapassa os limites dessa região e está relacionado a uma crise histórica mais profunda na estrutura do sistema capitalista mundial e em sua capacidade de reproduzir sua hegemonia. No centro dessa contradição está o Irã, com o qual podemos divergir radicalmente quanto à natureza de seu regime político e à sua estrutura ideológica e social. Essa divergência, porém, não deve nos impedir de reconhecer sua posição objetiva no enfrentamento do projeto imperialista liderado pelos Estados Unidos e seus aliados.
Desde o início, é preciso esclarecer que passar da guerra contra o Irã à discussão sobre o Brasil e a América Latina não significa transitar arbitrariamente entre dois temas separados. A guerra, com seus efeitos sobre a energia, o comércio, as alianças internacionais e a correlação de forças, ocorre dentro de um único sistema mundial, cujas crises se distribuem entre diferentes regiões. O que acontece na Ásia Ocidental pode repercutir na esfera de influência dos Estados Unidos na América Latina, assim como as transformações políticas no Brasil podem afetar a capacidade de Washington de reorganizar sua influência mundial. Portanto, não se trata de uma comparação entre dois casos, mas de uma leitura articulada de uma mesma disputa pela hegemonia, pela soberania e pelos rumos do sistema internacional.
Desde a derrubada do governo de Mohammad Mossadegh, em 1953, com o apoio dos serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido, passando pela Revolução Iraniana de 1979 e chegando às prolongadas sanções, às guerras e às intervenções regionais, a questão iraniana sempre esteve ligada à disputa pela soberania, pelo controle dos recursos e pela posição da região na divisão internacional do trabalho. A importância do Irã para Washington não decorria tanto da natureza ideológica de seu regime, mas de sua posição estratégica, de suas riquezas e de sua capacidade de influenciar as rotas mundiais de energia e comércio. Por isso, considero que a hostilidade dos Estados Unidos ao Irã não pode ser explicada apenas pela contradição entre o liberalismo político e o islã político. Caso contrário, Washington não teria conseguido estabelecer estreitas alianças estratégicas com outros regimes religiosos e conservadores da região.
Aqui surge a questão que considero central: o Irã de hoje, independentemente da avaliação ideológica de seu regime, constitui objetivamente uma das grandes frentes da luta contra a hegemonia dos Estados Unidos, o que confere à sua resistência uma dimensão ligada à luta de libertação nacional no Sul Global. Essa posição, porém, não transforma automaticamente o regime iraniano em um projeto socialista ou de emancipação social, nem elimina suas contradições de classe. A posição diante do imperialismo é uma coisa; a posição diante da natureza do poder e das relações sociais e econômicas no interior do Estado é outra. Confundi-las conduz tanto a uma justificação acrítica do poder iraniano quanto à negação do papel objetivo que ele desempenha no enfrentamento da hegemonia externa.
De uma perspectiva materialista histórica, não vejo nessa contradição algo excepcional. O século XX conheceu movimentos de libertação nacional liderados por forças burguesas, nacionalistas ou religiosas, sem que isso impedisse seu confronto com projetos de dominação colonial e imperialista. A experiência da nacionalização do Canal de Suez, em 1956, por exemplo, mostra como um projeto nacional não socialista pode entrar em confronto direto com os interesses das potências imperialistas. A história, porém, também nos ensina que a independência política, por si só, não garante a emancipação econômica e social, e que as burguesias nacionais podem estabelecer novos compromissos com o capital global quando mudam as condições da luta.
No caso iraniano, essa dualidade se manifesta em uma estrutura econômica que reúne instituições estatais, capital comercial e financeiro, instituições econômicas vinculadas aos centros de poder e o setor privado, diante de classes trabalhadoras e populares que suportam o peso das sanções, da inflação e da guerra. É um erro considerar que os interesses dessas forças sejam idênticos. A resistência à pressão externa pode expressar um interesse nacional geral na preservação da soberania, mas não elimina a luta interna pela distribuição da riqueza e do poder. A libertação nacional, se não avançar em direção à emancipação social, permanece sujeita à reprodução das relações de exploração em um quadro nacional politicamente independente.
No plano mundial, o confronto com o Irã revela os limites da própria força militar dos Estados Unidos. Os Estados Unidos podem provocar uma destruição extensa da infraestrutura iraniana, mas não necessariamente conseguem converter essa superioridade destrutiva em resultados políticos estáveis. Essa não é uma questão técnica relacionada ao número de mísseis e aeronaves, mas uma contradição entre a capacidade de exercer coerção e a capacidade de produzir uma ordem política regional sustentável. As experiências do Iraque e do Afeganistão mostraram que derrubar governos ou ocupar territórios não significa necessariamente ser capaz de construir uma hegemonia estável ou alcançar os objetivos políticos declarados.
