
Um parecer técnico da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) aponta que correntes marítimas da Foz do Amazonas contribuíram para dois vazamentos de fluido ocorridos no bloco 59 em janeiro deste ano, durante a operação da sonda ODN II, da Petrobras. Na quarta-feira (4), o órgão regulador autorizou a retomada da perfuração, condicionada ao cumprimento de uma série de exigências técnicas voltadas à segurança operacional.
Os vazamentos ocorreram em 4 de janeiro por falhas em linhas auxiliares à atividade de perfuração. O primeiro foi registrado na linha de booster, responsável por reforçar a circulação do fluido de perfuração, a cerca de 2.700 metros de profundidade. Horas depois, um segundo vazamento foi detectado a aproximadamente 1.900 metros, na linha de kill, utilizada para injetar fluido pesado no poço em situações de emergência, quando há risco de perda de controle da pressão.
Segundo os registros apresentados à ANP, o volume total descarregado nos dois vazamentos foi de pouco mais de 18 mil litros de fluido e os incidentes não comprometeram a integridade do poço.
O parecer registra que danos nas vedações das tubulações causaram o vazamento, relacionados aos “esforços operacionais de vibração e curvatura da coluna de riser oriundos da corrente marítima, mesmo dentro dos limites de projeto”.
O riser é o conjunto de tubulações que liga o poço, no fundo do mar, à plataforma na superfície. Ele é formado por vários tubos metálicos conectados entre si, chamados de juntas de riser, onde ficam os pontos de vedação mais sensíveis a vibração, curvatura e desgaste mecânico.
“Desde o início do processo de licenciamento do bloco 59 especialistas alertavam para as fortes correntes marítimas na Foz do Amazonas, e a análise da ANP parece confirmar que o risco apontado é real”, avalia Shigueo Watanabe Jr, especialista em mudanças climáticas e energia do ClimaInfo.
Desde o início do processo de licenciamento do bloco 59 especialistas alertavam para as fortes correntes marítimas na Foz do Amazonas, e a análise da ANP parece confirmar que o risco apontado é real.
Shigueo Watanabe Jr
Watanabe Jr lembra que as fortes correntes marítimas da região já haviam impedido, em 2011, a Petrobras de perfurar um poço em uma área próxima ao bloco 59, também em águas profundas da Foz do Amazonas. Na ocasião, a sonda estava ancorada e foi desprendida pela força oceânica, em um acidente que provocou abandono de equipamentos no fundo do mar e vazamento de fluidos, resultando em multas à empresa estatal.
O novo parecer da ANP também registra a contribuição de uma resposta insuficiente das estruturas instaladas ao longo do riser, responsáveis justamente por reduzir a vibração causada pelas correntes marítimas. Além disso, aponta para possíveis pequenos desvios na instalação dos selos das juntas — que vedam o riser para não haver vazamento —, como falhas de lubrificação ou presença de impurezas.

Embora as avaliações indiquem que não houve danos estruturais à tubulação principal, a agência identificou fragilidades nos procedimentos de prevenção e monitoramento adotados até então, e informou que irá avaliar o resultado de duas auditorias em andamento, para verificação do sistema de segurança operacional e na sonda de perfuração.
A ANP também condicionou a retomada da perfuração à substituição integral de todos os selos das juntas de riser, à comprovação de treinamento das equipes, ao aumento da frequência de monitoramento de vibrações nos primeiros meses da operação e à proibição do uso de juntas de riser reserva sem certificação.
“À exceção das impurezas — algo aparentemente interno à tubulação onde houve o vazamento —, os demais pontos listados [pela ANP] têm relação com as correntes: vibrações excessivas na sonda de perfuração, curvatura do riser e possíveis desvios na instalação”, avaliaram Alexandre Gaspari, jornalista e especialista em energia do ClimaInfo, e Shigueo Watanabe Jr..
Correntes marítimas poupam reservas por décadas
As mesmas correntes marítimas intensas que hoje desafiam a exploração de petróleo na Foz do Amazonas ajudaram, por décadas, a manter a região fora do mapa da produção petrolífera.
Desde a década de 1970, as principais petroleiras internacionais e a própria Petrobras tentam perfurar a costa amazônica em busca de petróleo. No entanto, as condições oceânicas adversas, como correntes fortes, grande variabilidade de marés e profundidades extremas e, mais recentemente, as exigências ambientais, mantiveram essas reservas intocáveis —até outubro do ano passado, quando o Ibama liberou a perfuração do bloco 59, após forte pressão política.
Um levantamento da InfoAmazonia, com base em dados oficiais da própria ANP, mostra que acidentes mecânicos interromperam uma em cada quatro tentativas de perfuração nas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas, na costa da Amazônia, desde 1970.
Dos 156 poços autorizados nesse período, 41 tiveram as atividades paralisadas por falhas mecânicas, proporção quase quatro vezes maior do que a registrada nas bacias de Campos e Santos, no Sudeste.
Os acidentes se repetem ao longo da história. Em 1975, após o rompimento da tubulação da plataforma Zephir II, na Foz do Amazonas, a Petrobras anunciou que passaria a estudar as correntes da região para identificar “qual a melhor época do ano para perfurar”, segundo reportagens da época. Três anos depois, em 1978, uma sonda da Shell teve equipamentos danificados pelas correntezas durante operações na mesma margem continental.


Mais recentemente, em 2023, um parecer técnico do Ibama recomendou arquivar qualquer processo de licenciamento para explorar o bloco 59, alertando para a dificuldade de resposta a um eventual acidente. “Caso ocorra um acidente de grandes proporções, qualquer mudança na deriva do óleo acarretará em danos que dificilmente serão evitados ou mitigados, podendo se dirigir a áreas sensíveis e de difícil acesso na costa brasileira”, explicou um trecho do documento. Mesmo assim, o processo seguiu aberto e acabou sendo autorizado.
Atualmente, 38 blocos já foram concedidos nas bacias da Foz do Amazonas, Pará-Maranhão e Barreirinhas, com forte participação das petroleiras norte-americanas ExxonMobil e Chevron, que, em junho de 2025, na esteira da liberação do bloco 59, assumiram participação em 19 concessões na costa amazônica. A Shell, que já detém seis blocos na região, também pressionou publicamente o governo brasileiro pela abertura da nova fronteira petrolífera.
Mais de 270 áreas seguem em fase de estudos ou oferta, podendo ser incluídas em novos leilões.
Fábio Bispo
Fuente de esta noticia: https://infoamazonia.org/2026/02/06/correntes-maritimas-contribuiram-para-vazamentos-em-poco-da-petrobras-na-foz-do-amazonas/
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