Da esquerda para a direita: o deputado Arlindo Chinaglia; o deputado Marcos Pereira; o chanceler Mauro Vieira; o vice-presidente Geraldo Alckmin; o presidente do Congresso, Davi Alcolumbre; o presidente da Câmara, Hugo Motta; a senadora Tereza Cristina; o senador Nelsinho Trad; e o senador Humberto Costa • Bruno Spada/Câmara dos Deputados
Impacto anual associado ao Brasil poderia chegar a 16 mil campos de futebol, mas desafios estruturais como infraestrutura, tributação e financiamento limitam competitividade do país e exigem modernização, segundo analistas.
Com a promulgação, nesta terça-feira (17), do acordo entre Mercosul e União Europeia pelo Congresso Nacional, o Brasil conclui a etapa de ratificação e avança em um dos maiores tratados comerciais já negociados pelo bloco.
O movimento reforça o potencial do país para ampliar sua presença no mercado europeu, especialmente em setores ligados ao agronegócio e à economia de baixo carbono. Ao mesmo tempo, esse avanço ocorre em meio a desafios internos e exigências regulatórias que podem limitar o aproveitamento pleno dessas oportunidades, colocando o país diante da necessidade de adaptação para competir em um ambiente mais integrado e rigoroso.
O EUDR (Regulamento da União Europeia relativo à Desflorestação), pode evitar a perda de cerca de 71,9 mil hectares de floresta por ano, o equivalente a aproximadamente 100 mil campos de futebol, além de reduzir em torno de 32 milhões de toneladas anuais de CO₂ associadas ao consumo europeu, segundo estimativas da Comissão Europeia.
Para o Brasil, o tema não é periférico. O país aparece entre os principais pontos de exposição da União Europeia à chamada “desflorestação incorporada” nas importações. Dados da iniciativa Trase indicam que, entre 2019 e 2021, o Brasil respondeu por 16% dessa exposição, ficando atrás apenas da Costa do Marfim.
Na prática, isso significa que uma parte relevante da pressão sobre florestas ligada ao consumo europeu passa pelo território brasileiro e, na mesma medida, parte dos benefícios potenciais do EUDR também pode se concentrar no país.
Se essa proporção for usada como referência, o impacto anual associado ao Brasil poderia superar 11 mil hectares de floresta preservada, algo próximo de 16 mil campos de futebol. Dependendo da metodologia adotada, há estudos que apontam uma exposição ainda maior da União Europeia ao desmatamento tropical com origem brasileira.
“O número exato pode variar conforme a metodologia, mas a direção é inequívoca: o Brasil está no centro dessa equação”, afirma Marisa Rodrigues, fundadora da Groundd e integrante do coletivo Woman in Nature Network.
Essa centralidade está ligada à dimensão ambiental do país. O Brasil reúne mais de 125 mil espécies de animais registradas e mais de 50 mil espécies de plantas e fungos. A Amazônia, sozinha, ocupa quase metade do território nacional e desempenha papel relevante na regulação do clima, na segurança hídrica e na manutenção da biodiversidade.
Ao mesmo tempo, o EUDR introduz mudanças práticas no funcionamento do mercado. O regulamento exige rastreabilidade, geolocalização e comprovação de legalidade para commodities como soja, carne bovina, café, madeira, cacau, borracha e óleo de palma.
“A lógica deixa de ser apenas produzir mais. Passa a ser produzir com origem comprovada, risco controlado e menor impacto sobre a floresta”, explica Marisa. Segundo ela, a tendência é de aumento nos investimentos em sistemas de monitoramento e controle das cadeias produtivas.
Para Valmir Rodrigues, CEO da MyTS, empresa de tecnologia voltada à rastreabilidade, essa mudança deve acelerar a adoção de soluções digitais no agronegócio brasileiro.
“A rastreabilidade deixou de ser apenas uma ferramenta de gestão e passou a ser um requisito de mercado. Tecnologias que garantam transparência, origem e conformidade ao longo de toda a cadeia produtiva serão essenciais para manter a competitividade no comércio internacional”, afirma.
De acordo com ele, empresas capazes de comprovar baixa exposição ao desmatamento tendem a ganhar vantagem junto a compradores, investidores e parceiros internacionais cada vez mais atentos à origem dos produtos.
Nesse cenário, a biodiversidade brasileira passa a assumir também um papel econômico e reputacional. A preservação ambiental, aliada à capacidade de monitoramento e transparência, tende a se tornar um diferencial competitivo no comércio agrícola.
