
247 – O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, começou a construir uma identidade política própria de olho nas eleições presidenciais de 2028, em meio à crise enfrentada pelo Partido Republicano após a perda do controle do Congresso nas eleições de meio de mandato. Segundo análise publicada pela agência Reuters, Vance passou a enfatizar suas próprias prioridades políticas, evitando associar excessivamente sua imagem à do presidente Donald Trump, cuja impopularidade contribuiu para a derrota republicana.
A mudança ficou evidente nos últimos discursos de campanha e, sobretudo, na reação do vice-presidente ao resultado eleitoral. Vance atribuiu parte do fracasso republicano à guerra contra o Irã, defendeu o encerramento rápido do conflito e pediu uma revisão das relações externas dos Estados Unidos, incluindo os vínculos com Israel.
A Reuters analisou seis discursos realizados pelo vice-presidente desde a convenção republicana de setembro e identificou uma concentração crescente em três temas: nacionalismo econômico, contenção na política externa e segurança pública. Segundo pessoas familiarizadas com sua estratégia, Vance considera essas áreas fundamentais para construir sua própria autoridade política.
Guerra contra o Irã aprofunda divergências no campo republicano
Na quarta-feira, após a derrota nas urnas, Vance publicou uma avaliação do resultado eleitoral em suas redes sociais. O vice-presidente afirmou que a guerra contra o Irã contribuiu para o desgaste republicano e defendeu que o conflito seja encerrado rapidamente.
Também pediu que o partido concentre esforços na redução do custo de vida, reavalie suas prioridades internacionais e repense a relação dos Estados Unidos com Israel.
Foi a primeira manifestação pública de Vance em defesa do fim da guerra, uma posição que contrasta com a insistência de Trump em justificar a ofensiva militar.
O presidente reconheceu que o conflito prejudicou eleitoralmente os republicanos, especialmente em razão da alta dos preços da gasolina, mas rejeitou qualquer arrependimento.
“Eu não teria feito nada diferente”, afirmou Trump a jornalistas.
Apesar da diferença de posições, três pessoas familiarizadas com as discussões na Casa Branca disseram à Reuters que Vance não pretende romper com o presidente. A chefe de gabinete de Trump, Susie Wiles, teria sido informada antecipadamente sobre a publicação do vice-presidente.
A agência não conseguiu determinar se o próprio Trump tinha conhecimento da mensagem antes de sua divulgação.
Donald Trump Jr., filho mais velho do presidente, manifestou apoio às declarações de Vance, assim como outros integrantes do movimento conservador.
Para Michael Ricci, estrategista republicano que trabalhou com os ex-presidentes da Câmara John Boehner e Paul Ryan, o vice-presidente está tentando influenciar a definição das prioridades do partido para os próximos anos.
“É simplista dizer que isso se trata de ele procurar maneiras de se diferenciar de Trump. Trata-se de usar o megafone da vice-presidência para definir os termos do debate”, afirmou.
Vance enfrenta desafio de herdar eleitorado de Trump sem carregar seu desgaste
Aos 42 anos, JD Vance é considerado um dos principais nomes republicanos para a disputa presidencial de 2028, embora ainda não tenha anunciado uma candidatura.
Trump também não indicou quem pretende apoiar como sucessor, deixando aberta a disputa pelo comando político do movimento conservador.
O desafio de Vance será preservar o apoio da base eleitoral trumpista e, simultaneamente, construir uma imagem capaz de conquistar eleitores que rejeitam aspectos da atual administração.
Segundo integrantes do Partido Republicano, o vice-presidente ainda não possui uma estrutura política nacional comparável à construída por Trump ao longo da última década.
Para os democratas, entretanto, qualquer candidato republicano enfrentará dificuldades para se desvincular do legado do atual presidente.
“Há um desafio real em como se posicionar para ser competitivo em uma eleição geral e, ao mesmo tempo, vencer uma primária que ainda exige que você se curve e beije o anel”, afirmou o estrategista democrata Igor Volsky.
Derrota eleitoral também expôs limites da influência de Vance
A tentativa de construir uma candidatura própria ocorre em um momento de questionamentos sobre a capacidade de Vance de transferir votos a outros republicanos.
O partido sofreu derrotas em estados nos quais o vice-presidente participou diretamente da campanha.
Algumas estratégias apoiadas por ele também se tornaram controversas. Entre elas, um anúncio do republicano Vivek Ramaswamy, candidato ao governo de Ohio, que lançou dúvidas sobre o abuso sexual sofrido pela democrata Amy Acton, vencedora da eleição.
Outros possíveis concorrentes à indicação presidencial republicana apresentaram avaliações diferentes sobre as causas da derrota.
O senador Ted Cruz, do Texas, afirmou que o partido não deu atenção suficiente às dificuldades econômicas das famílias americanas.
O governador da Flórida, Ron DeSantis, criticou candidatos que concentraram suas campanhas em questões relacionadas a pessoas transgênero, deixando em segundo plano preocupações econômicas e tecnológicas, como a expansão de centros de dados e da inteligência artificial.
O secretário de Estado Marco Rubio, também apontado como possível presidenciável, não se pronunciou sobre o resultado.
Vice-presidente aposta em nacionalismo econômico e segurança pública
Nos últimos comícios antes das eleições, Vance procurou apresentar uma agenda centrada na prosperidade econômica, no combate a fraudes em programas federais e no endurecimento das políticas migratórias.
O vice-presidente evitou abordar diretamente a guerra contra o Irã, os preços da gasolina e até mesmo mencionar Trump com frequência.
Em um evento na Carolina do Norte, apresentou sua visão política por meio de uma mensagem sobre o futuro das famílias americanas.
“Quero que meus filhos formem uma família em um país vibrante, próspero, livre e bem-sucedido. Quero as coisas simples. E, porque quero isso para mim, também quero isso para vocês”, declarou.
A estratégia reflete uma tentativa de preservar elementos centrais do discurso nacionalista que levou Trump ao poder, mas com maior ênfase nas preocupações econômicas cotidianas e em uma política externa menos intervencionista.
A derrota republicana e o desgaste provocado pela guerra contra o Irã abriram uma disputa sobre o futuro do conservadorismo americano. Nesse cenário, Vance procura se apresentar como um possível herdeiro político de Trump, mas com prioridades próprias.
Sua principal dificuldade será convencer o eleitorado republicano de que representa a continuidade do movimento que levou Trump à Presidência, ao mesmo tempo que busca se afastar das decisões que contribuíram para a perda do controle do Congresso.
https://www.brasil247.com/mundo/vance-tenta-se-descolar-de-trump-e-construir-candidatura-presidencial-para-2028-apos-derrota-republicana/
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