
Longa protagonizado por Carolina Dieckmann aborda o alcoolismo feminino e o esgotamento físico e mental das mulheres modernas.
(Des)controle não é apenas um drama psicológico sobre uma mulher em crise. O longa se insere em um território mais sensível e ainda pouco explorado pelo cinema brasileiro: o alcoolismo entre mulheres adultas, mães e profissionalmente ativas — um fenômeno crescente, silencioso e frequentemente naturalizado.
Ao acompanhar Kátia Klein, escritora em aparente pleno funcionamento, o filme desloca o debate do campo moral para o estrutural. O álcool não surge como desvio de caráter nem como falha individual, mas como válvula de escape em uma rotina marcada por cobranças contínuas, jornadas sobrepostas e ausência de cuidado coletivo.
Um vício que se esconde atrás da normalidade
Diferentemente das representações tradicionais do alcoolismo, (Des)controle retrata um consumo que começa socialmente aceito, incentivado e até celebrado. Taças de vinho fazem parte do imaginário contemporâneo de autocuidado feminino, especialmente entre mulheres que acumulam trabalho, maternidade e responsabilidades familiares.
O filme expõe como essa normalização cria uma zona de invisibilidade: mães funcionais, presentes, produtivas e admiradas dificilmente são percebidas como pessoas em risco. O vício se constrói sem ruptura aparente, protegido pela imagem da eficiência.
Maternidade, culpa e exaustão permanente
A maternidade ocupa papel central na narrativa, não como ideal romântico, mas como espaço de sobrecarga emocional. Kátia administra filhos, prazos, afetos e expectativas em um regime de urgência permanente. O filme aponta, com precisão, como a culpa materna opera como combustível adicional para o adoecimento.
Não há tempo para falhar, tampouco para parar. Nesse contexto, o álcool surge como estratégia privada de sobrevivência, um anestésico que permite seguir funcionando quando o corpo e a mente já sinalizam colapso.
As relações afetivas retratadas no filme são marcadas menos por conflito aberto e mais por omissão cotidiana. A parceria conjugal, vivida por Caco Ciocler, revela como a divisão desigual das responsabilidades se perpetua mesmo sob discursos contemporâneos de equilíbrio e autocuidado.
O filme sugere que o adoecimento não ocorre apesar das relações, mas muitas vezes dentro delas, quando a carga emocional recai de forma sistemática sobre uma única pessoa.
A interpretação de Carolina Dieckmann sustenta o projeto justamente por evitar excessos. Sua personagem não pede socorro de forma explícita. O corpo permanece funcional enquanto o desgaste se acumula em gestos mínimos, silêncios prolongados e tentativas frustradas de manter o controle.
Essa escolha reforça a proposta do filme: o alcoolismo feminino raramente se manifesta como escândalo público. Ele se constrói na intimidade, protegido pela aparência de normalidade.
Direção escolhe a escuta, não o julgamento
Sob a condução de Rosane Svartman e Carol Minêm, (Des)controle evita o tom pedagógico e rejeita soluções fáceis. A narrativa não oferece redenção imediata nem transforma a recuperação em espetáculo.
O filme opta por permanecer na ambiguidade — espaço onde recaída, culpa, desejo de mudança e medo coexistem. Essa escolha confere densidade política à obra, ao reconhecer que o problema não se resolve apenas no indivíduo.
Ao tratar o alcoolismo feminino como consequência direta de um sistema que exige desempenho constante e oferece pouco amparo, (Des)controle amplia o debate sobre saúde mental, maternidade e gênero no Brasil contemporâneo.
Mais do que contar uma história pessoal, o filme lança uma pergunta incômoda: quantas mulheres seguem adoecendo em silêncio enquanto cumprem, com eficiência admirável, todas as expectativas que lhes são impostas?
Fuente: Amilton Farias é jornalista e editor do Fronteira Livre
