
Há uma máxima na política segundo a qual não existe vácuo de poder. Com a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o quarto e último mandato, a perspectiva de um espaço vazio na liderança da esquerda abriu a temporada de apostas sobre quem ocupará esse lugar nas próximas eleições. Ao longo da trajetória, Lula foi uma estrela que ofuscou várias outras. Por isso, as especulações partem de um exercício: olhar ao redor em busca de alguém com carisma suficiente para substituí-lo. Um dos nomes que começam a circular é o de Flávio Dino, ministro do STF (Supremo Tribunal Federal).
Dino era ministro da Justiça quando o governo enfrentou a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Depois, foi indicado por Lula ao Supremo, onde ainda hoje é visto, inclusive pelos colegas, como o “mais político” da Corte. Ele não escondeu essa característica ao demonstrar pleno entendimento das razões e dos efeitos da crise aberta no tribunal pelo envolvimento de ministros com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Ao pedir vista do caso na desastrosa sessão que colocou pelo menos cinco integrantes da Corte na berlinda, afirmou que não se preocuparia com as condenações públicas. Disse que agiria com “responsabilidade” diante do desgaste da instituição e da tentativa de influenciar as eleições. “Presidente, com todo respeito, não me importa se haverá no meu Instagram ou no meu Facebook milhares de mensagens dizendo da impunidade da corrupção. Eu tenho responsabilidade com este país”, declarou na ocasião, dirigindo-se ao presidente do STF, Edson Fachin.
Agonia e sonho
Por mais que pareça esdrúxula, a ideia de Dino voltar para a política é discutida entre parlamentares. O assunto aparece entre deputados e senadores do centrão, inclusive os que resistem ao ministro por sua postura em relação às emendas. Também surge entre integrantes da direita que o rejeitam e entre membros da esquerda que ainda não vislumbram uma opção fora do PT.
Um político muito ligado a Dino observou, reservadamente, a repercussão de uma postagem em que o ministro falava sobre o respeito à Constituição. “Tem 30 leitores esculhambando com ele e outros 70 dizendo que ele pode ser um bom nome para presidente”, disse. “Não deve ignorar quando as pessoas, espontaneamente, lembram do teu nome. Há um certo setor da sociedade que enxerga nele uma combinação boa. Uma pessoa que tem trajetória, tem experiência nos três poderes, tem um perfil solidamente democrático, é muito competente”, acrescentou.
O mesmo aliado, no entanto, ponderou: “Hoje, ele responderia ‘cada dia com sua agonia’”. A frase revela uma indecisão que contrasta com a época em que Dino repetia a interlocutores o desejo de, um dia, incluir no currículo uma disputa pela Presidência da República.
Os obstáculos para um retorno à política são antigos. Dino passou pelo PCdoB e pelo PSB, aliados do PT que sempre guardaram ressalvas ao protagonismo petista nas alianças. “A chance de o PT abrir mão desse lugar é nula”, afirmou um interlocutor assíduo do ministro. Na avaliação dele, até a indicação ao STF teve também a função de tirar Dino do jogo eleitoral.
https://platobr.com.br/a-torcida-para-que-dino-largue-a-toga-e-volte-para-a-politica
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