Essa questão adquire maior importância diante da posição iraniana na economia mundial. O Estreito de Ormuz não é apenas uma passagem marítima, mas um dos pontos sensíveis de conexão entre a produção de energia, o comércio, a indústria, o transporte e as finanças mundiais. Qualquer perturbação prolongada nessa região repercute nos preços da energia, nos custos de produção e transporte e nos níveis de inflação, chegando, por meio dos mercados, às classes trabalhadoras de países sem relação direta com a guerra. Aqui se revela a natureza de classe da crise: as decisões estratégicas são tomadas pelos Estados e pelos centros do capital e do poder militar, enquanto os povos arcam com grande parte de seus custos econômicos e humanos.
Acredito, porém, que nos limitarmos a esses resultados nos levaria novamente a interpretar a crise como mais uma perturbação periódica no movimento da acumulação capitalista. O que desejo enfatizar é que o capitalismo mundial enfrenta contradições estruturais que ultrapassam os ciclos de recessão e recuperação: a expansão contínua da acumulação de capital diante dos limites dos mercados e da demanda social, o aprofundamento da concentração e do monopólio, a ampliação do papel do capital financeiro, o agravamento do endividamento e a contradição entre o caráter mundial da produção e o caráter nacional do Estado que protege as condições de acumulação. A isso se somam a crise ambiental e os limites do crescimento baseado no consumo crescente de recursos naturais.
Essas contradições não significam que o colapso do capitalismo seja inevitável amanhã, ou que ele tenha perdido a capacidade de desenvolver suas forças produtivas. Significam, antes, que sua continuidade exige a reprodução de condições econômicas, políticas e sociais cada vez mais contraditórias e custosas. É a partir disso que interpreto a intensificação do militarismo e a disputa pelas rotas comerciais, pelos recursos e pelas cadeias de suprimentos: não como simples escolhas pessoais desta ou daquela administração dos Estados Unidos, mas como fenômenos ligados à disputa pela reorganização das condições de acumulação e hegemonia em uma etapa histórica na qual a unipolaridade enfrenta desafios crescentes.
Nesse contexto, as relações do Irã com a China e a Rússia, assim como sua adesão à Organização de Cooperação de Xangai e ao BRICS, adquirem um significado que ultrapassa a cooperação diplomática. Elas indicam a ampliação das margens de atuação de Estados que procuram reduzir sua dependência das instituições e dos canais dominados pelas potências ocidentais. Ainda assim, não se deve confundir multipolaridade com emancipação em relação ao capitalismo. China, Rússia e Irã atuam segundo interesses internacionais e de classe específicos, que podem entrar em conflito com as aspirações de seus próprios povos. O enfraquecimento do monopólio ocidental sobre as decisões internacionais pode abrir novas possibilidades históricas, mas não produz, por si só, um sistema mundial mais justo.
Por isso, não considero que a verdadeira questão hoje seja saber se o Irã é capaz de derrotar militarmente os Estados Unidos no sentido tradicional. A questão mais importante é saber se o poder dos Estados Unidos ainda consegue impor sua vontade política a um custo suportável e reproduzir uma ordem regional baseada na aceitação das forças locais e na estabilidade das relações de produção, comércio e energia. Uma guerra que produz grandes resultados destrutivos, mas não consegue impor uma solução política estável, pode revelar os limites da hegemonia em vez de confirmar sua força.
Chego aqui a uma conclusão que considero necessária: defender o direito do Irã à soberania e ao enfrentamento da agressão externa não exige defender a natureza de seu regime político ou suas contradições de classe. Da mesma forma, a crítica a esse regime não deve se transformar em uma justificativa para a intervenção imperialista ou em uma negação do direito do povo iraniano de determinar seu destino livre da coerção externa.
A importância do Irã no momento atual não decorre de ele representar um modelo social a ser generalizado, mas de sua posição em uma contradição mundial mais ampla. Se a libertação nacional constitui uma das condições da emancipação social, ela não representa seu ponto final. Por isso, a luta contra o imperialismo não se completa com a simples mudança da correlação de forças entre os Estados, mas exige também transformar as relações sociais que produzem a dependência e a exploração dentro dos Estados e entre eles.
A crise histórica do capitalismo não se resolve com um míssil, com a queda de um governo ou com a simples transferência do centro de poder do Ocidente para o Oriente. Ela se resolve, caso existam as condições para sua superação, quando as forças sociais capazes de construir relações de produção e de poder diferentes se tornam um sujeito histórico organizado.
A partir disso, é possível compreender a ligação com o Brasil e a América Latina. A guerra contra o Irã não ocorre no vazio, e seus efeitos não se limitam à Ásia Ocidental. Ela faz parte de uma disputa mais ampla pela redistribuição do poder no sistema mundial e pela capacidade dos Estados Unidos de preservar sua influência em regiões que consideram sua esfera de interesse vital. Por sua vez, as transformações políticas no Brasil não representam apenas uma questão eleitoral interna, mas estão relacionadas à posição do maior país da América do Sul na disputa entre dependência e independência, entre o restabelecimento da hegemonia dos Estados Unidos e a abertura de um espaço mais amplo para a atuação e a cooperação dos países do Sul.
