:format(webp))
O dono de um pequeno negócio no Brasil dedica, em média, nove horas por semana a tarefas financeiras e burocráticas, como pagamentos, cobranças, emissão de notas fiscais e conferência de recebimentos. Projetada para um ano, essa rotina soma 468 horas.
O custo aparece também no que fica pelo caminho: 85% dos empreendedores dizem ter deixado de realizar alguma atividade importante para o crescimento ou a saúde do negócio nos três meses anteriores à pesquisa por causa da sobrecarga.
Os dados são do estudo “Tempo é dinheiro: quanto a burocracia financeira custa ao pequeno negócio brasileiro”, realizado pela Bridge Research a pedido do Nu Empresas, área do Nubank voltada às pessoas jurídicas.
O levantamento ouviu 1.200 donos de pequenos negócios, clientes e não clientes da instituição. Os resultados foram apresentados na manhã desta quinta-feira, 8, na sede do banco, em São Paulo, em um encontro com representantes da empresa de pesquisa e do Sebrae.
O planejamento foi a atividade mais frequentemente deixada de lado: 37% dos entrevistados disseram não ter planejado o crescimento da empresa para o ano seguinte por estarem ocupados com burocracia. Investir em divulgação e dedicar mais tempo aos clientes atuais também ficaram entre as principais renúncias.
“O problema não é só o tempo gasto com burocracia, é o que os empreendedores deixam de fazer com ele”, afirma Maximiliano Damian, vice-presidente do Nu Empresas.
Quais tarefas mais consomem o tempo do empreendedor
O peso da rotina financeira varia conforme o porte e a atividade. Entre os microempreendedores individuais, a dedicação média é de oito horas por semana. Nas micro e pequenas empresas, chega a dez. No recorte por tipo de operação, comércio e varejo registram 11 horas, ante oito horas entre escritórios e consultórios.
As obrigações fiscais e tributárias lideram a lista de atividades que mais consomem tempo, citadas por 43% dos entrevistados. Depois aparecem o controle de entradas e saídas, com 41%, e a emissão de notas fiscais, com 40%. A gestão do fluxo de caixa foi mencionada por 37%, e a conciliação de recebimentos — a conferência de que o dinheiro das vendas entrou na conta —, por 30%. A pergunta permitia selecionar mais de uma atividade.
A conta, portanto, não se limita às exigências tributárias. Inclui também rotinas de acompanhamento do dinheiro e de organização da operação que continuam ocupando a agenda de quem precisa vender, atender e planejar.
O que a empresa deixa de fazer quando a agenda está cheia
Além do planejamento, 35% dos empreendedores disseram ter deixado de investir em divulgação ou marketing nos três meses anteriores ao levantamento. A mesma proporção afirmou não ter dedicado mais tempo aos clientes atuais. Outros 33% deixaram de participar de cursos, treinamentos ou eventos do setor, e 21% não lançaram um novo produto ou serviço.
As respostas mostram como a sobrecarga alcança tanto a busca por novas receitas quanto o relacionamento com quem já compra da empresa. Entre os entrevistados, 45% concordaram com a afirmação de que já perderam oportunidades de negócio enquanto resolviam questões burocráticas e financeiras.
Há também um efeito sobre o bem-estar: 53% disseram que o tempo dedicado a essas tarefas causa estresse e ansiedade. E 68% acreditam que o negócio seria mais lucrativo se tivessem menos burocracia para resolver. Esse último resultado expressa a percepção dos empresários, não uma estimativa de aumento do lucro. O levantamento não calcula, em reais, a receita perdida ou o retorno financeiro de uma eventual redução dessas tarefas.
Por que vender no digital não significa ter uma gestão digital
O uso de meios digitais para receber pagamentos convive com controles financeiros feitos em ferramentas tradicionais. Segundo a pesquisa, 85% dos pequenos negócios recebem por Pix. Ao mesmo tempo, 53% gerenciam o fluxo de caixa e os controles financeiros em planilhas, e 23% usam papel ou caderneta. Softwares de gestão aparecem em 19% das respostas. Os entrevistados podiam indicar mais de uma ferramenta.
A diversidade de formas de pagamento acrescenta outra camada à administração. Os negócios pesquisados operam, em média, com três meios de recebimento diferentes; no comércio, são quase quatro. Na análise do estudo, a convivência entre canais, com seus respectivos extratos, prazos e taxas, ajuda a explicar o trabalho necessário para conferir as entradas de dinheiro.
A diferença entre receber digitalmente e organizar as informações aparece também nos relatórios: apenas 19% dos entrevistados têm algum relatório financeiro automatizado. A digitalização da venda, assim, não se traduz necessariamente em uma gestão igualmente automatizada.
