
Histéricas, desequilibradas, difíceis e até mesmo malucas! Ao longo da história, mulheres que fogem do comportamento esperado pela sociedade foram frequentemente descritas por termos que tentam reduzi-las ou desqualificá-las.
Na literatura, porém, essas personagens ganharam espaço para mostrar o que acontece quando uma mulher se recusa a caber nas expectativas impostas ao gênero feminino.
O termo “mulheres malucas” aparece como uma provocação para reunir histórias de protagonistas que desafiam regras e rompem padrões na sociedade atual.
Se você passou algum tempo no BookTok, provavelmente já encontrou vídeos sobre os chamados books about crazy women. A tendência reúne obras com protagonistas complexas e contraditórias, difíceis de enquadrar nas expectativas tradicionais sobre como uma mulher deveria agir.
Construção social e cultural
Para a professora Maria Amélia Dalvi, doutora em Educação e pós-doutora em Letras, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a figura da “mulher maluca” é uma construção social e cultural que também aparece na literatura, seja para reforçar estereótipos, seja para questioná-los.
É uma construção coletiva que, muitas vezes, é incorporada à literatura por razões diversas: da reiteração à desconstrução. Nada existe na literatura que, em alguma medida, não exista socialmente – e vice-versa.
Maria Amélia Dalvi, doutora em Educação e pós-doutora em Letras, da Ufes
Mas, afinal, existe diferença entre a “mulher louca” escrita por autores homens e aquela construída por autoras mulheres? A especialista explica que a resposta não é simples.
Para Maria Amélia, embora as experiências e formações de escritores e escritoras sejam diferentes e possam resultar em perspectivas distintas, a arte também permite ultrapassar essas circunstâncias.
Por um lado, sim; por outro, não. Se, por um lado, as experiências e formações de escritores e escritoras são diferentes e, por isso, produzem perspectivas diferentes; por outro, a arte justamente permite alguma superação ou transcendência dessas contingências, de modo que não é determinante para o resultado artístico ser homem ou mulher.
Já o interesse por personagens consideradas inadequadas ou inconvenientes está ligado à capacidade da literatura de romper com o previsível e ampliar as experiências do leitor.
A literatura nos ajuda a, com o anteparo da ficção, “viver” muitas vidas possíveis em uma só, multiplicando e assim ampliando nossas experiências.
Confira livros marcantes de “mulher maluca”:
Garota Exemplar – Gillian Flynn

O livro Garota Exemplar, de Gillian Flynn, começa com o desaparecimento de Amy Dunne no dia do aniversário de casamento com Nick. Enquanto a polícia investiga o caso, a imagem do marido começa a ser questionada e o relacionamento do casal passa a ser exposto.
Inteligente e estrategista, Amy desafia a ideia da “esposa perfeita” e mostra como as expectativas sobre feminilidade, casamento e comportamento podem ser usadas para manipular as pessoas ao seu redor.
Sem revelar as reviravoltas da trama- pois vale a pena uma leitura- a personagem é um dos grandes exemplos de mulher que se recusa a caber no papel que esperam dela.
A paixão segundo G.H. – Clarice Lispector

Em A Paixão Segundo G.H., de Clarice Lispector, G.H. é uma mulher de classe alta que vê sua rotina ser completamente transformada após encontrar uma barata no quarto de empregada de seu apartamento.
A partir desse encontro, ela mergulha em uma experiência de desconstrução de tudo o que conhecia sobre si mesma, sua identidade e o mundo ao redor. G.H. perde, aos poucos, as certezas que sustentavam sua vida e se confronta com sentimentos que não consegue controlar.
A Filha Perdida – Elena Ferrante

Em A Filha Perdida, de Elena Ferrante, mostra Leda, que é uma mulher que foge do ideal romantizado da maternidade. Durante uma viagem de férias, ela conhece uma jovem mãe e sua filha e passa a observar de perto a relação entre as duas.
A partir desse encontro, lembranças sobre a própria maternidade vêm à tona, revelando uma mulher cheia de contradições, desejos e arrependimentos. Leda não tenta se encaixar na imagem da mãe perfeita, e essa recusa que torna a personagem difícil de controlar.
A Paciente Silenciosa – Alex Michaelides

Em A Paciente Silenciosa, de Alex Michaelides, é narrada a história de Alicia Berenson, uma personagem que deixa de falar após ser acusada de matar o marido. Seu silêncio se transforma no grande mistério da história.
Enquanto um psicoterapeuta tenta descobrir o que aconteceu, Alicia é constantemente interpretada pelos homens ao seu redor. A trama questiona a relação entre silêncio, trauma e a forma como uma mulher pode ser vista e julgada pelos outros.
Jane Eyre – Charlotte Brontë

Órfã e marcada por uma infância difícil, Jane Eyre cresce enfrentando rejeição, violência e as limitações impostas às mulheres do século XIX. Ao se tornar adulta, ela busca independência e se recusa a aceitar um papel passivo, mesmo quando precisa enfrentar conflitos amorosos e as convenções sociais de seu tempo.
A personagem é interessante para pensar na representação de mulheres que desafiam as expectativas sociais. Jane não é apresentada como uma mulher “louca”, mas como alguém que insiste em ter voz, desejos e autonomia em uma sociedade que frequentemente tentava controlar o comportamento feminino.
Lá embaixo – Leonora Carrington

O livro Lá Embaixo se trata do relato autobiográfico da pintora e escritora Leonora Carrington sobre o período em que esteve internada em um hospício em Santander, na Espanha, após sofrer um colapso nervoso enquanto fugia da Segunda Guerra Mundial.
Crrington narra de forma visceral os seis meses em que esteve internada, período marcado por alucinações, tratamentos agressivos à base de drogas fortes e a perda temporária de controle sobre a própria sanidade.
A Vegetariana – Han Kang

Em A Vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang, é apresentada Yeong-hye decide parar de comer carne depois de ter sonhos perturbadores. A decisão, aparentemente simples, provoca uma reação cada vez mais intensa das pessoas ao seu redor.
Ao se recusar a seguir as expectativas da família e do marido, Yeong-hye passa a ser vista como alguém que precisa ser controlada.
A história explora o corpo, a violência, a autonomia e o conflito entre uma mulher que tenta romper com as regras impostas a ela e aqueles que não aceitam sua escolha.
https://www.folhavitoria.com.br/cultura/literatura/malucas-livros-sobre-mulheres-que-ninguem-consegue-controlar/
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