Por isso, a discussão sobre o Brasil ao final deste artigo não é um acréscimo externo ao tema da guerra, mas uma consequência direta dele. Se Washington enfrenta desafios na Ásia Ocidental, no Leste Europeu e nos oceanos Índico e Pacífico, buscará consolidar sua esfera mais próxima na América Latina nos planos político, econômico e de segurança. Isso pode assumir a forma de apoio direto ou indireto às forças de direita, de pressão sobre governos que ampliam suas relações com a China e a Rússia, ou de reinserção da região em cadeias de suprimentos e financiamento que atendam aos interesses dos Estados Unidos. Nesse processo, o Brasil pode se tornar um cenário central da disputa entre um projeto que devolve o continente à condição de subordinado na esfera de influência dos Estados Unidos e outro que busca maior independência estratégica, integração regional e multipolaridade internacional.
Nesse quadro, a transformação política no Brasil, ou a ascensão da direita na América Latina, não deve ser interpretada em termos eleitorais estreitos, nem por meio de conceitos liberais que se limitam a falar de polarização, cultura e identidade. A questão também envolve a estrutura de classes da sociedade: a crise de setores da burguesia local, os interesses do capital agrário, financeiro e industrial, a relação dessas forças com os centros imperialistas e a incapacidade de setores da esquerda de oferecer uma alternativa que vá além da gestão da pobreza e do desemprego dentro dos limites do sistema capitalista. Quando as crises sociais se aprofundam, a direita consegue converter o medo e a revolta em um discurso sobre segurança, ordem e disciplina, ao mesmo tempo que oculta as raízes da crise na propriedade, na distribuição da riqueza e nas relações de dependência.
A relação entre a guerra contra o Irã e o futuro do Brasil, porém, não é de influência em uma única direção. Os resultados da guerra afetarão os preços da energia e dos alimentos, a inflação, as cadeias de suprimentos e a capacidade dos governos de financiar suas políticas sociais. Esses fatores podem fornecer à extrema direita material político adicional para intensificar seu discurso sobre segurança, imigração e ordem, ou, em sentido contrário, abrir espaço para a crítica à dependência militar e econômica em relação aos Estados Unidos. Da mesma forma, a vitória de Washington ou sua incapacidade de impor uma solução estável modificará a percepção do poder dos Estados Unidos no Sul Global, afetando a margem de atuação do Brasil no BRICS e em suas relações com a China e a Rússia.
No sentido inverso, o próprio futuro do Brasil pode influenciar os resultados da disputa mundial. Se o país caminhar para um governo mais estreitamente vinculado ao projeto dos Estados Unidos, poderá oferecer a Washington uma importante base política e econômica para reativar a Doutrina Monroe e conter qualquer tendência latino-americana à independência. Se, por outro lado, mantiver uma política externa multidirecional, ampliar sua cooperação com os países do Sul, defender soluções negociadas e rejeitar a lógica das sanções e das guerras, poderá limitar a capacidade dos Estados Unidos de transformar uma vitória militar no Irã em uma reconstrução abrangente de sua hegemonia mundial. Por isso, a disputa pelo Brasil não está separada da disputa pelo Irã, mas se conecta a ela por meio de uma mesma pergunta: o sistema mundial caminha para o restabelecimento de uma centralidade dos Estados Unidos mais agressiva, ou para uma multipolaridade que, apesar de seus limites de classe, oferece um espaço mais amplo para a independência dos povos?
O fortalecimento da extrema direita na América Latina não deve ser interpretado como um retorno automático ao passado, mas como expressão de uma crise social e política que pode ser explorada por diferentes forças. A ausência de uma alternativa popular clara e a incapacidade de setores da esquerda de ultrapassar os limites da gestão capitalista deixam o caminho aberto para que a direita se apresente como a força da ordem diante do caos. Por isso, a resistência ao imperialismo é inseparável da construção de uma alternativa social capaz de enfrentar o desemprego, a pobreza e a desigualdade. Caso contrário, a soberania nacional se transforma em uma palavra de ordem passível de ser absorvida por elites locais aliadas ao capital global.
A meu ver, a importância do atual confronto iraniano está em revelar os limites da hegemonia vigente e abrir a discussão sobre a alternativa, sem oferecer, por si só, uma resposta. O futuro dessa disputa também não será determinado apenas nos campos de batalha, mas igualmente no Brasil e na América Latina, onde se decidirá se a região será devolvida à função de quintal dos Estados Unidos ou se tornará um dos espaços de construção de uma independência estratégica e de uma nova solidariedade internacionalista. É isso que os próximos dias revelarão.
(*) Doutor em Direito Internacional, Professor da Universidade Federal do Paraná
https://www.brasil247.com/ideias/ira-e-a-crise-da-hegemonia-da-guerra-na-asia-ocidental-a-disputa-pelo-brasil-e-pela-america-latina/
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