
Filho de José Alencar, vice-presidente nos dois primeiros mandatos de Lula, o empresário Josué Gomes, presidente da Coteminas e ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), defendeu, em longo artigo na Folha de S.Paulo, que a política de juros, que mantém a taxa Selic em 13,75% ao ano, seja incluída no debate sobre o ajuste fiscal. Alencar citou o artigo do economista, André Lara Resende, atacado pela Faria Lima e até por setores progressistas, ao afirmar que o tema não pode ser “censurado”.
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No texto, intitulado “Interdição ao debate sobre os juros tem de acabar”, Gomes faz um apelo para “um pacto nacional para recuperar a capacidade de crescimento da economia e superar um dos maiores entraves ao nosso desenvolvimento: o custo extraordinariamente elevado do dinheiro”.
Ao introduzir o tema, o empresário pede “reflexão” sobre o pânico nos mercados após a vitória de Lula nas eleições presidenciais, atrelando à “frustração das apostas de investidores” em Flávio Bolsonaro e criticou a interferência do “mercado” que tenta “determinar sozinho como o Brasil deve organizar seu ajuste”.
“Mas há uma questão ainda mais preocupante: estabeleceu-se uma espécie de interdição ao debate sobre os juros. Todos reconhecem que precisam cair, mas qualquer discussão sobre como alcançar esse objetivo que não se limite a cortes de despesas públicas é recebida com desconfiança ou desqualificada antecipadamente”, emenda.
Em seguida, o ex-presidente da Fiesp cita o artigo de André Lara Resende, um dos criadores do Plano Real, que coloca a política de juros e os ganhos dos detentores de títulos públicos no centro da discussão.
Em “Eu Acuso: Uma Proposta para Eliminar os Juros Absurdos”, publicado em 25 de setembro, Lara Resende sugere reduzir gradualmente a Selic de 13,75% para aproximadamente 7,5% em 12 meses, além de criar um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar metas de juros, inflação e contas públicas.
O texto foi duramente criticado por uma gama de economistas que vai da Faria Lima ao campo progressista ao inverter a lógica do debate fiscal brasileiro, que busca responsabilizar as despesas públicas pelo crescimento da dívida e exige cortes orçamentários em programas sociais e áreas como saúde e educação, ao serem desvinculadas do orçamento da União.
“O debate suscitado pelo trabalho técnico do economista André Lara Resende é um exemplo dessa dificuldade. Não precisamos concordar com suas propostas para reconhecer a importância de discuti-las. O que não podemos aceitar é que sejam censuradas antes mesmo de um debate lúcido. Uma sociedade que pretende resolver problemas complexos não pode transformar em tabu a discussão sobre o custo mais elevado da economia“, diz Josué Gomes em seu artigo.
Consenso nacional: reduzir juros
O filho do histórico vice de Lula afirma em seguida que “existe um consenso nacional: precisamos reduzir os juros”.
“O endividamento dos indivíduos, das famílias, das empresas e dos governos exige isso. Precisamos, também, de responsabilidade fiscal. É necessário rever despesas, combater desperdícios, avaliar subsídios, eliminar privilégios e melhorar a eficiência do Estado. Mas o ajuste não pode, simplesmente, transferir a conta para os programas sociais e para quem mais depende deles”, descreve.
Gomes então chama o mercado financeiro para a responsabilidade e defende que o ajuste recaia também sobre os lucros exorbitantes pagos nos juros da dívida pública.
“Há uma característica curiosa no Brasil: todos defendem o ajuste fiscal, desde que seja feito à custa dos outros. Cada segmento da sociedade tem sua proposta, mas quase sempre a despesa a ser cortada é aquela da qual não se beneficia. Quando se chega aos próprios interesses, desaparece a disposição para o sacrifício. Isso vale para todos, inclusive para o mercado financeiro”, escreve.
“Também não podemos limitar a discussão ao resultado primário”, diz ainda, sobre o mecanismo que calcula o que o governo arrecada e tudo o que gasta, sem considerar os juros da dívida pública.
“Quando o déficit nominal se aproxima de 10% do PIB, é indispensável reconhecer o peso dos juros nessa equação. Nos 12 meses até agosto de 2026, os juros nominais do setor público custaram R$ 1,18 trilhão, ou 8,86% do PIB. Não há como discutir a sustentabilidade da dívida ignorando esse custo”, diz.
“Não se trata de defender a redução artificial dos juros. Trata-se de reconhecer que a política monetária também precisa ser discutida, que suas premissas não são dogmas e que a autonomia do Banco Central, conquista institucional importante, não significa ausência de debate ou imunidade à crítica”, emenda o empresário.
Por fim, Gomes defende que se reúna “a inteligência nacional em torno de uma mesa não para impor uma solução previamente escolhida, mas para construir um diagnóstico comum e avaliar alternativas que compatibilizem equilíbrio fiscal, estabilidade monetária, redução dos juros e crescimento”.
“A eleição terminou. As apostas de parte do mercado foram frustradas. Mas nossos problemas estruturais continuam. É hora de abandonar a disputa sobre quem deve pagar a conta e começar a discutir como podemos torná-la menor para todos. O Brasil precisa de responsabilidade fiscal, monetária e social. Mas precisa, sobretudo, de coragem para pensar diferente, generosidade para ouvir e maturidade para construir soluções. Se não formos capazes de nos sentar à mesma mesa, continuaremos presos a juros que sufocam nosso presente e comprometem nosso futuro. E não podemos mais nos dar esse luxo”, conclui.
https://revistaforum.com.br/revista-forum/ajuste-fiscal-josue-gomes-juros-censurado-lara-resende/
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