Embora o EUDR não resolva sozinho a pressão sobre todos os biomas, já que seu foco está principalmente em florestas, o regulamento cria um precedente ao vincular acesso a mercados à proteção ambiental.
Para especialistas, o desafio agora vai além da adaptação às regras. Envolve a capacidade de transformar exigências regulatórias em estratégia de posicionamento internacional.
“Hoje, a questão já não é apenas se o Brasil conseguirá se adaptar ao EUDR. A pergunta mais estratégica é se o país saberá transformar essa pressão regulatória em uma oportunidade de liderança”, disse Marisa.
A formalização do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é apontada como um passo importante para aumentar a inserção do Brasil na economia global. A avaliação é do MBC (Movimento Brasil Competitivo), que destaca o potencial de expansão de mercados e de estímulo à modernização da indústria nacional.
Na prática, o acordo abre caminho para que empresas brasileiras tenham acesso mais amplo ao mercado europeu, ao mesmo tempo em que amplia a concorrência interna. Esse cenário pode incentivar investimentos, inovação e aumento da produtividade.
Potencial esbarra no “Custo Brasil”
A adoção das medidas, no entanto, esbarra em entraves, segundo analistas.
Apesar disso, especialistas alertam que o país ainda enfrenta desafios estruturais que limitam sua competitividade. Um dos principais é o chamado “Custo Brasil”, que pode chegar a cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, segundo levantamento do MBC (Movimento Brasil Competitivo) com apoio do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Esse valor representa gastos adicionais enfrentados por empresas para operar no país. Entre os principais fatores estão problemas de infraestrutura e logística, com impacto estimado em R$ 226 bilhões anuais; encargos e distorções no mercado de trabalho, em cerca de R$ 148 bilhões; o custo elevado de financiamento, ligado ao spread bancário, de R$ 113 bilhões; o risco-país, que aumenta o custo de capital, estimado em R$ 128 bilhões; e a complexidade tributária, com impacto superior a R$ 67 bilhões por ano.
Para Rodolpho Tobler, economista do MBC, acordos comerciais amplos podem ajudar a reduzir parte desses entraves ao estimular maior integração internacional. “O Brasil ainda é uma economia relativamente fechada. Um acordo dessa magnitude amplia mercados, aumenta a competição e cria incentivos para mais investimento, inovação e produtividade”, disse.
A abertura comercial gradual, nesse contexto, tende a reduzir tarifas de importação e ampliar a competitividade das empresas brasileiras, ao facilitar o acesso a produtos e inovações disponíveis no exterior.
Já Tatiana Ribeiro, diretora-executiva do MBC, destaca que o acordo ocorre em um momento de transformação da economia global. De acordo com ela, setores ligados à energia limpa, tecnologia digital e qualificação da mão de obra ganham cada vez mais relevância.
Nesse cenário, o Brasil apresenta potencial de crescimento, especialmente na transição energética e na economia digital. No entanto, ainda há desafios internos a serem enfrentados, como a modernização da infraestrutura logística, a simplificação do sistema tributário e a preparação da força de trabalho para novas tecnologias.
“O Brasil tem vantagens na transição energética e potencial para crescer na economia digital, mas ainda precisa avançar em agendas como modernização da logística, simplificação tributária, preparação da força de trabalho para as novas tecnologias e criação de condições mais claras para atrair investimentos em infraestrutura digital, como grandes centros de dados”, disse Tatiana.
Agro sai ganhando
O acordo prevê a eliminação de tarifas para uma parcela relevante das exportações agrícolas brasileiras.
Cerca de 77% dos produtos do agro hoje vendidos pelo Mercosul à União Europeia terão suas tarifas reduzidas a zero ao longo do tempo. Entre os itens incluídos estão café solúvel, peixes, crustáceos, óleos vegetais, sucos e frutas, com prazos de desgravação que variam entre quatro e dez anos.
Além disso, há produtos que terão acesso ampliado por meio de cotas com tarifas reduzidas, o que, embora represente uma melhora nas condições de acesso, tende a impor limites ao crescimento das exportações em determinados segmentos mais sensíveis para o bloco europeu.
CNN BRASIL
ACERCA DEL CORRESPONSAL
SANTIAGO MARTIN GALLO
Santiago Martín Gallo es un analista político, abogado y consultor internacional con una trayectoria de más de 25 años en temas de gestión pública y desarrollo sostenible.
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