Onde a inteligência artificial já ajuda os pequenos negócios
A inteligência artificial já foi experimentada por 66% dos donos de negócios ouvidos. Entre os que utilizaram a tecnologia, 68% recorreram a ela para criar textos, publicações ou conteúdo, e 63% para produzir imagens, artes ou vídeos. O uso em tarefas financeiras ou administrativas é menor: 30% desse grupo.
Isso não significa que os usuários não percebam resultados. Entre os empreendedores que já usaram IA, 59% afirmam que ela reduziu claramente o tempo e o esforço. Mas os dados mostram uma adoção mais concentrada na comunicação do que na organização financeira.
Para Valdir Oliveira, gerente nacional de crédito e capitalização do Sebrae, a utilidade da tecnologia depende de sua compreensão e aplicação à realidade da empresa. No painel, ele citou usos em atendimento, marketing digital, organização financeira e gestão de agendas. “A tecnologia precisa ser melhor compreendida para ser melhor utilizada”, afirmou.
Como a falta de caixa chega ao bolso do dono
A pesquisa também mostra a proximidade entre as finanças pessoais e as empresariais. Quando falta dinheiro no caixa, 26% dos entrevistados recorrem à reserva pessoal, e 11% ao cartão de crédito da pessoa física. Ao apontar os apoios de que mais precisam, 46% mencionam ajuda para separar o dinheiro do dono dos recursos da empresa.
A necessidade de planejamento financeiro, porém, não aparece apenas nos momentos de dificuldade. Renato Trindade, CEO da Bridge Research, observou no encontro que até a conquista de um cliente maior do que o esperado pode trazer novas demandas de crédito e organização para um pequeno negócio.
Oliveira defendeu que o acesso a financiamento seja acompanhado de orientação, no modelo que o Sebrae chama de crédito assistido. Na avaliação dele, a decisão não deve partir apenas do limite oferecido pela instituição financeira: o empreendedor precisa compreender a necessidade do negócio e a finalidade do dinheiro antes de contratar.
Como transformar tempo disponível em crescimento
Na hipótese apresentada pela pesquisa de que o banco automatizasse todas as rotinas de pagamentos e cobranças, metade dos entrevistados disse que dedicaria o tempo liberado à estratégia de vendas e crescimento. Outros 49% buscariam novos clientes e mercados, enquanto 46% investiriam em melhorar o produto ou serviço. Descansar ou passar mais tempo com a família foi uma das respostas de 41%. A questão admitia múltiplas escolhas.
Para Oliveira, liberar horas é apenas uma parte do desafio. É preciso transformar essa disponibilidade em produtividade, com melhorias na gestão, no atendimento e nas vendas. E isso nem sempre exige uma nova tecnologia. “Inovar é uma nova forma de olhar”, disse. Como exemplo, citou uma padaria que busca se diferenciar pelo atendimento, em vez de competir apenas no preço do pão com o supermercado vizinho.
Na avaliação do dirigente, o resultado deve aparecer no desempenho do negócio, e não apenas na quantidade de tarefas automatizadas. O desafio é usar melhor o tempo do empreendedor e da equipe para aumentar a produtividade — justamente o que a rotina operacional acaba deixando em segundo plano.
A pesquisa foi realizada em painel on-line e incluiu 560 microempreendedores individuais e 640 donos de micro e pequenas empresas. A ficha técnica informa margem de erro de 2,8 pontos percentuais para o total da amostra.
ACERCA DEL CORRESPONSAL
JOSé CARLOS FERREIRA
José Carlos Ferreira es corresponsal de Prensa Mercosur en Río de Janeiro, Brasil, con posibilidad de desarrollar su labor periodística en todo el territorio brasileño. Cuenta con experiencia profesional en comunicación y medios, vinculada a WBP Brasil y Rede Globo de Televisão, y posee especial interés en política, noticias regionales, reportajes y entrevistas. Su incorporación fortalece la presencia de Prensa Mercosur en Brasil, aportando experiencia, contenidos y una mirada cercana a la realidad brasileña para informar y conectar al país con la agenda del Mercosur.
- ★Burocracia financeira toma 9 horas por semana dos pequenos empreendedores, aponta estudo
- ★Quer investir na China sem sair da B3? BTG Pactual Asset fecha parceria com gigante chinesa para preparar novos ETFs
- ★Senado realiza a terceira sessão de discussão sobre PEC do fim da escala 6x1
- ★XP (XPBR31) pode ganhar um empurrão da Selic mais baixa; UBS BB eleva preço-alvo e vê até 25% de alta
- ★Morgan Stanley indica quais ações investir em cada cenário de 2º turno

