
A invasão e os ataques militares contra a Venezuela não podem ser reduzidos à narrativa simplista de que se trata de uma resposta ao ‘autoritarismo’ de Nicolás Maduro ou a uma suposta guerra ao narcotráfico. Essa leitura, amplamente difundida por setores alinhados à política externa dos Estados Unidos, ignora o fator central que move a ofensiva: a disputa geopolítica global por influência, recursos estratégicos e controle territorial. Em outras palavras, trata-se de puro colonialismo imposto pelo governo americano, também conhecido como o ‘Senhor das Guerras’.
A Venezuela tornou-se, nos últimos anos, um ponto sensível no tabuleiro internacional ao aprofundar suas relações econômicas, energéticas e militares com Rússia e China. Em um cenário de transição para uma economia baseada em tecnologia de ponta, inteligência artificial e transição energética, perder influência sobre países detentores de petróleo, gás, terras raras e minerais estratégicos representa uma derrota estratégica para Washington.
Não é coincidência que as pressões, sanções e agora ações militares se intensifiquem justamente contra nações que buscam maior autonomia econômica e diversificação de parcerias fora da órbita norte-americana. A retórica da “defesa da democracia” tem sido historicamente utilizada como justificativa para intervenções que, na prática, visam garantir acesso privilegiado a recursos naturais e reposicionar áreas de influência.
É legítimo criticar o governo Maduro, suas práticas políticas e seus limites democráticos. Mas apoiar ou relativizar uma intervenção militar estrangeira é abrir precedente para que a mesma lógica seja aplicada contra qualquer país que detenha riquezas estratégicas — inclusive o Brasil.
A história da América Latina é marcada por intervenções diretas e indiretas dos Estados Unidos: golpes patrocinados, bloqueios econômicos, guerras por procuração e ocupações militares. O roteiro se repete: primeiro, a desestabilização política e econômica; depois, a intervenção; em seguida, a “reconstrução” conduzida por grandes conglomerados empresariais norte-americanos; e, por fim, o lucro com o espólio da guerra, seja por meio da exploração de recursos, da venda de armas ou da imposição de modelos econômicos dependentes.
Apesar de sustentar a imagem de bastião da democracia, os Estados Unidos figuram historicamente como um dos principais promotores de guerras e intervenções no mundo. Essa política externa agressiva, longe de fortalecer sua economia, expõe uma realidade de declínio estrutural. A economia norte-americana enfrenta dificuldades há anos, e a perda de hegemonia sobre regiões estratégicas, como a América Latina, agrava esse cenário.
A independência territorial, política e econômica dos países latino-americanos não é uma ameaça à democracia global — é, na verdade, o que mais incomoda um império acostumado a ditar regras. Defender a soberania da Venezuela, portanto, não significa endossar seu governo, mas sim rejeitar a normalização da ingerência estrangeira.
Aceitar a invasão da Venezuela hoje é aceitar, amanhã, a mesma lógica aplicada contra países que decidem o caminho da sua liberdade política e econômica, abandonando a dependência americana. Isso vale para qualquer nação que detenha petróleo, água, biodiversidade, terras raras ou capacidade industrial própria. Trata-se menos de Maduro e mais de um aviso ao Sul Global: quem tenta ‘sair da linha’ paga o preço.”
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Amilton Farias é jornalista e editor chefe do Portal Fronteira Livre
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