
A Justiça alemã começou nesta sexta-feira (06/11) o julgamento de quatro dirigentes do Königreich Deutschland (“Reino da Alemanha”), facção do movimento Reichsbürger, que rejeita a democracia atual. Entre os réus está Peter Fitzek, de 61 anos, fundador do grupo em 2012 e autoproclamado “soberano supremo” do chamado Reino.
Fitzek e os outros três acusados, com idades entre 38 e 47 anos, respondem por liderar uma organização criminosa e por crimes econômicos e tributários. O Ministério Federal do Interior proibiu a facção em maio de 2025. Os quatro foram detidos durante uma operação policial e permanecem em prisão preventiva.
Segundo a promotoria, o grupo pretendia formar um “contra-Estado” na Alemanha e, futuramente, ampliar seu domínio até as fronteiras do Império Alemão de 1871. Fitzek seria o “chefe incontestável”, com poder de decisão nas áreas essenciais. A organização mantinha estruturas próprias, como banco, moeda, cartório, planos de saúde e previdência e um sistema fictício de passaportes.
Durante a leitura da acusação, que durou mais de uma hora, Fitzek sorriu, folheou documentos e dirigiu-se diversas vezes à plateia, onde estavam apoiadores do grupo proibido. Ao ser questionado sobre seus dados pessoais, afirmou que desde 2012 se chama “Peter, 1º” e declarou sua nacionalidade como “Reino da Alemanha”.
A facção teria arrecadado cerca de dez milhões de euros entre 2020 e 2025, por meio de transações ilícitas, doações, presentes e seminários pagos. Segundo a acusação, os valores não foram informados às autoridades fiscais, e impostos de renda e contribuições previdenciárias de funcionários deixaram de ser pagos. A defesa de Fitzek contesta que o processo seja tratado como questão de segurança do Estado e afirma que o caso deveria tramitar em outro foro, como crime de colarinho branco.
O julgamento ocorrerá em uma unidade de segurança máxima do Tribunal Regional Superior de Düsseldorf. Estão previstas 52 sessões, com encerramento estimado para setembro de 2027. O “Reino da Alemanha” era considerado o maior subgrupo do movimento Reichsbürger. Na época da proibição, dizia ter mais de 6.000 adeptos, enquanto as autoridades estimavam cerca de mil; o núcleo de liderança teria entre 40 e 60 integrantes.
Alguns membros viviam em comunidades isoladas na Turíngia e em Brandemburgo. O Departamento Federal para a Proteção da Constituição descreveu o grupo como uma “comunidade sectária” e um “Estado de fantasia”. Em 2024, relatos sobre crianças dessas comunidades que não eram registradas em cartório nem frequentavam a escola chamaram atenção na Alemanha.
O Reichsbürger considera a República Federal da Alemanha uma construção artificial imposta após a Segunda Guerra Mundial e vê o Império Alemão de 1871–1918 como a única Alemanha legítima. Parte dos seguidores produz documentos próprios e adere a teorias conspiratórias, incluindo QAnon e a ideia de um “Estado profundo”. Outra facção, a União Patriótica, foi desarticulada em 2022, suspeita de planejar derrubar o governo e invadir o Bundestag. Cerca de 27 pessoas foram acusadas nesse caso, no qual foram encontradas 380 armas de fogo; três julgamentos começaram em abril de 2024.
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